Malvadeza

Foram quase catorze anos de convivência. E nem sempre foi fácil. A convivência entre nós duas sempre foi uma loucura. Cada uma territorialista, cheia de manias, imperiosa, de gênio difícil.

O último ano foi, sem dúvida, nosso ano mais próximas. Incrível. Só posso te agradecer por isso!

A sua braveza, sua cara fechada constantemente rendeu-lhe um apelido: babá, de “braba”. Babá Malvadeza.

Não era mais possível ver nessa rainha absoluta do lar a mesma coisinha medrosa, assustada que chegou à minha casa em setembro de 2003.

Como eu poderia não recebê-la? Quando eu soube que sofria maus tratos, mesmo sem poder, financeiramente, adotar outro filho, não consegui fechar os olhos e ignorar aquela vidinha. Uma bolinha de pelos, branca, cheia de pulgas.

Seu primeiro passeio no meu colo foi para o veterinário, antes mesmo de conhecer a nova casa. Tomou banho, foi escovada e foi vacinada. Agora ela poderia conhecer seu futuro esposo: Boris. Depois vieram os passeios no condomínio, na universidade e nos botecos!

O nome não seria Pandora, mas eu não quis causar uma crise de identidade nela. Adicionei o segundo nome: Pandora Helena.

Devido aos maus tratos ela morria de medo de subir nas coisas, inclusive na cama. Até descobrir que, na minha casa, sou uma mera serviçal. Quem manda são os gatos. Isso ela aprendeu rápido. E dominou a todos. Sem piedade.

Brigamos muito. Muito mesmo. Pra ela aceitar carinho, pra aceitar amamentar os filhotes quando nasceram, pra não bater no Boris, pra não quebrar o pote de mel do meu pai, pra não ficar grudada na tela da porta gritando quando entrava no cio.

Nosso primeiro momento de grude foi após a castração. Ela não saia do meu colo. AMEI aquilo. Ela era, afinal, sempre muito independente e não curtia esses momentos de babação.

Depois, era sempre a altivez dela impondo uma distância respeitosa entre a mestra e sua escrava.

Se eu demorava a entrar em casa ela miava, gritando, brava na janela: “entra logo, escrava, eu quero minha comida; quero meu cafuné, quero você dentro dos meus domínios”. Minto. Eu tenho certeza que não era “escrava”. Mas eram xingamentos poderosos, porque com a cara que ela fazia certamente não tava dizendo “querida mamãe”. E era isso o que eu amava. Aquela coisinha pequena ditando as ordens.

Tantas ordens que nunca outra fêmea pode entrar em seu espaço. A guerra era declarada. Assim ela ficou cercada de seus hominhos: Boris, Jorge, Joaquim, Otávio e José Emílio. A todos ela encarava e ditava as regras. Todo mundo obedeceu.

Ninguém a superava no quesito ronron. Era uma verdadeira máquina. A mão nem encostava nela e o motor ligava forte! Como me doeu no último dia perceber que não havia mais força pra isso!

As massagens foram as melhores de todo o universo. Incansavelmente ela amassava meu couro cabeludo e, enlouquecida com os meus cabelos, aproveitava o momento e me dava mordidas. Era uma malvada zumbi.

Quantas discussões pelo seu cabelo com dread! Não gostava de pentear e nem de se lamber. Era minha porcona terrível! Um estilo totalmente alternativo e no melhor “foda-se, humana!”.

Bolsas e sapatos gatomizados! Era especialista nesta arte!

Sol. Nunca vi um ser tão viciado em sol. Seguia o movimento do astro sempre procurando um lugar quentinho pra deitar. De preferência na almofada que me roubou. A que virou ” a almofada da Babá”.

Eu, domesticada, sabia o que cada miado bravo queria dizer: “abra a torneira da pia do banheiro!” “renove minha carninha!” “me dá essa almofada!” “manda eles saírem de perto!”

Nos últimos dois anos a luta era diária pra manter o peso, a hidratação, a saúde, enfim. E era estressante, claro. A gente continuou brigando. Mas ela deve ter percebido alguma coisa. Todos os dias me esperava na janela. Eu abria o portão e lá estavam aqueles olhos amarelos que sumiam rapidamente. A bolinha branca reaparecia atrás da porta e assim que eu abria, miava e saia correndo pra cozinha, esperando seu papá.

Depois, mal eu sentava ou deitava e lá estava meu pãozinho malvado empoleirando em mim. Pãozinho. Foi assim que a apelidei nos últimos tempos. Sua barriguinha me lembrava um pãozinho.

E o banho! Sair do banho e não dar de cara com aquele serzinho me esperando, ansiosa pelo carinho, pelos beijos, pela coçadinha no pescoço e nos bigodes foi algo a que me acostumei!

E agora? Agora meu pãozinho, minha malvada, minha magreza foi embora. Cansou de sua longa luta. Enfim pode descansar. Havia mostrado o quão importante era nossa relação e que apesar de tudo a gente tinha um laço inquebrável. Que nossa história era feita de nossas loucuras, nossas discussões, de nossas pequenas vitórias.

Chegar em casa e olhar a janela vazia. Abrir a porta e encontrar o silêncio. Sair do banho e não ouvir o seu ronron. Tudo isso me corta tanto que não sei nem explicar.

Só posso dizer que amei e amo demais a minha menininha, que tá doendo tanto que não sou capaz de falar. Eu disse pra você que você podia ir, que podia descansar, que eu te amava e que você me perdoasse por não ter podido fazer mais. Mas nada disso é suficiente, Babá. O buraco é imenso.

Eu sei que pra você foi melhor. Eu sei disso. Não estava sendo fácil, né? Mas não posso dizer pra ficou fácil pra gente aqui, viu?

Eu sei que você está brilhando em algum lugar aí fora. E que agora não tem dor, nem fome, nem medo. Eu sei.

E, Malvadeza, você sempre será a melhor malvada do mundo, a malvada favorita, a malvada mais deliciosa do universo. Nunca se esqueça disso.

Te amo, Malvada! Descanse bem, meu paõzinho. Você merece!

 

 

Pandora Helena: 20/02/2003 – 16/06/2017

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A arte de escrever

Escrever é uma arte. Eu acredito nisso. Acredito que existe um estado de espírito apropriado para se escrever. Mas também acredito que se pode sentar num dado momento e “criar” uma espécie de espírito para se escrever. Explico:

Aquele dia em que a alma parece esfacelada, em que a dor é lancinante, em que o peso do mundo parece insuportável é, me parece, capaz de proporcionar belíssimas palavras, criar o momento certo para por pra fora tudo aquilo que se passa em nosso interior, todo o medo que nos aflige, toda a angústia que nos consome.

É incrível como todas as vezes em que me sinto envolta nessa névoa de tristeza e dor, tenho uma vontade louca de escrever, seja aqui, seja em meus cadernos. O resultado é incerto: às vezes o retrato do momento que, compartilhado, auxilia na minha recuperação, na mudança de perspectiva, na reflexão que gera a ação.

Às vezes eu consigo transformar numa piada. E, depois, fico rindo pensando em como aquilo tinha doído tanto se agora eu podia até chorar, mas chorar de rir!

Há, também a situação em que a dor, a raiva, o medo parecem impedir qualquer pensamento, qualquer ação e aí, é preciso abandonar tudo e fazer outra coisa e isso, talvez, te leve ao encontro das palavras que vão aliviar a alma.

Já no caso “espírito criado” a lógica é bem outra. É aquele momento em que você PRECISA sentar e escrever. Por qualquer motivo que seja: a manutenção de um diário, um artigo, um relatório de trabalho.

Às vezes é um processo tranquilo. As palavras fluem, as ideias são claras, tudo se resolve. Noutras ocasiões sua mente silencia, faz birra, não apresenta nem uma única ideiazinha cretina que seja! Nessas horas parece que nada no universo será capaz de ajudar.

O conselho é sempre “vá fazer outra coisa”. Parece óbvio, mas é difícil como o quê! Parece que você fica incapaz de se concentrar em outras coisas, que o tempo corre (especialmente se você tem um prazo a cumprir), que sua paciência acabou há milênios e que todas as coisas do mundo existem unicamente pra te irritar. Pelo menos é assim que me sinto.

Eu ando numa dessas crises infernais. Sento com um bilhão de ideias na cabeça e para que elas desapareçam, basta que eu posicione meus dedos sobre o teclado, ou que pegue uma caneta pra rascunhar alguma coisa.

Aí o ódio toma conta. Fico cega, xingo, levanto, ando, sento, fumo, como, bebo água. Leio alguma outra coisa sem conseguir absorver nada, bisbilhoto as redes sociais. Só pra me irritar mais. Aí o jeito é chorar e, depois, encher o bucho com alguma coisa doce, bem doce, ou gordurosa, bem gordurosa. Ou algo doce e gorduroso.

Cansada e com os olhos inchados já sou capaz de achar graça na minha atitude idiota. Que eu sei que é idiota, mas que sempre repito. É assim: quero escrever, não consigo, fico louca, choro, me encho de porcaria, relaxo, dou risada, fico triste, relaxo e volto à sanidade.

Aí, sabendo que a coisa não tem jeito, ou já entregando os pontos, ou cheia de raiva, ou qualquer outra coisa que pareça me trazer alívio (louco, né?) dou início a uma nova atividade: vou feltrar, vou brincar com os gatos, ou vou conversar (mesmo que seja comigo mesma, num dos diálogos malucos que envolvo a mim e a mim mesma).

No meio dessas coisas BUM, percebo onde estava o erro, ou o que foi que deixei de ver, ou o que foi que vi mal visto, ou relembro um texto que eu precisava horas atrás e que estava escondido nos confins da mente.

Ai é só sentar novamente e escrever. Mesmo que o resultado não seja exatamente o esperado é, pelo menos, um resultado melhor que o vazio anterior.

Os ombros relaxam, o rosto descontrai e já posso dormir em paz. Se não com a sensação de missão cumprida, ao menos admirando de novo a arte de escrever.