Hoje

Apenas a sensação de um imenso vazio.
Uma dor que é impossível ser descrita, que sequer se pode imaginar.
Uma tristeza que invade cada centímetro do corpo, que impregna, que domina sem tréguas.
E os olhos fixos num ponto qualquer, no horizonte.
Hoje, de certa forma, o ano terminou.
E se você é incapaz de entender, talvez nunca tenha perdido todos os seus sonhos…
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Eterno retorno

Mais um fim de ano. Para este blog, o terceiro. Para mim, o vigésimo-nono. E sempre é quase tudo muito igual.
Desde que me lembro as coisas não sofreram muita alteração e olha que muita coisa mudou, principalmente nos anos mais recentes.
Mas o fim de ano não.
Lá vamos nós com nossas inúmeras compras, nas infinitas filas, tentando acreditar – e alguns até conseguem – que um presentinho aqui e acolá vai minimizar todas as malvadezas do ano. Que todos aqueles “eu te amo” que não dissemos serão agora esquecidos, afinal aquele Ipod tão esperado agora será o preço do perdão… É realmente irritante.
Se houvesse mesmo um velhinho bondoso ele estaria meio triste este ano, as crianças que mandaram cartas pra ele não pedem mais paz em seus lares, nem uma comida boa pra noite de natal que reuniria a família. As crianças de hoje quase não escrevem mais cartas. Muitas delas porque não se aprende mais a escrever nas escolas, outras porque não sabem se o papai Noel tem twitter, e afinal, escrever cartas é tão démodé…
Família reunida? Ainda mais em volta de uma mesa arrumada pra isso? Não. Nós não temos mais tempo para celebrar essas coisas, nosso tempo é dinheiro e as pessoas são um tanto enfadonhas. Então, aquilo que dava um certo charme é o que anda mudando nesta época. Não para mim, a bem da verdade – há muitos anos que não me importo com isso e embora ache espetacular quando minha família se reúne, prefiro que não seja no natal.
Ah, nossas crianças hoje esperam que o eterno bom velhinho traga as novidades do mundo high tech e da moda para suas imensas meias penduradas nas janelas, por falta das lareiras… Prova disso são algumas das cartas que li outro dia numa agência dos correios. Tênis sim, mas os “de marca” original. Material escolar sim, mas aqueles bem caros, que estão em destaque nas prateleiras caras das livrarias e papelarias.
Se insistem tanto em preservar o natal, os pais esquecem que deveriam colocar nas cabecinhas de suas pequenas crias que existe algo mais que o consumo desenfreado e vazio. Que o natal tem antes, um significado místico, transcedental. Mas os pais reproduzem aquilo que são. E tapam os buracos deixados pela falta de amor e atenção, com as últimas novidades do mercado.
E o natal vem pra ajudar. Pra ajudar o comércio, as famílias a mostrarem quanto vale seu amor e para continuar me aborrecendo. A mim e ao papai Noel.

O mundo e eu


Entre o mundo e eu há um imenso abismo. E poucas vezes eu os compreendo – nem ao abismo, nem ao mundo.
Lendo sobre as novas utilizações das coisas e da vida nos tempos modernos – que alguns denominam líquido – tento entender o que pode estar acontecendo, onde está o erro e se há um erro realmente.
O tempo para mim, este mesmo dos relógios, parece correr de maneira um tanto diversa do que corre para os outros, para os que se têm acostumado chamar normais. E, ao fim e ao cabo, não me parece preocupante.
Não consigo ver como um problema.
Claro que muitos discordam disso.
Todos os dias as pessoas acordam pensando – ou não tão claramente pensando – em se enquadrar, em andar na linha, em seguir, quase que religiosamente, as normas ditadas pela sociedade. E também faço um pouco disso, posto que, como qualquer outro, sou uma cria desta nossa sociedade cruel, irônica, perversa, com um senso de humor instável e perspicaz. Que também é o que me faz amá-la e odiá-la de maneira desmedida. Tão estranho é pertencer a ela e desejar não mais pertencer…
O meu tempo, como dizia há pouco, é um tempo todo e só meu – será? – e desejo desesperadamente que eu possa mesmo fazer com ele o que me parece necessário e quando e se for necessário. Embora as pressões externas não me permitam tanto isso. De maneira que a sensação de sufocamento é inevitável.
E sigo – e seguimos – reproduzindo nosso “confortável” modo de vida, esperando que o tempo – o meu, o seu e o nosso – nos perdoe por qualquer coisa que não seja usá-lo de uma maneira mais leve, sem tantas regras, sem tantos protocolos.