Estamira

Assisti ao documentário Estamira na noite de sábado (30/07/2011) e a questão que surgiu depois foi como pessoas como ela permanecem no mais completo “silêncio”. Eu defendi que ela teve uma grande sacada. Mas ouvi que não, já que ela mesma havia dito que gostava de ajudar mas nunca “fez nada”, isto é, nunca foi atrás de alguém que a ouvisse, ou pudesse escrever suas ideias.
Como afirmar isso, vendo que os que a cercavam, em sua maioria, a tinha como louca? Que credibilidade tem um cidadão como ela?
Por mais útil, por mais certo, por mais profundo, sábio, incrível, significativo que seja o que se tem a dizer, quem pára, realmente, e ouve o que as estamiras têm a dizer? Quem são os moradores de barracos, os catadores de “lixo”, os mendigos?
Nós não nos interessamos por eles; queremos que permaneçam escondidos, invisíveis, em absoluto silêncio.
É preciso ter credenciais para falar, para ser ouvido. E as credenciais são muitas: diplomas, terno e gravata, imagem pública “positiva”, dinheiro. Principalmente dinheiro.
Sem estas credenciais você não tem o direito de reivindicar seu espaço para falar e ser, efetivamente, ouvido.
Você pode falar e muitos o fazem, mesmo sem as credenciais. Mas quantos são ouvidos? Quantos são ouvidos e compreendidos? Quantos são ouvidos e levados a sério?
A Estamira conseguiu ser ouvida. Mas quantos a compreenderam? Quantos questionaram a vida e suas “verdades” depois do documentário? Quantos não a viram somente como louca? Quantos, enfim, querem saber da “verdade”? São muitas as perguntas, creio eu, mas poucas as respostas.
Num mundo onde falar deveria ser, no mínimo, facilitado graças ao avanço da tecnologia e do acesso aos inúmeros meios de comunicação hoje existentes, temos mais exclusão. “Quem é você na ordem do dia?”. Se seu nome não diz nada no google, suas “credenciais” não são válidas.
Neste mundo onde deveríamos, pelo menos, poder falar, muitos de nós ouvem apenas uma ordem: permaneça em silêncio.
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Minha Sampa

Eu acredito que a gente passa boa parte da vida procurando um lugar que seja nosso, um lugar onde pareçamos estar inteiros. Pelo menos é a impressão que tenho.
Sempre ouço as pessoas dizerem algo como “nada como a casa da gente” ou “nada como um feriado no campo” ou ainda “nada como um fim de semana no litoral”. Ou seja, essa busca por um lugar onde as nossas energias são renovadas, onde, quem sabe, a esperança ressurja. Algumas pessoas voltam completamente energizadas das montanhas, outras do litoral, outras do campo e outras ainda de um bar, uma biblioteca, da casa dos pais. Eu renovo as minhas energias em São Paulo.
Nasci naquela cidade que para mim é linda, completa. Saí de lá há muitos anos, quando ainda não podia fazer minhas opções, e nunca mais voltei. Já larguei tudo muitas vezes, mas ainda não larguei tudo para voltar para casa e confesso que não sei bem o porquê. Às vezes penso que pode ser pelo medo de ver minha terra encantada se dissolver frente à dureza da vida, das almas cansadas, das lágrimas, das dores. De longe, tudo é lindo e perfeito. Por pouco tempo é minha terra prometida. E tenho, sim, medo de acabar com tudo isso.
Por outro lado, a sensação única que me toma o corpo toda a vez que estou chegando lá… É algo tão mágico que tenho medo de nunca mais sentir. Não há nada que possa substituir esse sentimento, nem há palavras para explicar o que sinto. E o que vem quando preciso voltar é a dor. A dor de separar-me de minha mãe-terra.
Como em breve estarei levando minhas baterias para recarregar, não pude deixar de expressar o maior amor por aquela que desperta tantos sentimentos controversos nas pessoas: a minha cidade, a minha terra da garoa, a minha casa, minha Sampa.

Abstinência

Há alguns dias sem livros, minha cabeça começa a não funcionar mais direito.

Tenho as revistas que assino, os sites, as redes de relacionamento, as páginas de notícias e os de livros online, enfim, uma série de opções, mas meu cérebro não aceita esses “genéricos”. Para ele, concebido e aprimorado através dos métodos tradicionais (risos) a coisa só faz sentido através do bom e velho livro. Quando eu pego um livro, não importa do que se trata, eu sinto a história dele, sinto a vida que pulsa nele e através dele. O computador não tem essas coisas, é artificial demais, frio demais. Você não desliga um livro, você o fecha e o deixa de lado, e ele fica ali, olhando você, te encarando até que te vence e você volta à leitura. O computador obedece fria e secamente ao comando de desligar.
As minhas ideias continuam aqui, brotam feito as pragas do jardim, sem necessitar de qualquer cuidado, mas elas parecem frágeis, meu corpo parece frágil, minha inspiração… É como se sem os livros o imenso universo que existe para mim se tornasse menos real, envolto na névoa, fugindo de mim a uma velocidade que não posso acompanhar.
Essa sensação deve ser como a de não pensar mais, só que de maneira angustiante. É quase como sentir falta de ar. Os livros são alimentos para mim. E essa fase de abstinência é sofrida, é doída, é triste.
Mas é uma das poucas formas de me forçar a encarar as coisas que não estão escritas numa folha de papel e tentar me interessar por elas. Se sairei da experiência com a sanidade intacta ainda é um mistério, mas estou quase descobrindo o significado de “paciência de Jó”, e isso já deve ser bom.

Manchas

Aquilo que calo também me mata. O que falo também magoa.

Das palavras que mancham o papel, poucas expressam o que sinto. E o que sinto, não sei se posso dizer.
De cada silêncio aprendo um pouco da alma, da minha alma, da alma dos outros.
De cada olhar fixo o momento. O momento em que vi algo que não foi, e nem será dito. De cada lágrima vertida retiro o segredo, o segredo das palavras que se perdem no vento, que perdem no coração.
De cada página compreendo a história. Histórias que não cabem em livros. Histórias sem fim, histórias alegres e dolorosas, mas que papel algum poderá guardar, que lápis algum saberá transcrever, que boca alguma poderá falar, que ouvido algum compreenderá, que poucas almas saberão.
Histórias que vejo no brilho de um olhar, no tremor de algumas mãos, nos lábios que calam, no vento que me traz sua voz ainda que ninguém mais possa sentir.
Palavras que são apenas manchas diante de tudo o que é possível viver. Manchas que jamais serão apagadas, pois que estão gravadas onde ninguém jamais conseguirá chegar: no fundo de uma alma cansada de verter lágrimas e palavras que poucos querem compreender.

Sem saber

Ela estava lá. Parada. O olhar meio perdido. Balançou a cabeça e resolveu sair. Sim, precisava se livrar daquele pensamento.
Nas ruas movimentadas, tentou se concentrar nas vitrines, nas pessoas, nos carros.
Aquele barulho todo também não estava ajudando.
Onde haveria paz? Onde haveria o silêncio de que tanto precisava?
Andava, andava. Sentou-se num bar.
Colocou a cabeça entre as mãos e resolveu acender um cigarro.
Isso sempre ajudava. Sozinha no bar pediu uma música e foi atendida. Sorriu. Ainda havia lugares que podia frequentar.
Intolerante. Seria essa a palavra?
Nos últimos dias sua capacidade de concentração foi terrivelmente abalada, e não sabia o quê exatamente havia provocado aquilo. Mas podia, sim, listar alguns agravantes.
Tomou sua bebida e levantou-se. Acompanhou a multidão.
Sem perceber conseguira silenciar o pensamento, e já nem ao menos sabia do que se tratava. Agora seguiria o caminho junto com os outros, não importando para onde estavam indo.