Meus filhos e eu

Eu amo meus gatos. Amo de verdade. Por eles eu faço qualquer coisa, mesmo que pareça uma imbecilidade. sofagato

Acho que meus gatos sabem disso. Sabem porque não me canso de repetir o quanto os amo; sabem pela forma como esqueço da vida brincando com eles; sabem pela dominação que exercem sobre mim. E mais: eles sabem que eu os amo e por isso mesmo, abusam de mim.

Ah, eu sei. As pessoas vivem dizendo que são só animais, que eu devo me impor, que isso e aquilo outro. E quer saber? Eu tô pouco me lixando. Eu amo meus gatos, sou a louca dos gatos, e me orgulho disso.

No entanto, esse ano eles resolveram testar meu amor, minha paciência e minha capacidade de resistir a tudo.

Começou com o Boris que em maio ficou muito doente. Eu tremi, chorei, perdi o sono, a fome, a esperança. Mas ele deu um show e aguentou firme todas as agulhadas, o internamento e remédios. Está ali no quarto, miando e testando minha paciência.

Depois veio o Joaquim. Esse testa minha paciência diariamente.
Assim que o Joaquim aprendeu que podia bater no Jorge e no Boris, ele desenvolveu toda uma série de golpes e caras. Golpes para os gatos e caras para mim. Ele faz aquela cara de gato do Shrek. Ou pior. Caras que cortam o coração. Mas só quando eu brigo com ele.

Com indicação da veterinária ficamos tentando uma mudança comportamental. Brincadeiras exclusivas, carinhos mais demorados, atenção constante. Tudo para ele parar de sentir ciúme do Boris e do Jorge e, então, parar de bater neles. Não deu certo.

Passamos para o medicamento. E aí foi que o teste começou de verdade pra mim. Dar medicamento pra um gato é uma das coisas mais difíceis do mundo. Os gatos bonzinhos nessa hora são raros. A maioria vira o capeta, incorpora o que há de mais violento no mundo e passa a te odiar. Joaquim é desses.

Logo nos primeiros dias, ao ver a cara triste, o olhar perdido e as orelhas dobradas, já caí no choro. A veterinária pediu paciência. Tentei. Mas fracassei. Dói mais em mim que nele, tenho certeza. Ele não parou de agredir os meus velhotinhos e ainda passa o dia vomitando e largado na minha cama. Não é justo. Com nenhum de nós.

Boris também toma medicamentos três vezes ao dia. Mas é de outro tipo. Tenho uma queda pelos homeopáticos. Acho até que esse meu olhar sobre o medicamento facilita a coisa. Boris me arranha, morde, chora, tenta cuspir, mas no fim, engole suas bolinhas mágicas. E todos ficamos bem.

Medicamentos alopáticos me causam tristeza. E isso deve influenciar diretamente no resultado do Joaquim. Eu não gosto do medicamento, não to gostando do resultado e to gostando muito menos de ser fatiada todas as manhãs. E, assim, todos ficamos mal.

Então dá pra pensar: com esses dois aí, a cota de transtornos familiares está esgotada. Mas não.

Tem a Pandora. Pandorinha Babá Malvadeza é minha outra velhinha. Fez 12 anos em fevereiro. Ninguém tira onda com ela. A história com essa fofenta é: escreveu, não leu, pau comeu. Seja gato, humano, cachorro, pelúcia. Pandora voa na jugular e ponto final. Em compensação é uma poderosa máquina de ronronar. É só mostrar a mão pra minha Malvadeza que ela liga o motorzinho e fica expulsando a energia ruim e trazendo amor.

Mas na cauda da Babazinha nasceu um caroço. Ela fez uma série de exames. E alguns deram resultados ruins. Por isso ela vai refazê-los. Amanhã, inclusive. E é muito, muito, muito provável que faça uma cirurgia até o fim na semana que vem.

Só de pensar nos riscos que uma cirurgia a esta altura do campeonato representa, já tremo na base e me faltam forças para qualquer coisa. Mas não quero pensar assim. Quero pensar que vai dar tudo certo e que ela vai continuar me segundo pela casa, mordendo durante o carinho e ronronando alto e sem parar. Pelos próximos vinte anos. Quem sabe?

Chego em casa e o ritual se inicia: tratar os gatos, brincar com gatos, brigar com os gatos, deitar com os gatos, falar com os gatos, dividir comida com os gatos, dividir teclado com os gatos, brigar com os gatos, implorar perdão por brigar com os gatos, esmagar os gatos, rir dos gatos, chorar pelos gatos, tratar os gatos de novo, ler com os gatos, deitar com os gatos, dormir com os gatos…

E são todos estes testes que eles resolveram impor a mim este ano. E ainda não sei se serei capaz de vencer todas as batalhas sem me despedaçar.

Só queria mesmo acordar amanhã cedo e ver que tudo foi um sonho ruim. Que o Joaquim é o gatinho manhoso e querido que ele foi até pouco tempo atrás, que o Boris tem os dois rins funcionando adequadamente, que pode comer as guloseimas que sempre gostou e que não preciso mais enfiar remédios goela abaixo, que a Pandora teve só uma bola de pelo, um nó como tantos outros que ela arrumou ao longo da vida, que o Jorge não tem medo de andar pela casa, que o José Emílio continua carente de carinho porque imagina que o mundo perfeito é feito de muitas mãos a acariciá-lo e que o Otávio Cototo Augusto vai se manter sempre doidinho e feliz como hoje, correndo pela casa e acreditando que pode voar.

E ao acordar amanhã, queria acreditar que meus gatos e eu estaremos juntos por muitos e muitos longos anos, com saúde e gás suficiente pra brincar muito e destruir a casa, sem achar que isso é o fim do mundo.

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