Que dia é esse?

Acordo às cinco horas da manhã, e, de segunda à sexta-feira, enfrento mais de uma hora em dois ônibus lotados, por um trânsito infernal, rumo ao meu trabalho.
Às segundas e quintas, após o expediente que encerra às dezessete horas e quarenta e oito minutos, depois de enfrentar cerca de uma hora de ônibus, novamente pelo trânsito caótico, enfrento as quatro horas de aula na universidade, de onde saio às vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos – pouco antes de terminar efetivamente o horário de aula – para pegar o ônibus que me levará então para casa, onde devo chegar por volta da meia-noite e vinte.
Preciso encontrar tempo para limpar a casa, dar banho nos gatos, lavar a roupa, manter unhas, cabelo e pele lindos porque, embora não seja mais publicado em anúncios de emprego, a boa aparência é o que pesa quando você procura uma vaga no mercado de trabalho e, embora tenha terceiro grau completo, é encaminhada para ser recepcionista; você tem um belo sorriso, seus olhos são muito expressivos, que corpo bonito. Essas são as qualidades da recepcionista, que claro, precisa ter uma boa – não ótima – digitação e saber ao menos usar o corretor ortográfico. Precisa saber que a empresa não tem coração e que seu salário embora seja pouco maior que o salário mínimo, é tido como mais do que necessário, afinal você só está ali sentada, sorrindo e fingindo que seus problemas não existem, que suas contas não venceram, que sua casa não precisa de limpeza, que seus filhos não sentem saudades, que seu parceiro(a) não precisa de seu colo.
Aí, chega o bendito dia. Você recebe uma centena de e-mails, recheados de belas palavras, de muita poesia, com dados chocantes, com imagens que se fixam em sua mente. No fim do expediente sua caixa de entrada está lotada. Ninguém fala mais com você. Apenas te fazem ler. O teu chefe, que disse há poucos minutos que a empresa não tem coração, te manda um e-mail dizendo que as mulheres são o coração da empresa. No fim das contas, com um pouco de esforço, faz-se a pequena associação: eu não sou nada aqui dentro.
Vai para casa, tenta chegar com os olhos abertos, fazer o que precisa, lavar uniforme, corrigir a droga do esmalte que estragou quando foi empurrada no ônibus. Passar a roupa para o dia seguinte, e quase morta, tomar um banho, escovar os dentes e, literalmente, desmaiar.
Esses são meus dias. Meus dias de mulher, dia que milhões de mulheres conhecem e vivem da mesma maneira, ou pior.
Os dados estão aí, violência, física e psicológica, dentro e fora de casa, estranhos ou amados, morte precoce, por qualquer coisa que antes matava muito pouco e muito tarde, estresse, ódio, envelhecimento, tumores, rugas, busca incansável por uma beleza mentirosa, mas que é a que a sociedade diz ser a melhor, dietas malucas, desmaios por conta disso, anti-depressivos, soníferos, estimuladores de humor. Acabamos todas diagnosticadas bipolar. Seria engraçado se não fosse tão triste.
Minha ex-ginecologista me indicou o uso de DIU mesmo sabendo que eu tinha um mioma no útero. Era uma mulher. Cansada, irritada, pensando nos filhos, na casa, no parceiro, na profissão talvez. E cometeu um grande erro.
E quantos erros são cometidos da mesma maneira? Quantas mulheres queimam a comida, esquecem os filhos na escola, faltam a reuniões, aulas, mandam e-mail certos para as pessoas erradas, etc? E porque?
Não tenho as respostas, nada é conclusivo, e as pessoas não são todas iguais. Estamos em constante mudança, e o que é para mim pode não ser para você, mas é bom para se pensar, não é mesmo?
Meu dia de mulher, é todo dia. É de segunda a sexta, quando abro os olhos ao som do despertador, que me lembra que preciso tomar banho, passar a maquiagem, creme, perfume, vestir o uniforme, tomar café, escovar os dentes, verificar se os gatos tem comida e água, correr pro ponto de ônibus; pegar outro ônibus, descer numa rodovia perigosa, comer bolachas na minha uma hora de almoço como quase única alternativa de comida, sonhar com o horário de sair, conseguir, apesar disso, realizar o trabalho de maneira exemplar, voltar pra casa e manter o bom humor, a esperança. Meu dia de mulher é todo sábado e domingo, quando entre todos os afazeres, encontro tempo para cuidar de mim, para ler, para encontrar meus amigos, mesmo que seja pelo msn, para saber o que aconteceu durante a semana, para descansar, para me preparar para meus dias de mulher durante a semana.
E, por fim, no dia 08/03 receber alguma coisa que me lembre que alguém lutou para que eu acreditasse que teria plenamente uma coisa: Dignidade.

Quem é Jesus?

Primeiro a pergunta: fé se discute?
Eu fui criada numa família católica, e meu pai dizia que a independência do católico era a crisma. Quando fui crismada aos 15 anos, decidi abandonar a igreja proclamando minha independência religiosa. Óbvio que é uma briga sem fim até hoje com meu pai. Quando resolvi estudar o islamismo e passei a frequentar a mesquita, meu pai disse que eu tinha ido para o “lado mau”. Depois, resolvi ficar em casa e levar minhas conversas com deus, deuses, divindades etc ao extremo particular.
Então resolvi ser gnóstica. Acabei virando uma gnóstica particular, aqui na paz das minhas 4 paredes, como também ainda sou muçulmana e católica, e atéia, e umbandista, bruxa e pagã.
O problema esbarrava sempre nas minhas oposições a algumas normas inventadas pelos homens, creio eu, ou numa frase que ouvi ha muito tempo atrás: ” Jesus não mora nas casas de pedra, madeira… mora dentro do coração de cada um”. Não me lembro de quem ouvi isso, mas agradeço essa frase.
A questão é, muito se fala desse homem que foi Jesus, e eu adoro estudar religiões. Fico pensando em quem terá sido mesmo ele, e se os tantos concílios do vaticano transformaram ele num ser extraordinário para manter o povo sempre com medo e consequentemente “controlado”. Afinal, faz tempo já que não sei de alguém, independente da religião que tenha, caso tenha, que siga os passos desse homem ai, como se manda.
O último livro que li foi “O evangelho segundo Jesus Cristo” de José Saramago, e cada linha, cada discussão, cada comentário detalhado etc, me fazia pensar que aquilo parecia com um Jesus, um humano de verdade, que talvez tenha se irritado com umas coisas e dito o que pensava, e morto talvez, vai saber.
Todo mundo fala dele, bem ou mal, com mais ou menos certeza, pregando ou apenas citando sua existência, e claro, há os que falam dele para fingir que não sabem que ele existiu – será mesmo que existiu???
E é isso que deve alimentar as coisas. Essa eterna dúvida. Se ele existiu vai voltar porque o apocalipse deixa isso claro, e vai nos punir, se não existiu o que é que vai ser de nós?
Eu não sei se ele existiu como dizem por ai, nem se teve tanta glória e popularidade, nem se estaria feliz com o que vê hoje caso tenha realmente pregado o que pregou, mas sei que a história que ficou é muito boa, e basta que paremos um tempinho para pensar a respeito que as idéias pulam feito pulgas, instigadas por perguntas e respostas que talvez nem o tempo possa nos dar, afinal quem sabe quanto tempo teremos ainda para descobrir???

Comentaristas

Que uma das minhas paixões é escrever metade do mundo – pelo menos do meu mundo – já está ciente. Mas o que acontece depois da postagam poucas pessoas sabem, se é que fora eu, alguém já saiba.
No princípio pensei, bom mesmo que ninguém leia, eu tô fazendo uma coisa que gosto; mas não era bem a verdade. Deve ser como ter um filho que ninguém nunca diz que é bonito ou inteligente ou qualquer coisa que agrade à mãe. Aprendi isso quando escrevi meu primeiro livro, lá na distante 1ª série, em 1988, aos sete anos. Chamava-se “Fofo, o pintinho”.
Como o cérebro guarda certas coisas e outras descarta ainda é minha grande dúvida, até porque não tenho muita paciência para esse tipo de pesquisa, correr atrás das últimas novidades científicas e tal, talvez por isso não tenha tido vontade de ser jornalista: minha curiosidade é muito “limitada”. Usarei limitada para não ficar me estendendo sobre o que não é o assunto deste post. O que importa é que a professora mandou escrever um livro e todos escrevemos, cada um o seu. Na hora de entegar o trabalho meu medo era: ” será que vou ganhar uma estrela?” Porque naquela época o legal era ter uma estrela de papel brilhante recebida pelo bom trabalho, pelo caderno bem cuidado etc.
Quero dizer que desde essa época, meus textos, trabalhos, seminários, monografia etc, são como meus filhos, que eu gostaria que alguém dissesse alguma coisa sobre ele – boa de preferência – mesmo sendo uma represália, mas que me fizesse ver a coisa por outro lado, como a professora que diz:”teu filho tem piolho” e que te leva a cuidar da cabeça do pestiadinho, com todo amor e carinho e uma pitada de culpa por não ter notado antes.
Então, passaram-se os anos, e mais que escrever para meus amigos no msn e depois salvar as conversas porque via ali base para textos que eu sonhava escrever, mais do que meus cadernos de desabafo onde eu punha minhas agonias e minha felicidades e que eu também julgava poder melhorá-las para transformar em textos de verdade, eu resolvi escrever no meu blog.
Lá no começo eu percebi que aquele pensamento de que era só para mim e o que viesse era lucro – e que já disse não era tão verdade – era uma realidade. Aparentemente a única pessoa que sabia que ele existia era eu. Perdida no meu mundo de letras, teclas, canetas e madrugadas que sempre julgo criativas, esperava qualquer comentário sobre “meus filhos”. Um dia veio um comentário. Que lindo. Não dizia que era lindo, não dizia que era perfeito. Dizia o que o comentarista pensava, o que acreditava, independente do que eu havia escrito. E eu aprendi que saber que existem essas pessoas que têm esse trabalho, de ler, de comentar, de se expressar são a riqueza recebida pelo trabalho. São por elas que vale à pena escrever.
Então, meus sinceros agradecimentos a meus comentaristas que enriquecem minhas idéias e me deixam com vontade de dizer: “peraí, como assim???? posso me explicar?” hahahhahahaha.
Escrever, ainda que para uma única pessoa comentar, para que essa única pessoa escreva uma única linha… não há palavras para explicar.
Quanto à arvore? Continua me olhando pela janela, mas não me inspirou como os que comentaram aqui…