O peso de 2012

Calendário-Maia-certo

Em geral fazemos a análise do ano que finda lá pelo dia 30 ou 31. Ás vezes até nos primeiros dias do ano que vai começar. Nunca compreendi porque as retrospectivas são feitas antes do fim do ano. Como se pode saber que nada de “importante” acontecerá depois do dia 29, por exemplo?

No entanto, como talvez o mundo possa acabar amanhã, resolvi registrar as coisas que aconteceram – pelo menos as que eu me lembro ou como eu me lembro delas.

A primeira coisa a fazer, é claro, é registrar o calendário Maia correto, e não a pedra do Sol Asteca  que, a meu ver, é muito mais bonita. Depois, é tentar lembrar as coisas que aconteceram neste ano que me deu a impressão de não querer terminar nunca.

São raros os anos em que posso falar que o saldo positivo é maior que o negativo. Em geral porque sou pessimista. Ou realista demais. Ou só muito chata. O que não considero um defeito.  Mas também porque costumo viver muito mais em meu mundo criado por mim e para mim e meus gatos e livros em detrimento do mundo fora das minhas paredes. Isso faz com que ao sair de casa, tudo me pareça cruel e triste, influenciando negativamente a minha percepção das coisas.

Mas este ano as coisas foram ligeiramente mais positivas.

O ano começou um tanto tumultuado. Inúmeros conflitos indicavam um ano negro. As perdas do ano anterior eram ainda feridas abertas que teimavam em sangrar. E eu estava resignada. Tinha decidido aceitar tudo aquilo e sofrer calada, aceitar a droga de vida que eu havia criado para mim. Plantei vento, colheria tempestade. Era óbvio.

Acontece que em determinado momento, os ventos mudaram de direção, e o que parecia um tornado se transformou no empurrãozinho tão necessário ao movimento que eu tanto precisava. Um convite todo especial me fez, pela primeira vez, assistir as aulas do Mestrado. Aquele Mestrado com que sonho desde antes da Graduação. Ali senti que a vida voltava ao corpo. Sabia, é claro, que havia perdido a prática, que estava voltando ao ponto de “cru”, que havia um longo caminho a ser percorrido até que eu pudesse novamente me sentir uma acadêmica. (Lembro-me que só me senti uma verdadeira acadêmica, ainda nos tempos da Graduação quando, enfim, fui almoçar no Restaurante Universitário. Coisas de uma sonhadora.) Precisava percorrer novamente os caminhos das sinapses intelectuais, do movimento rápido das ideias. Mas era tão difícil. E tão gostoso. E esqueci dos problemas pessoais para me concentrar naquelas pilhas de textos e livros. Nas linhas mal escritas de um artigo ruim, que eu deveria entregar, não como obrigação, mas como um passo, o primeiro,  rumo à reerguida de minha vidinha besta. E Bourdieu, aquele sacana, não facilitou muito as coisas. Mas confesso que, no fim, até gosto dele.

Movida por esse novo gás, fiz minha inscrição para o segundo semestre. Agora, cheia de ânimo, de energia. Louca. Totalmente tomada por aquele sentimento que me faz esquecer de comer, de ir ao banheiro, de dormir, de falar com as pessoas. Não escrevi o artigo de conclusão ainda, mas espero que possa fazê-los nos próximos dias, caso o mundo não acabe, e que ele fique bem lindo. Pois, afinal de contas, é um filho que tenho alimentado este ano todo.

Ao longo do ano conheci pessoas de verdade, pessoas incríveis. Saí da toca muitas vezes. Mas depois da redescoberta de meu mundo de papel, fiz a escolha que me deixa realmente feliz: escolhi ficar dentro da Baleia, assim como o Mestre Jonas. Esse mesmo, o da música. Dentro de minha casa, cercada de meus livros, discos e gatos, a vida é tão mais fácil, nada incomoda o silêncio e a paz de Nana, parafraseando aquela deliciosa canção.

Desta forma, novamente me afastei das pessoas de verdade. E me aproximei das pessoas “virtuais”. Se tem uma coisa que considero muito interessante no mundo moderno é isso: essa presença-não-presente das pessoas queridas. Pela internet, pelo telefone, via SMS, elas estão ali. Tão pertinho. Sei que para muitos não é o suficiente, mas para mim sim. Quero saber que estão bem, e que saibam que eu as quero bem. Mas confesso que não tenho necessidade de estar ao lado fisicamente. É claro que aproveito os raros momentos de proximidade, rio, me divirto e guardo esses momentos em minha caixinha de recordações mentais para sempre, como os cheiros, os gostos… Mas o desgaste emocional que me causa sair de casa é tão grande, tão pesado, que quando retorno mal tenho energias para um novo dia. É só mais tarde que consigo filtrar tudo, e recuperar e analisar as vantagens. E sei que são muitas.

No plano pessoal… Bem, para variar não me ative muito a essas questões porque, de fato, elas… Como se pode dizer uma coisa dessas? É muito estranho, não? Você olhar para você mesmo, fazer uma análise da sua vida e pensar: “e…? E daí?” É algo que talvez eu devesse trabalhar melhor. Mas no momento ainda não tenho disposição para isso. É como parar de fumar. Você – ou eu – só vai fazer quando estiver disposto de verdade. Antes disso é só murro em ponta de faca. Vou fazer 32 anos em menos de um mês. Deveria ocupar um pouco de meu tempo me dedicando a essa questão tão importante, mas confesso que quando percebo estou a horas “viajando” nas palavras de Saramago depois de ter planejado estabelecer um plano para minha vida. E se o mundo acabar amanhã, não vai adiantar mesmo gastar meu último dia com isso, né?

Em 2012 eu não viajei. Não fisicamente. Eu já havia planejado ficar minhas férias trancada em casa, longe de tudo e de todos para me curtir. Para curtir meus gatos, meus livros, meu novo tema de pesquisa. E meu novo tema de pesquisa é uma das coisas mais positivas do ano!

Desde a Graduação trabalho com temas ligados à religiosidade. E confesso que ainda hoje é um assunto que me fascina. Entretanto, hoje, trabalho montando processos de aposentadoria de servidores municipais e, foi por acaso, durante um atendimento, que a ideia surgiu. Um senhor, de nome José,  muitíssimo querido, levou-me um jornal de 1985. Perguntou-me se eu conhecia alguém entre as fotos de determinada página. Em 85 eu tinha 4 anos, vivia minha vida encantada na minha cidade amada, São Paulo. Obviamente não conhecia ninguém. Pelas legendas descobri o jovem José. E então ele perguntou se podia me contar a história daquela publicação. Minha mesa estava abarrotada de processos. Ele perguntou se eu tinha tempo. Sim, eu tinha. Continuou o senhor José: “os jovens não têm tempo para as histórias dos velhos”. É verdade. Poucas vezes queremos ouvi-los. E foi ali, sem na verdade escutar o que ele dizia, porque na minha cabeça já surgia a minha nova paixão, que me dei conta de como o meu trabalho tinha se tornado importante para mim. Foi ali que percebi o quanto eu gostava do que estava fazendo, mesmo sendo pessimamente remunerada e raramente reconhecida. Foi ali, graças ao Seu José que percebi o quanto aqueles velhinhos que eu atendo diariamente haviam mudado tantas coisas em mim. Como eu havia ficado mais paciente, mais disposta a ouvir, mais humana, talvez.

Comprei um monte de livros sobre envelhecimento, velhice, corpo e afins. Me emocionei tantas vezes que nem sei. Vi as mesmas coisas de outra forma, como se fossem novas. E estou totalmente hipnotizada pelo assunto. Verdadeiramente comovida. Mais um ponto positivo para 2012. E para o Seu José, claro.

Em 2012, ainda, mantive mais contato com meu irmão caçula, meu bebezinho de 30 anos. Nos divertimos redescobrindo as coisas de nossa infância, rindo das coisas mais bestas do mundo (inclusive rindo até chorar digitando textos no Google Translator e colocando para a leitura em diversas línguas), relembrando eventos longínquos, revendo filmes que nos marcaram, contando  nossas visões das coisas, trocando olhares cúmplices. Falei mais com meu pai e descobri que ele está envelhecendo quando em um de nossos passeios ele pediu para voltar para casa pois estava cansado. E isso me fez envelhecer também. E me sentir cansada. E me preocupei com minha mãe que é workholic mas não sabe. (Ri muito agora) Passei horas pensando em quem seria eu sem eles. Se é que é possível uma coisa dessas, pois tenho a impressão de não poder ser sem esses que me fazem.

Também me descobri paranóica. Muito mais que imaginava. Desconfio que tenho TOC. (Mais uma risada) Ou tudo está devidamente organizado do meu jeito, mesa limpa, tudo alinhado, gavetas metodicamente arrumadas, ou sequer consigo escrever ou pensar. Mas se tem dado certo, para que mudar?

Só que em 2012 foram também muitos golpes. Muitas pessoas mostraram que em momento algum você pode deixar de estar preparado para um golpe baixo. E assim, após três anos de convivência e cumplicidade com as pessoas do departamento para onde fui enviada após minha nomeação, fui removida para uma autarquia. Por um lado tive sorte, pois as pessoas com que fui trabalhar são também muito queridas, já trabalhava com elas, indiretamente, há quase três anos também. Por outro lado  a dor, a tristeza de deixar para trás toda uma estrutura construída, todo um hábito alimentado, todo um ritmo é desestabilizadora.

Desta forma, 2012 veio reforçar minha recusa em confiar nas pessoas. Elas vão te trais por qualquer motivo: por você rir demais, por você falar demais ou de menos, por você fazer amizade com qualquer um, por você cumprimentar as pessoas de tal ou qual partido político, por você ter uma gratificação X ou Y, ou simplesmente por você usar roupas coloridas que não combinam com mais nada. E por mais que você saiba disso, o golpe é sempre doloroso demais.

Neste ano eu tive dúvidas e medos sobre a felicidade. Sou feliz? Deveria estar feliz com tanta dor? Isso é felicidade? Como posso ser feliz com o mundo como está? Não obtive respostas.

Agora, como eu já disse, 2012 teve um saldo positivo. Sim, e não só por conta dos acontecimentos, mas pela forma como eu tenho me sentido. Ciente das perdas, das dores, das falhas – minhas especialmente, mas também do mundo que me cerca – há em mim algo novo, algo de esperançoso, talvez. Não sei.

Penso que pode ser a expectativa de acabar o mundo, essa sensação de renovação, que por mais que eu queira acreditar, algo lá no fundo me diz ser apenas uma rota de fuga.

O fato é que se o mundo realmente acabar amanhã eu vou ficar triste por não poder morrer na minha São Paulo amada, sem poder dar um abraço em meus pais, irmãos e pessoas queridas. Vou morrer ser ter lido os meus livros novos e nem terminado o meu artigo que começou tão bonitinho – estou apaixonada pelo título dele. Morrerei sem ter feito para os meus gatos todos os brinquedos que eu sonhei, sem comprar o apartamento que sempre quis, sem entrar para o Mestrado – oficialmente falando – sem ter tido meu cão dinamarquês. Mas morrerei feliz porque de todas as coisas que eu podia ter feito boa parte delas eu fiz. Certas ou erradas, eu fiz e, no geral, não consigo me arrepender delas. Não posso me arrepender de ter ficado em casa lendo um livro qualquer, vendo um filme qualquer, ou um capítulo de arquivo X e me recusando a sair com os amigos. Não posso me arrepender de ter escolhido meus gatos quando as pessoas me chamavam para qualquer outra coisa. Não posso me arrepender de ter dito que não gostava de viver e por isso estava feliz com a possibilidade do fim do mundo porque é libertador poder, vez ou outra, pelo menos, dizer só a verdade.

Assim, se o mundo acabar amanhã, eu vou em paz. E se não acabar, espero ter tranquilidade suficiente para encarar os anos que virão.

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