Crises de junho

Junho é o mês que em geral traz algumas mudanças. Encerra-se um ciclo, inicia-se outro. chaÉ a época da esperada pausa, do recomeço.

Não este ano. Pelo menos para mim. Em junho muitos de meus temores se apresentaram: eu não consegui produzir muita coisa (intelectualmente falando), e o que produzi foi de qualidade duvidosa; meu gato Boris ficou bem doente, foi internado e tive medo, um medo imenso de perdê-lo; Jorge, o filho do Boris ficou doente…

Com relação a meus trabalhos intelectuais, sofri como sempre sofro diante de um trabalho porco. Minha apresentação durante um seminário foi horrível e me rendeu alguns momentos de choro e vergonha intensa. Sensação mesmo de derrota. De humilhação.

Mas nada se comparou ao internamento do Boris. Isso sim me fez travar, chorar, sentir um imenso vazio.

Boris, já escrevi aqui, me acompanha desde janeiro de 2003. Foi comigo para a universidade, para bares, mercados e jardins. Esteve comigo em todas as horas boas e ruins da última década.

O carinho que esse bicho demonstra, o modo como se relaciona comigo, nunca vi em nenhum outro de meus gatos. Ele é especial. E pensar em perdê-lo, foi para mim, um golpe terrível.

Meus trabalhos acadêmicos que já estavam atrasados, ficaram perdidos de vez. Não fui capaz de fazer ou entender nada direito. Só tinha mente e coração para meu velhinho de 11 anos. E aqui, cabe um imenso agradecimento às minhas amigos e aos meus amigos que me dedicavam palavras de apoio e carinho nesse momento, e que tiveram imensa paciência com essa mãe-maluca. Mas houve, novamente, um lugar onde tudo o que passou encontrou um ombro, um colo: a Gatidade. Obrigada gateiros e gateiras. Definitivamente vocês são especiais.

Quando Boris saiu do internamento e voltou ao lar, a preocupação era imensa, afinal de contas agora seria minha responsabilidade acompanhar sua melhora. Acabei negligenciando os outros pelúcios desta casa. Peço imensas desculpas a eles. E foi assim, na negligência, que deixei passar um inchaço na boca do Jorge. Quando percebi o pobrezinho já devia estar com dor há alguns dias. Era um abcesso ou coisa do gênero. Uma infecção feia e dolorosa. A veterinária veio, tratou emergencialmente e medicou. Mas a culpa, a minha culpa, não diminuiu.

Nessa onda, meus trabalhos foram sendo cada vez mais deixados de lado. Não conseguia dormir, poque tinha que verificar se estavam comendo (Boris e Jorge), se usavam a caixinha de areia, se bebiam água etc. Qualquer miado era motivo para agonia. E assim os pesadelos entraram em minhas breves noites de sono. Sonhei que morriam, que estavam sofrendo, que eram roubados.

Dessa maneira, o sono me invadia a qualquer momento. Dormia mal de noite e de dia rendia o mínimo possível. Quase um zumbi.

A mente já cansada falhava constantemente.

Queria escrever, botar para fora essa angústia, mas até isso era difícil. Parecia uma traição sentar para escrever enquanto meus bebês demandassem cuidados.

Agora não. Estão melhores. Começam a se recuperar e a viver a vida como sempre: brincando, comendo, correndo e sendo implicantes. Do jeito que eu gosto. Destroem a casa, pulam de qualquer jeito na cama, me assustam. Mas agora o susto é de felicidade.

Volto a escrever e tento tirar o atraso nas leituras e trabalhos. Corro contra o tempo e a cada momento tenho medo de não ter tempo suficiente para dar conta de tudo o que preciso. Mas esse medo não me aflige tanto como o de dias atrás. Com esse medo de agora, lido melhor.

Junho não foi só um mês tenso. Teve também suas alegrias e surpresas.

Como uma espécie de promessa pela recuperação de meus filhotes, fiquei 09 dias sem fumar. Confesso que nas recaídas deles tinha vontade de fumar até meus cadernos, mas no geral me saí muito bem, sem neuroses e sem desespero.

Também neste mês tive mais um artigo publicado. E isso é algo que sempre me deixa muito, muito feliz.

E neste junho, na verdade dia 20, fiquei mais velhinha. Nasceu meu segundo sobrinho-neto, o Fellipe. Bem vindo a este mundo caótico, neném!

Essas coisas provam que, de novo, a vida volta a correr sobre seus trilhos seguros. E agora é hora de retomar a batalha.

Superadas as crises de junho, espero que o resto do ano siga manso e me permita dar conta de tudo o que preciso. E que agora, caso eu precise chorar, que seja de alegria. Pois de tristeza e dor, por este ano, já deu!

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