Sobre família, fé e férias

Cada pessoa tem um dia só seu, a cada um dos doze meses do ano, para ser feliz sem perguntar o porquê, para cantar pelas ruas, para rir sem motivo, para ser plenamente feliz. Foi o que meu irmão me disse esse ano. Confesso que às vezes me pego sorrindo no caminho de ida e volta pra casa, sem nenhum motivo aparente, mas nunca pensei que aquele poderia ser um dia diferente dos outros. Diferente porque era meu. Só meu. O meu dia no mês.
Penso agora que esse dia importante serve também para nossos encontros com as forças superiores, sejam elas quem forem. São os dias em que nada pode nos fazer brigar a sério, em que tudo nos parecerá lindo, em que as cores são mais nítidas, as músicas mais melodiosas, o vento, a brisa que tanto esperamos.
Esses dias mágicos podem nos fazer, ainda que por poucos instantes, ver a vida com uma beleza ímpar, agradecer pela vida, pelos ensinamentos e pelas pessoas que nos cercam. Nestes dias aprendemos o valor das coisas e das pessoas, da nossa vida. Neles podemos captar, mesmo que por rápidos momentos, o real significado da vida.
O triste de saber isso, é saber que passamos os longos doze meses do ano sem atentar para estes dias. Nem ao menos paramos para refletir sobre qualquer coisa. Nosso mundo egoísta, frio, competitivo nos ensina que temos horário a cumprir, metas a alcançar e pouco ou nenhum tempo para sonhar, para sermos quem somos.
Podemos fazer qualquer coisa – cantar na rua, amar, sorrir – em qualquer outro dia do mês, do ano. Mas me pergunto se sentiremos a mesma emoção que neste dia que é nosso.
Houve um dia, pelo menos, em que pude identificar essas coisas. Um dia em que soube – depois da lição de meu irmão – que a escolha do dia pode mudar a percepção de algo. Se eu tivesse feito a minha viagem à Aparecida num dia meu, talvez tivesse saído de lá com outra visão. Mas nem sempre podemos esperar pelo “belo dia”, e pode ser que esperando, não tenhamos a leveza de saber quando ele o é.
Porém, se no dia em que aprendi esta preciosa missão, não estivesse feliz, leve – como estamos nos dias que são nossos – e pronta para ouvir, não tivesse visto a beleza nas palavras daquele homem, que é parte importante de minha vida, parte importante de algo que só há pouco tempo aprendi a apreciar: minha família.
Posso dizer, enfim, que por mais curtas que tenham sido minhas férias, trouxe, para toda a vida, preciosas lições.
Anúncios

Sobre o silêncio

A propósito da discussão sobre o direito de expressão, uma frase tem martelado minha mente. Algo que ouvi – pela primeira vez – há muitos anos na escola: “posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-lo”.
Críamos que o direito der se expressar era algo que já não podia ser contestado, mas não é o que vemos.
Posso ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo (como realmente, sou), mas se for contra devo manter-me calado.
Quando alguém se manifesta contrariamente a esta questão – e a muitas outras – é massacrado.
Não defendo, em absoluto, a posição de pessoas que vieram a público criticar, negativamente, os homossexuais, por exemplo. O que questiono é o peso da imposição de silêncio para a discussão, para o desenvolvimento intelectual. É como se um professor pedisse um trabalho sobre um assunto qualquer e desse notas baixas a quem discordasse dele, de suas próprias ideias, ainda que o aluno tivesse feito um trabalho excelente.
Como estimular discussões, aprimorar ideias, alimentar debates construtivos se silenciar todo aquele que discorda de mim?
A violência, a discriminação, isso deve ser combatido – e punido. Mas, creio eu, não se alcança sucesso silenciando o diferente. Fazer isso, a meu ver, é repetir os erros que levamos séculos para banir. É o mesmo que condenar à fogueira o que vê deus de uma maneira diferente da visão dominante.
Calar o outro – por mais que esse outro tenha ideias que nos desagradem – não faz desaparecer o problema. Em alguns casos pode alimentar uma bomba que poderá explodir a qualquer momento, causando imenso estrago…
Deverá haver limites? Acredito ser perigoso cair neste mérito. Será, sim, preciso usar de bom senso, mas que isso não signifique o emudecimento dos contrários.
Que o silêncio venha da reflexão, não da imposição de alguns.