As explicações

Pensei em “censurar” algumas partes do texto abaixo, mas acho injusto comigo e com tudo o que eu disse.
A primeira pessoa a quem sempre mostro meus textos se mostrou imensamente insatisfeita com minha realidade, não importando se ela á a minha realidade ou a realidade do mundo. Afinal de contas isso só interessa a mim. Ninguém quer realmente saber se tudo se passa na minha cabeça, no meu coração ou se não existe simplesmente.
Todo mundo espera que você sorria sempre, que adore viver, que ame incondicionalmente quem está ao seu lado.
Não sei ao certo que explicações dar e nem se elas são necessárias. Acredito piamente que as pessoas que realmente me conhecem sabem do que eu falo, sabem o que eu sinto e sabem porque escrevo.
É impossível descrever esse misto de sentimentos que toma conta de mim em qualquer momento do dia, e mais difícil ainda explicar como todos eles se confundem e como mudam a cada 5 segundos.
São 09:57 horas de uma segunda feira que começou, como dizemos, com o pé esquerdo. Não sei se quero “corrigir” nada.
Gostaria apenas de dizer que as verdades são muitas, e mudam, porque nada é fixo e eterno. Talvez a imagem que façam de nós, por um erro cometido ou por uma coisa linda que fizemos uma única vez na vida, é que perdure na cabeça das pessoas eternamente. Se você errou meu caro, as pessoas se lembrarão disso pra sempre. Se você acertou, lembrarão uns poucos dias, meses talvez, mas suas vitórias entrarão para sua prateleira particular e provavelmente só você terá acesso a elas.
O que eu tento dizer é que não estou escrevendo meu diário, escrevo e reescrevo, mudo de idéias após escrever e nada fica eternamente aqui.
Não posso agradar a todos, nem posso ser tão imprudente e dizer que minha vida é um poço de felicidade quando não é. E porquê? Porque eu não mudo nada. Porque eu continuo sentada no meu egoismo já citado esperando os dias passarem, esperando que as pessoas possam ler as entrelinhas, que saibam distinguir uma coisa da outra: a que escreve e a que vive; a que anda pelas ruas, que conversa com as pessoas, que dá risada e que sente imenso prazer em fazer as pessoas rirem. A pessoa que defende o que pensa, e o que os outros pensam. A pessoa que mesmo que não concorde, acredita que o outro tem pleno direito de se manifestar da maneira que achar que deve, que acredita que é.
A foto? Ah… bem, eu choro. Choro porque apenas eu me compreendo. Porque as pessoas fingem que te entendem com um propósito que ainda não descobri. Algumas por medo das loucuras que julgam que você é realmente capaz de fazer, outras porque acreditam que essa é sua missão: entender o próximo não entendendo a si mesmo. Quem sabe ao certo porque fazem isso?
Verdades? Elas não existem, ou melhor existem tantas que você pode escolher a que quer usar agora, a que te serve melhor no trabalho, na escola, em casa ou diante do espelho, cara a cara com você.
Quanto à mim? Escreverei sobre as árvores. Deve afinal haver um certo consenso no tocante de que elas são necessárias.
O que resta? Se alguém precisar, desculpe por ser direta demais ou totalmente indireta. Sincera demais ou muito presa ao mundo que criei, e que muito provavelmente só eu entendo e acredito que exista.
De resto? De resto eu continuo aqui. Fazendo o que sempre fiz: lutar para que alguma coisa pareça certa, para que nem tudo pareça a merda que às vezes parece ser. E tentando acreditar que todo mundo é diferente de mim.
O que é escrito fica, o que é sentido passa. O que é dito? Nada.
O que fazer? Acreditar, talvez. E guardar minhas mémorias num caderninho que é mais seguro.
O blog? Ah… o blog irrita muita gente. Falaremos da natureza…
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As minhas descobertas

Nasci numa segunda feira paulistana em 12/01/1981. Tive uma infância bacana, vivia brincando com meus irmãos mais velhos, filhos do primeiro casamento de meu pai, e apesar do ciúmes, também brinquei muito com meu irmão mais novo.
Carreguei inúmeras dúvidas sobre o amor de meus pais por mim. Costumo brincar quando minha mãe diz que meu pai chorou quando nasci, dizendo que ele fez isso porque sabia que teria mais uma boca para alimentar.
Quanto à minha mãe, como ela sempre falava mal de minha avó materna e me dizia que eu parecia muito com ela, julgava que ela não gostava de mim, justamente porque também não gostava da própria mãe. Mas isso tudo já passou.
Saí de São Paulo aos 8 anos e fomos morar em Terra Roxa depois que meus pais se separaram. Depois que fizeram as pazes nos mudamos para uma cidade que parecia ter saído dos filmes de velho oeste: Cruzeiro do Oeste, também no Paraná. Lá passei minha adolescência, que apesar de não ter sido ruim, também não julgo boa.
Fiz muitas coisas maravilhosas que me ajudaram a ser quem sou hoje, mas nem tudo é cor de rosa.
Experimentei de tudo um pouco: drogas, sexo, ódio, medo, solidão, culpa, loucura, tentativa de suicídio.
Um dia decidi que não queria ser como as meninas que eu conhecia, queria ser eu mesma e só. Queria ser única, se é que nesse mundo tão gigante é possível ser plenamente único.
Resolvi fazer faculdade e sair de casa. Já tinha 20 anos mas era uma menina – apesar de tudo – mimada.
Chorei todas as lágrimas que julgava ter. Pensei em desistir de tudo e virar hippie, como se isso fosse fácil. Consultei várias religiões e ao fim chegava à mesma conclusão: se Deus não morar em mim não vou encontrá-lo em lugar nenhum.
Descobri que ler, escrever e dançar são as coisas que mais me dão prazer. Descobri que estar sozinha com meus gatos era a felicidade. Descobri que é possível amar muito, por muito tempo ou por pouco tempo sem que com isso deixe de ser amor. Descobri que é possível amar todo mundo de uma vez. Descobri que odeio as pessoas em geral. E o mais doloroso, que as amo ao mesmo tempo.
Descobri que sou extremamente egoísta e que nada que não seja minha vontade me importa de verdade. Que minha família é muito importante, mas que vivo bem longe dela. Descobri que dá pra chorar sem que percebam, que dá pra negar que se ama, que se odeia, que não gosta disso ou daquilo, e que as pessoas nem vão perceber.
Descobri que no fim das contas eu gosto de ser eu, fora de forma, descabelada, falando palavrões, bebendo e fumando. Descobri que adoro tirar fotos e que elas guardam aquilo que não me permito ter: as pessoas e coisas que amo.
Descobri que minhas palavras ferem mais que facas, e que muitas vezes não sinto remorso, ás vezes até gosto desse “poder”. Descobri que ser cruel faz parte de mim, e descobri que posso matar qualquer pessoa que se atreva a magoar as pessoas que me cercam, mas principalmente as que fizerem mal aos meus gatos. Descobri que algumas pessoas tem medo de mim, que outras me odeiam e que outras, sabendo quem e como sou, me amam.
Descobri que o sexo ocasional é mais adequado para mim que o de um relacionamento, porque não faço questão nenhuma de manter um relacionamento. Foi assim que descobri que amo de vez em quando.
Descobri que só sei ser eu no mundo que eu criei, e que ao “entrar” na vida real automaticamente não sou mais eu.
Descobri que posso me enganar. Que posso enganar qualquer um. Descobri que meus olhos não mentem quando a boca o faz. Descobri que sou capaz de muita coisa e que ainda assim prefiro ficar sentada a me mover. Descobri que isso me dá imensa raiva. Descobri que o ódio diário que sinto me torna mais criativa, e estranhamente me cansa, me fazendo ter idéias de como alcançar a paz em todo e qualquer sentido, para mim e para todos.
Descobri que a paz que eu busco por aí, está em mim, mas não sei por onde começar a procurar, porque descobri que tudo o que fiz, todas as escolhas, todas as renúncias, os aceites, as mudanças e os retornos, deixaram uma infinita bagunça que eu não quero ter tempo para organizar.
Descobri que somos senhores do tempo, e que eu não faço nada com o que descubro.
Descobri também que tenho medo. Medo de mim, medo das pessoas, das palavras ditas ou não, das coisas que não conheço, e das que conheço. Descobri que todo dia eu sou uma pessoa, e que dependendo da ocasião, do lugar e de com quem estou eu posso ser outra, ou outras.
Descobri que ainda que não veja perfeição em nada, amo tudo que é imperfeito. Descobri que é possível perdoar sem esquecer. Que é possível magoar quando não se quer, e que as pessoas vão te amar mesmo assim. E descobri no meio de todo o meu egoísmo que tudo o que eu escrevi soa como um desabafo e que tenho uma enorme vontade de ligar ou escrever para todos os que passaram pela minha vida, para todos que fazem ou fizeram quem eu sou, e pedir-lhes desculpas. Desculpas por não ter me esforçado mais, por não ligar mais, por não dizer o quanto são importantes para mim e o quanto eu os amo. Porque há 11 anos descobri que não fazer isso é fatal, e que você pode não ter outra chance de dizer essas coisas. E descobri que sou incapaz de fazê-lo senão aqui. Porque antes de tudo isso, descobri que sou orgulhosa demais para admitir meus erros, medrosa demais para tentar corrigi-los e egoísta demais para sair de meu lugar ao sol.

Jorge

A genética é uma coisa de louco!
Não conheci nem os pais da Pandora e nem os do Boris. Quando a primeira ninhada chegou no dia 13/09/2004, a felicidade só não me matou porque eu precisava cuidar da nova família.
Por muito tempo Pandora e Boris não tiveram vontade de ter filhos e eu é que ficava desesperada pensando que não veria os bebezinhos correndo pela casa!
Então, nasceram 5 filhotes. Quatro brancos como os pais e um preto, o Jorge.
Como ele não fica bravo quando conto a história dele, vou contar aqui. Minha amiga Gi estava em casa e é minha testemunha.
Assim que acordei vi a ninhada com a Pandora dentro de uma caixa já preparada para isso. Mas logo que levantei, a Pandora pulou da caixa para ir comer – ela foi uma mãe ultra relapsa – e algo que estava grudado nela caiu. Minha cara foi como que “oh que horror!!!!”. Pensei que fosse algum resto de placenta ou sei lá o quê. Quando me aproximei vi que era um filhote. Um filhote totalmente diferente dos outros. Um filhote preto.
Peguei-o com todo cuidado e cheia de remorso e coloquei-o dentro da caixa com os outros.
Eles foram crescendo e Boris e eu tínhamos uma luta e tanto. Pandora detestava os filhotes e só ficava na caixa quando eu a colocava e a segurava para que os bebês pudessem mamar. Ela não atendia nem aos mais desesperados chamados de seus filhos. Boris ficava na caixa com os filhotes, ficava lambendo eles e aquecendo seus pequeninos corpos.
Um dia, eu sabia, teria que dá-los. Procurei entre meus amigos pessoas de confiança e que eu sabia que amava os gatos para poder entregá-los. Na verdade eu só me convenci que teria que dá-los quando minha mãe me questionou “como você vai cuidar de 7 gatos nessa kit net?”. Eu sabia que era crueldade.
As meninas da faculdade e do trabalho iam visitar os filhotes e foram escolhendo os seus. Ninguém queria o Jorge. Ninguém o achava bonito, ninguém perguntava nada dele. Todos queriam as bolinhas de algodão que eram cópias dos pais.
Morri de raiva, porque ele sempre foi lindo e carinhoso. E decidi, esse fica comigo pra sempre, pra receber o amor que merece e crescer com seus pais. E assim foi. Ele crescia e sua pelagem clareou um pouco, deixando-o cinza. Sempre foi gordinho e enorme, é o maior dos três.
Nunca morde ninguém, e “sofre” com o amor incansável de Boris que o deixa com penteados horríveis depois de lambê-lo. Às vezes sofre com a indiferença da Pandora, mas só uma coisa o fez mudar.
Certa vez ele fugiu de uma casa onde eu estava morando. Até esse dia ele era tão carinhoso e carente como Boris, vivia no colo e adorava se exibir para as visitas.
Fui trabalhar e a janela do banheiro ficou aberta. Quando cheguei notei que o Jorge não aparecia nunca e depois de revirar a casa atrás dele, me dei conta de que ele tinha fugido pela janela do banheiro. Saí para procurá-lo na vizinhança, batendo de porta em porta, chorando loucamente. O que fariam ao meu bebê indefeso? Onde ele estaria? O que teria acontecido? Teria sido atropelado? Como eu pude ser tão estúpida e deixar a janela aberta? Tudo parecia um pesadelo. Ligava pra minha mãe de 5 em 5 minutos chorando.
Dentro de casa, Boris estava nervoso e miava como se pensasse o mesmo que eu.
Sentada na calçada, desolada e quase sem esperanças, ouço um miado estranho. Surge um gatinho rajado. Era um dos que eu alimentava no quintal. Chamei-o para ver se ele poderia me consolar um pouco.
Ele se aproximou e logo atrás dele estava meu negão. Com os olhos mais assustados que já vi. Correu para perto de mim e eu o abracei forte. Estava sujo e cheio de espinhos do mato grudado na pelagem. Meu coração não sabia se parava, se saltava pela boca, se explodia de emoção.
Eu, certamente fui o show da vizinhança: chorava e soluçava abraçada ao meu gato.
Entramos em casa, ele levou uma boa bronca por tentar me matar. Mas isso só depois de eu me certificar que ele estava bem. Dei-lhe um banho, penteei seus cabelinhos e ficamos grudados a noite toda.
Depois disso, ele nunca mais foi o mesmo. Morre de medo de qualquer coisa, se esconde debaixo das cobertas se ouve passos estranhos, treme e ás vezes faz xixi de tanto medo.
Eu nunca soube o que aconteceu, mas nunca mais deixei a janela do banheiro aberta.
Hoje ele é a coisa mais fofa do mundo, enorme – continua medroso – macio, carinhoso, mimado, e notívago. Isso mesmo. Jorge passa o dia escondido debaixo da cama ou dentro de armários, onde quer que ele possa se enfiar, e quando a noite chega ele aparece lindo para solicitar sua cota de carinho e atenção.
E sabe aquelas pessoas que o rejeitaram??? Bem… elas morrem de inveja quando o veêm: “nossa, como ele ficou lindo!”.
Sinto muito, ele sempre foi lindo, e tire os olhos que ele é meu. Meu negão.

Pandora

Bom, eu escrevi há alguns dias sobre meu gato mais velho, o Boris, e comentei que iria escrever sobre todos, por eis que chegou o momento de falar sobre a esposa dele, a geniosa Pandora. Pela cara dela já da pra imaginar a ferinha né?
Vamos então pelo começo.
Eu morava em um conjunto residencial e só tinha o Boris. Mais de 2500 habitantes no conjunto. O Boris nessa época, por ser o único, ia comigo pra cima e pra baixo, sempre no colo como um bebê – que realmente ele é.
Um belo dia, estava voltando de mais um passeio com ele e fui parada por uma senhora que parecia mais uma louca. Me fez todas as perguntas possíveis sobre os cuidados dados ao meu filhote e se eu amava muito os felinos etc.
Passado esse ocorrido, tudo ia muito bem, arrumei um emprego integral – anteriormente trabalhava meio período e depois ia para a universidade.
Meus vizinhos mais próximos quando me encontrava no corredor reclamavam que o meu gato miava demais. Óbvio que eu tinha notado que depois que comecei a trabalhar em tempo integral o comportamento dele mudou. Estava tristinho e infinitamente carente.
Numa noite, voltando da universidade, o porteiro me parou e disse: “a mulher do bloco D quer falar com você.” “Comigo?” “É. É sobre o seu gato.” E eu meio louca pensei… meu Deus… como é que ela ouve o miado dele se eu moro no bloco O???
Resolvi falar com a tal mulher. Dei de cara com a doida do outro dia, a do interrogatório. Ela disse que tinha uma gata peluda e branquinha como o Boris e que queria me dar porque – essas palavras são minhas – o imbecil do marido dela batia na gata, chutava ela etc.
Meu queixo foi ao chão. Porque alguém pega um animal pra fazer esse tipo de coisa??? Mas não disse nem sim e nem não na hora. Voltei pra casa. Sabia, no fundo, que eu ia pegar a gata. Não tinha jeito, como eu poderia viver se deixasse ela lá, sofrendo? Ao mesmo tempo me preocupava com os gastos.
No dia seguinte voltei à casa da mulher e disse que levaria a gata comigo. Ela me disse que o nome dela era Pandora. Era gordinha e tinha 6 meses. Saí de lá e levei-a à veterinária que cuidava do Boris. Ela tomou um belo banho, vacinas e anticoncepcionais, porque em função da minha situação o que eu não poderia ter era uma ninhada!
Pandora voltou pra casa e o ciúme foi o primeiro sentimento que recebeu do Boris, que a impedia de chegar até o prato de comida. Aliás, ele sentou na entrada do corredor e só no dia seguinte deixou ela passar livremente sem precisar de minha intervenção. E foi aí que começou um amor.
Boris e Pandora passaram a fazer todas as bagunças do mundo. Derrubavam tudo o que estava na frente e corriam feito loucos, felizes da vida. Boris parou de chorar e os vizinhos de reclamar.
Nos primeiros dias era preciso carregá-la e segurá-la na cama pra que ela entendesse que na minha casa ela podia fazer qualquer coisa que não sofreria maus tratos.
Ela abusa um pouco da gente, chega perto do Boris, recebe as lambidas de carinho e quando acha que já foi suficiente, bate nele, que não reclama. Pede meus carinhos e se acha que não está de seu gosto me morde. E se por acaso eu encho os pratos calmamente, ela grita como se dissesse “escuta aqui sua lesma, isso é pra hoje!!!” É toda durona, e metidinha. Ninguém a faz ficar com uma cara de bebê. Não. Ela é a rainha do lar. Tem plena consciência disso. Impõe as regras e todos obedecem, a começar pelo marido.
Adora ser penteada, elogiada, e morre de ciúmes de qualquer gato que se aproxime do Boris.
Lembro-me de um dia em que morava numa casa, e deixei-os passear um pouco – e com supervisão – e o Boris conheceu um gato da rua e logo foi fazer amizade cheirando e beijando o novo amigo, assim que a Pandora viu saiu furiosa e botou o estranho pra correr.
Ela está sempre séria, e as coisas mais legais que ela costuma fazer é de manhã “falar” com os passarinhos que estão na árvore (enquanto ela está do lado de dentro, sentada na janela), correr até o banheiro quando me vê entrar e gritar pelo carinho, e deitar para beber água.
Apesar de não ser dada à expressões de carinho, ela é meu outro amor.
E certamente, o amor do Boris. E quando tiveram os filhotes a felicidade se completou, mas essa é outra história…

Dançar para sempre

Já passa da meia noite e não sei mais quantas vezes ouvi “Por una cabeza” de Carlos Gardel. Em todas elas me imagino dançando. Levemente pelo salão, que neste momento se reduz ao meu quarto.
Algumas vezes me levanto e ensaio os passos. Outras apenas me pego mexendo os pés, os braços…
Existem muitas pessoas que creem piamente que, quem canta os males espanta. Eu acredito que os males se vão quando danço. Até porque não fui dotada do talento de cantar… Do meu jeito “sem jeito”, danço em qualquer espaço e esqueço as mazelas da vida. Esqueço que nem sei dançar. A música me leva como um bom condutor de tango faz. Deslizo suavemente pelo mundo imaginário à meia luz, com um sorriso discreto nos lábios e a plena satisfação tomando conta de todo o meu corpo.
Cheguei a fazer dança do ventre por seis meses. E recordo-me como todos os meus problemas desapareciam misteriosamente quando a primeira música iniciava.
Como a universidade tinha saído de uma greve de seis meses, algumas aulas tiveram que ser repostas aos sábados, dia em que meus problemas iam embora ao ritmo de meus quadris. Embora as aulas de dança tenham sido abandonadas o ritmo permanceu em minha alma e não consigo controlar o corpo ao som de uma música, seja ela qual for.
Nos últimos dias estive na casa de “minha família chilena” e me ensinaram uma dança tradicional de seu país: “la cueca”. Claramente uma aprendiz, não posso mais evitar que minha mão se erga com um um lenço imaginário e que meus pés sigam o ritmo da música…
Certa vez , durante uma prática de meditação, fui “transportada” aos salões de um antigo palácio, dancei tanto que já não me aguentava mais. Foi a melhor meditação de todos os tempos.
Quando morava sozinha, aos sábados em que estava disposta a limpar a casa, agarrava a vassoura e saia “varrendo” com meus passos apaixonados e sonhadores.
Não me dou muito com apresentações pessoais desses dotes cômicos que recebi em grande quantidade antes de vir à terra cumprir minha missão de entreter os mais desanimados, mas abro algumas exceções aos amigos mais próximos, e como tenho facilidade em gravar as músicas na minha cabeça, termino os passos únicos junto com a música, e depois, caso estejam morrendo de rir, solicito aplausos que começam por mim mesma. Agradeço até mesmo quando danço só para a vassoura…
O fato é que dançar é uma dádiva e acredito que todos deveriam experimentar isso. A qualquer hora, com qualquer música.
E claro, como no meu caso estou ouvindo Gardel há cerca de uma hora (a mesma música), não gostaria de deixar passar em branco que tango é uma paixão. Um dia desses ainda me inscrevo numa aula de danças só para poder parar de imaginar meus passos corretos e poder fazê-los, seja com a vassoura, com um de meus gatos preguiçosos ou com algum corajoso que não tenha medo de levar uns pisões nos pés. Afinal, é sempre assim o começo… Mas desde já, me sinto conformada com a vassoura, que não reclama, concorda com minhas inovações e certamente agradece por sair de uma rotina tão chata de varrer, varrer e varrer sem nenhum propósito – se bem que ela também a seu modo está na sua dança.
Um pedido? Que eu nunca pare de dançar. Na vida, nos sonhos, no quarto, num salão. E óbvio, que Gardel não se canse tão logo desse tango, em que até meus dedos flutuam sobre o teclado…

Boris

Algumas culturas afirmam que após nossa morte, reencarnamos em animais. Já ouvi dizer que as pessoas que foram boas renascem em animais que serão bem tratados, o inverso para as pessoas que foram más… Outra coisa que também já ouvi é que nossos entes queridos estão encarnados em nossos bichinhos e assim, sucessivamente, a “família” nunca se perde…
Não posso dizer que uma dessas teorias me cai como uma luva porque considero que qualquer uma delas, se analisada a fundo, dá um pouco de medo…imaginar que o Boris, por exemplo, já foi um parente meu pode, aliás, certamente me causará pesadelos. E tudo o que não desejo é ter pesadelos com meu filhote.

Ele entrou na minha vida quando tinha apenas um mês de vida. Era meu aniversário e ele foi definitivamente o melhor presente de toda a minha existência, até porquê, é bem justo afirmar que, depois dele, voltei a sorrir.
Daquele dia em diante não nos separaríamos mais, ao menos em pensamento. E mesmo que eu quisesse ele não me deixaria longe. Ia para a universidade e ele estava em meus braços, saía de casa com ele enroladinho em uma manta nos dias mais frios e não foram poucas as pessoas que o confundiram com um bebê de verdade… e para mim é isso que ele é! Meu bebê.
Sempre avalio os filhos humanos das pessoas e chego à conclusão que não teria um desses pra mim… são estranhos demais… Já os felinos… bem… somos feitos um pro outro, e de qualquer forma, em qualquer das teorias acima que você esteja tentando encaixar essa história, ela se encaixará. Boris é muito amado – vale dizer que mais até que alguns membros humanos da família – e, recebe tanto carinho, que certamente, se foi humano um dia, foi muito querido e bonzinho.

Hoje é um pouco difícil fazer certas coisas, pois apesar de criticar inúmeras mães de filhos humanos, eu mesma fui uma mãe terrível pro Boris – e também para todos os meus outros filhos que terão espaço aqui em breve. Mimei-o de todas as maneiras possíveis e ele que não é bobo nem nada, sabe exatamente como me chantagear. Basta uma palavra que entre em desacordo com a vontade dele para que me lance um olhar devastador. Meu coração se parte em milhões de partes e… agarro-o e beijo-o. Ok, filhote, faça, suba, deite, este espaço é seu, eu viro pro outro lado, tá bom, o travesseiro é seu, e por aí vai.
Já não sei mais quantas vezes deixei de estudar porque ele se pôs a chorar na cama dizendo “mãe, vem deitar que eu quero dormir”! Ou de tantas outras em que me despedi dos amigos no msn para poder acariciar os pêlos desse bebê exigente. Quantos cafés deixei de tomar para correr atrás dele pela casa e me esconder para que ele com aquele lindo sorriso nos olhos azuis pulasse mostrando que incrivelmente me achara…
Ou quantas vezes com a tela aberta esqueci o texto que preparava para capturar uma cena inusitada, ou definitivamente apaixonante e depois de ver e rever centenas de vezes, me deitar ao lado dele, cheirar seus pêlos e dizer baixinho nas suas orelhinhas “a mãe te ama muito, muito, muito”.
Compreendo perfeitamente bem que muitos me considerem louca, e eu mesma já cansei de me imaginar como a velha solteirona da última casa da rua, que vive sozinha numa casa velha cercada apenas por seus livros e seus bichinhos muito amados… inevitável o sorriso. Isso é a minha felicidade, e a felicidade… bem o que importa é que ela venha, não importa a forma. Por fim gostaria apenas de relembrar uma personagem de Milan Kundera. Teresa amava Karenin, sua cadelinha. Amava tanto que não se imaginava mais sem ela e suas reflexões fizeram com que eu pensasse cada vez mais como é que alguém pode não entender esse amor. “(…) o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior. Teresa não quer acusar ninguém, nem ela, nem Tomas, não quer afirmar que poderiam se amar mais. Parece-lhe apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro – essa coisa estranha do homem, que o Criador certamente não previu.” Tudo porque esse é um amor desinteressado que não pede nada – ou quase nada – em troca.
E todas as vezes que olho para meus filhotes, ou quando insistentemente Boris me pede colo, eu penso “Sim!”. Tudo em nome desse amor…

Trecho retirado do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Ed. Nova Fronteira, 1985