Uma carta de amor

Cansado após mais uma madrugada de trabalho, ele entra no quarto e sobre a cama encontra um envelope assinado por sua amada. Coça os olhos e se põe a ler o que seria uma carta de amor:
” Muitas vezes eu quero falar algo que não sai. E muitas vezes eu fico imaginando essas coisas acontecerem somente na minha cabeça. Na maior parte do tempo acredito que a minha vida só acontece na minha cabeça.
Sinto falta daquele tempo que tínhamos só para nós. Pra ficarmos sem se preocupar com o dia seguinte.
Sinto falta de não compartilhar tanta coisa com você e medo de não lembrar muita coisa que sempre penso em te contar.
Me preocupo se sou muito maçante e repetitiva e nada interessante. Se serei engraçada, enfim.
Às vezes, na cama, penso em milhares de coisas que não falei e tenho vontade de levantar ou ligar só para contar.
Mas muitas vezes isso fica na minha vontade. Odeio ter tantas manias, ser tão chata, reclamona etc, mas desconfio que se fosse diferente não seria eu, e você não mais me amaria.
Odeio também as suas manias, cada uma delas. Odeio seus “deslizes” e sua falta de atenção ao ler o que escrevo ou ouvir o que falo, mas me pergunto “alguém se manteria tão são se me lesse ou ouvisse sempre com atenção?”. Talvez não… Mas não importa, é isso que os apaixonados fazem, não é?
Acho que eu deveria falar menos. Ou não, pois acho que você precisa ter com quem falar.
De qualquer maneira, muitas coisas permanecerão vivendo somente na minha cabeça.
Espero que você saiba que mesmo sendo como você é (…) eu te amo e sinto sua falta (menos quando quero ficar sozinha e você vem me atrapalhar) (…).
E saiba que somos uma dupla quase perfeita. Falta a você um pouco mais de grana, esperteza, paciência, ser uns 15 cm mais alto. A mim, falta tempo. De resto, sou surpreendente. (…). Eu morro de rir com a gente.
Acho que as coisas vão dar muito certo para nós. E acho que só de achar isso já vale a pena pagar para ver.
Amo você.
PS.: às vezes não te parece que escrevo coisas sem sentido???”
Olhando pela janela, ele balança a cabeça e ri… “às vezes, amor? às vezes?”
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Para ela

Sabe aquele olhar cativante? Aquele que só de ver você sabe que pertence a uma pessoa apaixonada? Pois é. Há alguns meses me deparei com um desses.
Foi numa sala de aula. Numa segunda-feira. Lá estava ela, com uma suavidade ao falar, um brilho intenso no olhar que fazia impossível não apreciar aquilo tudo.
Não cheguei a lhe dizer a importância que aquilo teve para mim, mas espero que em meu próprio olhar tenho sido possível perceber.
Aquela mulher, a cada semana, mesmo cansada e atarefada, demonstrava em seus gestos, suas palavras e naquele incrível brilho no olhar a sua paixão.
Paixão contagiante.
Não que fosse tudo um mar de rosas, como dizem por aí. Muito pelo contrário. Às vezes aqueles olhos traziam uma coisa estranha, um ar cinza, que eu não soube identificar como medo, tristeza, desesperança ou que quer que fosse…
Por maior que fosse sua própria paixão pelo que estava fazendo, algumas vezes seus olhos marejavam. Não porque o que fizesse não fosse por si só digno de prêmios, mas porque, embora em minha opinião aquilo de certa forma a alimentasse, faltava algo.
Faltava gente para apreciar aquilo tudo. Apreciar aquele brilho, aquela intensidade, aquele amor.
E muitas vezes, quando nos dedicamos para que outros sintam o que sentimos, a alegria, a satisfação que sentimos, mas parecemos invisíveis aos seus olhos, nosso próprio olhar é coberto – ainda que temporariamente – por uma nuvenzinha, de medo, de dúvida, de um quê que não sei bem como chamar.
E foi assim que encontrei aqueles olhos nas últimas segundas-feiras. Quase vazios. Vazios para aqueles que ao longo dos meses não aprenderam que aquela era apenas mais uma maneira de mostrar o amor que tinha (e tem).
Para mim, deixou imensas saudades. Imensas alegrias. E um crescente desejo de possuir o mesmo brilho no olhar.

Para Marlene, que não me ensinou apenas uma matéria, mas também uma nova forma de olhar.

Retorno

Muitas idéias, muita vontade.
Resolvi deixar de guardar tudo só na minha cabeça e ao menos anotar o principal num papel qualquer. Apenas para não correr o risco de esquecer de vez.
Cada vez que penso em registrar para não esquecer minhas idéias, lembro que não carrego papel e caneta na bolsa…. Talvez intencionalmente, pensando em deixar para lá. Esquecer de propósito.
Mas sempre voltam. As idéias sempre voltam. Querem sair. Precisam sair. Da minha cabeça, dos meus lábios em movimento porém silenciosos. Elas querem sair.
E assim passam os dias, meses e sempre enumero outras prioridades. Sempre intencionalmente. Sempre tentando acreditar que não houve tempo.
Até que sou vencida. É preciso escrever antes que sufoque. Que eu me sufoque. Que as palavras me sufoquem.
Ouço o som dos dedos no teclado.
O corpo sente o alívio, como aquele que sentimos após dividir um pesado segredo. A mente sossega, como o sossego depois de encontrar a solução de um terrível problema.
Liberdade.
Palavras livres amenizam a dor.
A dor da eterna prisão.