Lembranças

lembrançasTem horas que as lembranças doem de um jeito terrível. Tem horas que elas servem para dar consolo.

Tem dias que a gente lida bem com um e outro tipo de lembrança.

Às vezes me pego pensando em milhares de coisas que já vivi e como essas coisas todas colaboraram de uma forma ou outra pra que eu me tornasse quem eu sou hoje.

Fico pensando em cada caminho seguido ou abandonado, em cada palavra dita ou desprezada, em cada conselho ouvido ou ignorado, em todas as particularidades de uma vida meio esquisita mas da qual eu me orgulho.

Outro dia tava aqui pensando em meus filhos, em cada história, em cada perrengue, em cada travessura. E foram muitas.

Lembrei-de, por exemplo, de quando me mudei pra outra casa. Logo nos primeiros dias uma borboleta assassina invadiu meu lar. Acordei na madrugada com o som daquelas asas malévolas. Os gatos logo se dispuseram a me salvar e José Emílio, minha estrelinha brilhante, deu cabo do monstro terrível. Lembro-me perfeitamente da carinha de safado dele, com os olhos arregalados e  borboleta na boca, com as asas ainda em movimento.

Dele lembro, ainda, de um dia em que veio correndo pra cama e jogou uma barata viva lá. Ou de como comia engraçado, parecendo uma patrola. Lembro de seus dengos, suas cabeçadinhas carinhosas, de como chegava se jogando em cima dos outros gatos.

Lembro do olharzinho de hominho sério que ele fazia, de como chegava silencioso e colava na gente, de como adorava esfregar o bumbum fedido na nossa cara, como se isso fosse o maior carinho que pudesse nos fazer, de como adorava catnip. As lembranças são infinitas.

Lembro de milhões de trapalhadas com os gatos também. De ter deslocado o bracinho do Boris enquanto brincava com ele, de derrubar o coitado do Joaquim, de tropeçar no Jorge e no Cototo e de sentar na Pandora.

Lembro de carregar eles no colo como se fossem crianças pequenas (o que, na verdade, eles são para mim) e de assim, com eles enrolados numa toalhinha confundir as pessoas que nos viam.

Lembro, ainda, de tantas pessoas que passaram por minha vida e das que ainda estão. De todos os momentos incríveis e os de dureza – emocional e financeira.

Lembro das tretas com meu irmão caçula e de como, apesar de nossas diferenças, sempre tendo a protegê-lo. No colégio, certa vez, me meti no meio de uma pancadaria porque havia um moleque querendo bater no meu irmão. Ora essa!

Lembro que num tempo muito, muito, muito distante eu joguei basquete, futebol e handebol na escola. E cheguei a ganhar medalhas. Hoje só corro pra pegar o bus pra chegar mais rápido em casa. E olhe lá!

E lembro, claro, dos milhões de gafes. Acho até que vim ao mundo pra passar vergonha.

Comentários impróprios, gargalhadas nos momentos mais inoportunos, como num velório, por exemplo, e atitudes bizarras fazem parte da minha existência. E nessas horas eu penso: quem manda ter a língua maior do que a boca!

Uma vez, veja só, fui para a Argentina com míseros 4 reais no bolso (valor da passagem de bus entre Foz e Puerto Iguazu). Achei que poderia usar o cartão de débito normalmente por lá. Só no meio da viagem é que alguém chamou a atenção para o fato de “EPA!!”, a Argentina ser outro país, baby!

É idiota, eu sei, mas essas trapalhadas me fazem rir até doer a barriga. Choro de gargalhar mesmo depois de passado muito ou pouco tempo do ocorrido.

São essas lembranças que vão construindo, como numa colcha de retalhos, cada pedacinho meu.

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