Os sonhos de meu pai

Sempre julguei incrível a capacidade do cérebro de “criar” coisas “absurdas”, principalmente quando dormimos. Criar e aburdas estão estre aspas porque há que diga que o cérebro apenas reproduz o que já conhece, portanto não poderia chamar os sonhos de “criações absurdas” muito embora eu, cá com meus botões, duvide um pouco disso.

Claro que algumas associações são incrivelmente assustadoras, como uma vez que sonhei que minha gata Pandora caía da janela de meu apartamento no quinto andar – e acordei bem assustada. Olhei para a janela e lá estava a pilantrinha, talvez calculando o pulo para chegar ao térreo.
Mas lembro-me claramente de sonhar com pessoas que nunca vi, coisas que nunca fiz e outras tantas que duvido ter coragem para fazer. Houve uma vez – sempre morro de rir com isso – que sonhei que morava numa fazenda, e ao ir visitar a fazenda vizinha, percebi que minha casa estava sendo assaltada. E qual não foi a surpresa quando descobri que a gangue de assaltantes era comandada pelo Boris, meu gato…
Foi também um sonho que acalmou minha alma após o brutal assassinato de meu gato Jarbas: ele, uma semana depois de ter ido morar no céu – semana na qual eu não parei de chorar – veio em sonho me dizer que estava bem e que eu não precisava mais sofrer. Foi tiro e queda. Não chorei mais. Sentia a dor da perda mas não chorava.
Mas nada disso se compara aos sonhos de meu pai.
A criatividade idílica dele me surpreende desde a infância, quando pelos cantos da casa ouvia-o narrar seus vôos noturnos por lugares mirabolantes…
Todos os elementos dos sonhos dele têm aquela coisa que faz lembrar a magia.
Ás vezes penso que ele sonha assim, porque no momento de seu nascimento, no natal de 1938, um anjo passou por ele e disse “Eis aqui um belo sonhador”. E assim foi, não só durante a noite, mas também, e devo dizer, principalmente, enquanto está acordado.

Ano após ano, ele vem narrando seus sonhos fantásticos. Daqueles que fazem os ouvintes sonharem acordados – como ele – rirem, se emocionarem e desejarem as mesmas experiências…
Sonha com naves espaciais que ele constrói, com carros absurdos nos quais percorre as cidades, com cadeiras voadoras, com gente estranha, com seus shows de tremendo sucesso. Até aí tudo bem, mas há algo nesses sonhos que não consigo identificar,e menos ainda descrever, que é justamente o que os torna únicos.
E sempre após ouvi-lo, desejo que ele não acorde, que passe a vida sempre sonhando. Assim ele certamente é mais feliz.
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O resgate

Ela então se perdia. Quase sempre dentro de si mesma. No seu próprio mundo que apesar de tudo ainda lhe parecia o mais seguro.
Amava com uma determinação imensa e ao mesmo tempo uma fragilidade impressionante. De fora ninguém diria que amava nem a ela mesma, mas não era a verdade. Sim, a amava como acreditava que nenhum outro ser humano seria capaz de fazer. Amava todos os seus defeitos, acreditando que eles davam a ela aquela característica especial: ser ela mesma.
Impossível definir se odiava a vida real ou se apenas não a concebia como tal.
Incontáveis tentativas de fuga. Do seu mundo, do mundo todo.
A eterna busca por respostas: ciências e religiões. A seus olhos ninguém era capaz de entendê-la.
Aqueles que ousavam dela se aproximar não podiam compreender seu gosto, melhor, seu fascínio pela solidão, pelo prazer de estar só. Só com ela.
Tantos hábitos que julgavam estranhos fazia com que não criassem vínculos maiores. Por outro lado, a manutenção de seus hábitos estranhos a deixava feliz por não precisar manter proximidade com ninguém. Ela se bastava. O mundo, o seu mundo particular, era perfeito com ela e suas manias, seus gatos, seu cigarro e roupas coloridas, ás vezes fora da moda. E a moda…bem ela tinha a sua própria. Bastava-lhe ser ela, afinal com ela apenas, era possível ser ELA. Com os outros era quase forçada – em sua concepção – a não ser ela. Sozinha, era ela mesma sempre, para os outros era o que estes esperavam que ela fosse. Exemplos: sua risada precisava ser comedida, seus gestos mais sutis e sua opiniões moderadas. Não!!! Não gostava disso. Gostava de gargalhar, de criticar as pessoas e o mundo ao seu redor, de se olhar no espelho e com um sorriso tímido nos lábios pensar “pareço uma caixa de lápis de cor”. Ainda assim, buscava fugir. Não sabia para onde e nem entendia muito bem o porquê disso, mas era assim que sentia.
Certo dia, aparece-lhe um invasor. Seu mundo corria perigo. A intransponível torre que a protegia de tudo, parecia não ter mais aquela almejada segurança. E o invasor não desistia. Sua vontade era maior que tudo. Por onde quer que ela olhasse buscando uma saída, lá estava ele de braços abertos, esperando por ela.
O tempo passava e ela relutava. Não queria que alguém, fosse quem fosse, lhe tirasse daquele lugar cuidadosamente planejado, construído para lhe garantir o que ela precisava. Mas dia após dia, lá estava ele. Dedicado, apaixonado, fiel.
Um dia, quando ela se deu conta que sentia mais medo na torre, que segurança, resolveu pular. Antes calculou tudo o que poderia acontecer – porque ela sempre calculava tudo – mas resolveu fechar os seus olhinhos tristes e pular.
Pulou numa viagem que não mostrava segurança, mas parecia ser agradável, parecia lhe mostrar aquilo que as paredes lilases da torre não deixava ver. Aceitou o risco, acreditou ser possível. E entre tantas coisas que pareciam reais, refez seu mundo, colorido, com muros mais baixos, mas sempre saudosa de sua torre…