Outro dia

Tão cansada que não sabe mais se passa ou se sempre foi assim.
Seus dias demoram, parecem ter mais de 24 horas. Suas noites ao contrário parecem ser curtas demais, dando a impressão que nunca é possível descansar de verdade.
As horas de descanso parecem não mais existir. Todos os seus atos parecem movidos por uma mecanicidade surpreendente.
Amizades. Sente não tê-las mais.
Seu sorriso parece uma máscara. Não sente mais como se fosse o natural. As próprias lágrimas, que julga ser sua única forma de desabafo, parecem-lhe fugidias.
Há tempos atrás – que também parece ser tempo demais – tinha a impressão que não era assim.
Pega-se por vezes sorrindo para a parede em frente. Sabe, claro, que ouviu um comentário engraçado, mas sente que não lhe toca, nem o engraçado nem o trágico.
Como se todo o corpo tivesse entrado em um estado de torpor, não sente mais nada. Ou quase nada.
Sente essa agonia infinita, esse descontentamento com qualquer coisa que outrora parecia ter fim. Essa mesmice e a aparente impossibilidade de resolução de coisas simples.
Perde-se em devaneios. Perde-se em dúvidas.
Será que todos sentem assim?
Será que foi possível aprisionar-se em seus medos e dúvidas e ter esquecido a chave para fugir disso tudo?
Poderia talvez decidir mudar as coisas. Mas muitas vezes olha-se e decide que não há mesmo solução. Que tudo isso é enganação, que a verdade está atrás do falso sorriso que julga ter visto num rosto conhecido.
Suas certezas deixaram-na. Ou acredita, por vezes, que isso aconteceu.
Presa nesse mar infinito de escuridão duvida que esteja acordada. Abre seus pequenos olhos e acredita que é mais um pesadelo. Que logo irá passar.
E o súbito susto lhe pega quando reage da mesma maneira incompreensível. Violência, medo, raiva. O que seria isso?
Não sabe.
Fecha os olhos e pela face rolam quentes lágrimas que não sabe definir que sentimentos poderiam expressar, mas que ao fim parecem tirar de suas costas aquele peso invisível.
Seguirá mais um dia em busca de suas respostas. Talvez devesse olhar para outro lado, mas o que dizer a quem está cansada de ouvir? Se ao menos falasse, talvez encontrasse ajuda. Mas também está cansada de falar. E de ver, e sentir.
Quando o novo dia chegar, certamente fará propostas que no fundo já acredita não ser capaz de seguir, mas fará assim mesmo.
Afinal, ao nascer do sol, olhará pela janela e acreditará, por minutos que seja, que há possibilidades também para ela.

Anúncios

Quem é dono do quê?

De longe não se pode imaginar, mas olhando um pouco mais de perto o resultado não é tão agradável. É assim que penso o começo deste texto.
Há alguns anos moradora de Maringá, passei boa parte deste tempo vivendo na região central, o que me fez “esquecer” de observar alguns detalhes que só agora, morando num bairro relativamente distante de tudo, é que tenho dado a devida atenção.
O que sempre me deixou “p” da vida aqui é a falta de acesso a uma centena de coisas. Lembro-me que minha mãe sempre levou a mim e a meu irmão mais novo a museus, teatros, shows, quando ainda morávamos em São Paulo, e ao estabelecer moradia em Maringá, achei que continuaria tendo acesso a tudo isso. Não que não exista isso por aqui, mas o que existe é limitado.
Em minha opinião o que há de melhor na cidade é o festival anual de música, onde se reúnem artistas de todo o país para mostrarem sua arte. Seria maravilhoso se o festival não acontecesse num lugar tão longe, e se por vezes não fosse necessário andar alguns quilômetros a pé para voltar de lá, pois o último ônibus de volta para a “civilização” sai de lá as 23:10h.
Em geral, o preço dos espetáculos são totalmente incompatíveis com a renda da maioria dos trabalhadores da cidade, assim como os horários, os locais e a falta de divulgação decente.
Agora que moro muito mais longe do centro da cidade – onde se tem um pouco mais de acesso ao que acontece por aqui – percebo uma série de problemas no pensamento das pessoas que acabam ampliando a “exclusão” dos bairros.
Buscando um filme* no último fim de semana, ouvi tantas desculpas para a falta dele, e até o total desconhecimento do mesmo que foi impossível deixar passar em branco.
O dono de uma locadora me disse que nos bairros as pessoas não locam filmes que não falem sobre violência e sexo. “Filme inteligente em bairro não pega. Eu até gostaria de ter outras coisas, mas bairro é assim”. Essa foi a bela frase.
E realmente, procurar filmes que saiam da ótica hollywoodiana, os ditos filmes Cult tem sido uma árdua tarefa.
Olhando de longe e sob uma ótica parecida com a do dono da locadora poderíamos ver um amontoado de gente morando em lugares teoricamente mais barato, e não obstante excluídos do centro (cultural, educacional, social) da cidade, seriam considerados um bando de gente burra, que não gosta de pensar, que não quer pensar, que não sabe pensar. (O triste é que esse pensamento reducionista/etnocêntrico não é característica do dono da locadora do bairro. Ao contrário, está presente em inúmeros comerciantes que mantém estabelecimentos no local, bem como por pessoas que residem, comercializam, estudam etc no centro.)
Olhando com um pouco mais de cuidado (de perto) poderíamos sugerir que esses filmes – por exemplo – não são procurados simplesmente porque ao residir num bairro mais distante, as pessoas, em geral, são automaticamente excluídas de uma série de informações, como o da existência de tal ou qual filme, livro, evento…
O não acesso à informação, à educação, a permanente idéia de que essas pessoas não entenderiam coisas assim, cria um círculo vicioso de negação do acesso e de comodismo por quem não obtém a informação. Uns defendem que certas pessoas não entenderam isso ou aquilo, outros acreditam que não entenderão mesmo e, portanto, não buscam tal informação
Com relação ao filme, se ele estivesse disponível para ser visto, para se ler o conteúdo e então decidir se leva ou não, talvez a idéia de que “bairrista não pensa” fosse diferente. Ao negar o acesso a inúmeros dados quem os detém escolhe pelo outro o que este tem direito ou não de saber, de gostar, de querer.
É a velha luta pela posse do conhecimento.
E enquanto se acreditar que “sempre foi assim mesmo”, que “não acho que posso ter entendimento”, que “isso é coisa de universitário”, que “não vi porque é coisa de estudante/ intelectual/ rico” não haverá grandes mudanças. Seremos ainda meio dúzia de gatos pingados brigando com o dono da locadora por este ou aquele filme, que ele inclusive acha que não vamos gostar/ entender, afinal moramos em bairro…
*O filme procurado era ‘Quando Nietzsche chorou’ baseado no romance homônimo de Irvin D. Yalom e só foi localizado em uma única locadora no centro de Maringá.

Sobre o tempo.


Outro dia ouvi uma discussão sobre o ócio produtivo. O que me deixou indignada a ponto de ousar dar a minha opinião, é que o defensor da não existência de qualquer produção nesse período chamado ócio, não faz outra coisa da vida além de estudar. Pois bem, disse eu, antes de voltar a trabalhar eu tinha tempo para sentar e escrever, para ler – na verdade, devorar meus livros – para brincar com meus gatos, para fazer tantas coisas que hoje, somente de pensar nelas, já me sinto cansada.
A conversa em si não foi interessante, o indivíduo não aceita qualquer argumentação, e eu simplesmente prefiro me ausentar a gastar minha saliva com discussões como essa. Afinal, eu termino sempre achando que, ou as pessoas são estúpidas demais e não valem meu tempo, ou que eu estou complemente louca.
Nenhuma das duas alternativas tem um quê de bom, mas é assim que acabo pensando. E esse pensamento me leva a muitos outros, como sobre o meu egoísmo e meu etnocentrismo. Mas isso ficará para um outro feriado, quando eu puder exercitar o ócio produtivo.
A questão de hoje é essa vida cretina que alguns de nós levamos, ou pela qual nos deixamos levar.
Sempre defendi que era muito possível estudar e trabalhar. Até porque desde que comecei a trabalhar não deixei de estudar. Mas quando fiquei sem trabalhar pude perceber a imensa diferença – ao menos para mim – na produção.
Eu lia tantos livros e tinha tanta vontade de escrever que fiquei verdadeiramente maravilhada.
Há pouco mais de um mês voltei a trabalhar. E junto com o trabalho recomeçaram as aulas na universidade. Não que eu tenha deixado de ler etc. Consigo dar conta de tudo como sempre, mas percebo uma mudança drástica no ritmo. Os milhões de livros reduziram-se aos poucos textos das aulas, os textos agora são escritos em dias como hoje: feriado em que estou em casa.
Qualquer tempo livre que tenho me parece uma oportunidade única de descansar e não de usar para as coisas que me deixam livre, feliz.
Outro dia me dei conta que não cantava mais a não ser no caminho de ida e volta do trabalho, onde mexo os lábios no ponto de ônibus. Não escrevia mais, porque me sinto tão cansada que sair da cama e sentar para escrever parecia um sacrifício desnecessário. Livros? Acumulam-se.
Me dei uma noite pra cantar e acordei exausta no dia seguinte pensando: “se não tivesse feito isso, teria dormido cedo e, portanto, não estaria tão cansada”. Isso é horrível.
Uso meu horário de almoço pra ler e discutir coisas legais sobre as aulas. Uso meus fins de semana pra reler algo ou para não acumular nada para a semana que vai começar.
A discussão de outro dia me fez ver o quanto o ócio é produtivo. O quanto eu produzo se não trabalho.
A verdade é que nunca gostei de trabalhar. Me mato o mês todo pra receber uma porcaria de salário que serve pra pagar as contas, e olhe lá. Não me sinto nem um pouco mais útil, feliz, ou realizada com isso, ao contrário de muitas pessoas que conheço. E percebi que a questão não era o trabalho que eu tinha, era e sou eu.
O que me dá vida é o que está em outro lugar, que até hoje não me deu dinheiro, mas é algo que dinheiro nenhum do mundo pode me dar: satisfação.
É com imensa felicidade que inicio e termino um livro, que escrevo um texto, que não durmo para discutir política, religião, gênero, conhecimento, vida…
Então, depois de falar e falar e falar, penso se tudo isso não é culpa de minha má administração do meu tempo. Se não é minha imensa repulsa pelo universo do trabalho que me causa essa infinita desordem. E minha conclusão é a mesma desde o primeiro dia de trabalho: não nasci pra essa vida!
Não quero acordar cedo pra ganhar dinheiro pra alguém. Não quero acordar cedo porque essa é minha obrigação. Não seguir essas regras. Quero fazer meu tempo, quero administrar meu dia de forma que ele se torne uma coisa que me dê prazer, que me deixe efetivamente contente, e onde eu consiga ver algum resultado, ainda que seja exclusivamente para mim. E isso, para mim, parece incompatível com o fato de eu trabalhar.
Meu tempo. Esse tempo que pede mais do que tem. Pode ser que amanhã eu olhe e pense que eu só estava numa fase besta da vida, mas confesso que há pelo menos dez anos espero por esse dia, e a única coisa que muda é o tempo: um pouco mais velha, um pouco mais tarde. Um ponteiro.
O desejo de pular fora dessa roda nunca mudou. O desejo de estudar – formal e informalmente – o dia todo, a semana toda, o mês todo, a vida toda, continua. E olha que estudar dá um baita trabalho. O cansaço resultante deste trabalho não passa com uma boa noite de sono, não passa no feriadão, no fim de semana. Bem como as alegrias produzidas por ele, que também não passam…
E, ao fim de cada mês, o resultado dele não se vai nos balcões de pagamento.