Depois da festa

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Você fica linda.

Passa horas sentada no salão, no que bem se poderia chamar, sala de tortura moderna. Mas dizem que é por uma boa causa.

Ao final o resultado é bom. Bom mesmo. Embora por mais que você se olhe não pareça estar olhando para você.

Eu, pelo menos, demoro a acostumar e me sinto andando quadrada.

Não é que eu não ache bonito. Eu acho. Inclusive há dias em que passo um pó ou alguma coisa que disfarce aquela cara de mal-humor ou de noite mal dormida… É só que, definitivamente, não fui agraciada com o dom da vaidade. Não!

Eu ando de qualquer jeito, tênis e sapatilhas recheiam meu armário. É de coisas coloridas que eu gosto. Coisas largas que não me sufoquem, não me apertem. É aquela coisa: “gostoso como um abraço”. Mas não um abraço esmagador. Isso, não!

Aí, depois de todas aquelas horas sentada ouvindo “abre olho, agora fecha, estica o lábio, um pouco pra esquerda”, e outras coisas do gênero,  você se depara com uma pessoa de pele lisa, de cabelos magníficos. Aí é que a festa começa.

De salto, toda bonitinha, você fica lá… Eu pelo menos me sinto completamente fora de contexto. Um boneco sem história. Tenho vontade de dobrar as pernas em lótus na cadeira, de me espreguiçar, de encostar o corpo na cadeira e jogar as pernas lá pra frente… Mas não. Numa festa a gente se comporta como uma lady. Ao menos enquanto dura o humor e a boa vontade.

Depois meu desejo é sair correndo.

Assim, no meio do evento, decido que a atuação foi muito boa, obrigada, mas agora é hora de baixar as cortinas e voltar pro meu camarim.

Não há sensação mais deliciosa, perfeita, mágica que tirar os pés de um salto e largá-los descalços no chão frio. Esticar os dedos e sentir que uma parte de você já foi devolvida. Depois é só tirar a maquiagem.

Você se encontra ali. Até dou risada. “Olá, eu!”

O cabelo… Tá certo, adorei meu cabelo… Fiquei morrendo de dó de estragar, mas ele não duraria para sempre mesmo, então…

Finalmente, de cara limpa, vestindo uma camiseta super velha, cheia de buracos, uma bermuda que um dia foi uma calça e de pés livres, consigo respirar novamente. E percebo que o melhor da festa é chegar em casa, de volta para você mesmo.

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O solitário trabalho da escrita

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20 de Janeiro de 2013. Falta menos de um mês para a entrega do artigo de conclusão da matéria que fiz como aluna não-regular do Mestrado em Ciências Sociais. Ótimo.

O prazo está bom, até porque não é de hoje que o conheço. Escrevi 17 páginas até o momento, mas o problema não é esse. O problema é que a cada vez que releio o artigo parece que falta algo e então reinicio as leituras, busco novos textos, faço novas pesquisas, tudo tentando deixar meu artigo claro, compreensível para alguém além de mim.

Não é uma tarefa fácil. E é algo que só posso fazer sozinha. Confesso que todos tem colaborado, inclusive meus gatos que passam boa parte do tempo dormindo debaixo da mesa, ou no meu colo, sem atrapalhar a concentração desta mãe tensa e indecisa.

Escrevo, reescrevo, apago, puxo os cabelo. Não está bom. Será que nunca fica bom?

Olho para o relógio. A tarde já chega ao fim. Começa aquela sensação terrível, mistura de dor de barriga, com mal humor, raiva, impaciência, inquietude. Tudo porque daqui a pouco é hora de tomar banho, arrumar a marmita e dormir. Amanhã é dia de trabalho! Que saco!

E sei que essa sensação é algo que atrapalha, que diminui a quase zero o meu desempenho. Decido acender mais um cigarro. Mas ele não me relaxa. Ao contrário me deixa com mais raiva. Tá, então vou ver o facebook. Fico emburrada. A internet é algo tão chato!!! TV??? Nem pensar… Meus poucos neurônios que ainda se mantém em atividade a uma hora dessas não podem sofrer exposição à programação de domingo!!!!

Doce. Eu posso comer doce. Mas não. Minha consulta com a endócrino será em breve e sei que levarei uma bronca por ter ganhado um quilo quando deveria ter perdido dois. Agora preciso me livrar de três!

O computador me olha e eu olho para ele. Para onde foram aquelas ideias que estavam festejando em minha cabeça hoje às sete da manhã?

No semestre passado eu escrevi qualquer coisa e entreguei. Fiquei com vergonha porque sabia que estava um lixo. Ainda hoje me queimam as orelhas ao lembrar daquilo… Não posso repetir o desastre. Não posso e não quero. Mas eu fico vendo lacunas no texto. Toda hora… Pareço aquele menino do filme, só que ele vê gente morta… Estou com sorte, então!

Quero fazer a coisa andar. Desenvolver o texto, expor minhas ideias, mas aparece que toda vez que chego no X da questão, o telefone toca, falta um livro, faltam palavras, falta clareza, falta…

Escrever é um trabalho delicioso, tanto que nem sei se deveria chamar de trabalho. Mas é também penoso quando nos encontramos nestas circunstâncias.

Recebi ha pouco um vídeo que, espero, trará um alento à minha mente exausta mas que se recusa a desistir logo agora. Embora as dificuldades não sejam poucas a beleza de ver uma página cheia vale o esforço…

Assim, depois do desabafo, que me serve como sempre para desanuviar as ideias, verei o vídeo e, talvez, volte ao meu artigo ainda hoje. Gostaria apenas de ter a mesma leveza com que comecei a escrevê-lo, hoje pela manhã…

Será pedir muito?

 

E chega de blá-blá-blá

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E não é 2012 realmente chegou ao seu fim?

Os mais esperançosos – como eu tento ser – imaginavam um final estranho, talvez rápido, não sei, mas no dia 21/12/2012. Algo assim, no mínimo, dá um ideia de que é possível renovar as coisas, trocar o que já não serve, eliminar o que está dando errado, começar de novo sem medo.

É que essa coisa de começar de novo, em especial quando se trata de nossas vidas, acaba sendo algo que, na verdade, a gente não pode fazer. Não se pode simplesmente anular tudo o que aconteceu, o que não era pra ter saído da forma como saiu, e agir como se o dia seguinte fosse um dia sem passado, como se tudo o que vivemos até aquele novo amanhecer não tivesse influenciado quem somos ao abrir os olhos novamente.
Viver é um jogo arriscado.

Quando deu meia noite e aquele povo estressante intensificou a queima de fogos eu só conseguia pensar em como era possível fazer a mesma baboseira anos a fio. No fim, é só uma virada do dia para a noite. Nada ESPECIAL acontece.  E claro, acabei pensando que talvez seja uma forma – estúpida, é verdade – de se tentar acabar com o blá-blá-blá do ano que, fomos ensinados, finda ali, para começar um novo ano de corpo e alma limpos. Prontos para os novos desafios, cheios de esperança. Como se pular ondas, comer uvas ou romã, ou infernizar a paz alheia com fogos de artifício fosse propiciar esta mudança em nós. Não vai porque não é da contagem de 23:59h para 00:00h que você vai ser quem sempre sonhou. Essa mudança se dá no dia-a-dia, na percepção de quem você realmente é, do que você quer. E a mudança no calendário ou no relógio, por si só, não é capaz de fazer isso.

Acontece que a esperança talvez seja uma das maiores dádivas do ser humano. Ou seu pior tormento.

Sim, a gente quer que o “ano novo” seja novo mesmo, que nos traga só alegrias, muita saúde, dinheiro etc, etc, etc. Mas não queremos ter o trabalho de correr atrás disso. O ano é que tem que trazê-los…  Achamos que fazemos nossa parte ao acreditar que isso é possível.

Muito bem. O ano começou, como toda vez acreditamos que acontecerá ao chegar 31 de dezembro. Agora temos duas alternativas – para falar no mais óbvio – sentar e esperar que as bençãos solicitadas no momento da troca de dias caia sobre nossas cabeças como se fosse a chuva contra a qual não desejamos nos proteger, ou deixar para lá o nosso habitual blá-blá-blá e correr atrás de nossos objetivos sejam eles quais forem.

Pode ser que se optarmos pela segunda opção não tenhamos o sucesso que esperávamos. Mas talvez seja menos frustrante que passar a vida dando boa noite ao William Bonner e esperando o Papai Noel de novo.