Ao amanhecer, minha casa tem cheiro de goiaba

Casa nova, vida nova. É uma das máximas que mais utilizamos ao falar de mudança.C360_2015-01-28-16-35-55-925

Mudei-me, enfim.

A casa nova é uma delícia: grande, toda de piso, com espaço pra meus livros sonharem em paz e meus gatos correrem doidos. Tudo telado, para a devida segurança de uns e outros.

No terreno de minha nova casa há até uma araucária. Uma das árvores de meu coração.

A primeira noite foi a pior. Os gatos miavam desesperados estranhando o lugar; eu, ainda sem as cortinas não conseguia dormir por conta da claridade e dos miados. Entrou um bicho em casa e os vizinhos descobriram os sons de meus gritos.

Na segunda noite, a claridade já não era um problema, mas os gatos ainda estavam amedrontados e miavam pela casa, derrubavam coisas. Dormi pouco e mal. E para coroar o fim da noite e início do terceiro dia, uma borboleta preta invadiu meus aposentos.

Quem tem medo de alguma coisa sabe que ao menor sinal da presença dessa coisa, todos os sentidos ficam alertas. E assim foi. No alvorecer, ouvi asas. Aquele som apavorante que só uma borboleta consegue fazer. Acendi a luz e lá estava o monstro peçonhento.

O coração a mil, corri para a sala, chorando, com meu edredon e meu urso de quase 3 décadas. Praguejei, aos soluços. Por que o começo tinha que ser tão difícil?

Quando percebi que não havia mais movimentos, entrei no quarto e a borboleta havia sumido. Corrijo: havia sido capturada pelo José Emílio, que me olhava com os olhos arregalados e com o monstro na boca, as asas fracas, um pouco despedaçadas.

Peguei uma vassoura para salvar meu filhote – e afinal de contas, a borboleta já estava dominada. José Emílio soltou a coisa e eu a espanquei para garantir que estava realmente morta e jamais voltaria.

Começava o terceiro dia, em que arrumei pouco a casa, pois noites sem sono destroem as pessoas. Mantive-me largada no sofá, lendo, vendo ‘o rei do gado’ – já que ainda não tinha internet, carinhando meus gatos, que já a esta altura, tentavam dominar o novo mundo.

Hoje, sétimo dia de casa nova, vida nova, a bagunça continua a mesma. Ainda não chegou meu armário de cozinha e procurar comida é como uma versão atualizada dos antepassados coletores. Coleto em caixas perdidas no quarto que será meu local de estudos, que também sente falta dos móveis.

Chove há dias, o que me deixa ainda mais desanimada de fazer algo. Só dá vontade de ficar lendo, deitada com os gatos e comendo pipoca. A bagunça, um dia, espero, há de desaparecer.

Apesar do trabalho, das costas doloridas, dos braços amortecidos e da preguiça infinita, sinto-me feliz.

E de manhã, todas as manhãs, minha casa tem cheiro de goiaba. Começo o dia com a esperança de horas doces.

Desnudar

Eu adoro mudar. Parece que uma vida nova começa. Só que nesse processo há também o lado doloroso.C360_2015-01-15-20-30-30-016

Deixar aquele canto, as pessoas próximas, o seu cheiro e o jeito de arrumar tudo naquele lugar que será abandonado.

Arrumo minha caixas há algum tempo, pra facilitar o processo final, para tornar real a mudança, pra acalentar o coração. Porém, durante essa arrumação, sinto o coração partir.

Foram anos para deixar tudo colorido e com a minha cara, com jeito de minha casa, de casa minha. E em tão pouco tempo tudo perde a cor, a cara, a alegria. As paredes vão sendo desnudadas.

Olhar para os lados e não ver a construção de anos, não ver mais tudo aquilo que fazia com que esta casa fosse casa minha, dói. Entristece. E essa dor só poderá ser amenizada, esquecida, talvez, quando uma nova casa estiver tão minha cara quanto a antiga. E isso pode demorar.

O que se carrega, então, são as boas lembranças, a sensação de recomeço, de um passo adiante.

Eu adoro mudar e sei que toda mudança é dolorosa. Mas dizem por aí que da dor surgem pérolas. Eu acredito nisso.