Dançar para sempre

Já passa da meia noite e não sei mais quantas vezes ouvi “Por una cabeza” de Carlos Gardel. Em todas elas me imagino dançando. Levemente pelo salão, que neste momento se reduz ao meu quarto.
Algumas vezes me levanto e ensaio os passos. Outras apenas me pego mexendo os pés, os braços…
Existem muitas pessoas que creem piamente que, quem canta os males espanta. Eu acredito que os males se vão quando danço. Até porque não fui dotada do talento de cantar… Do meu jeito “sem jeito”, danço em qualquer espaço e esqueço as mazelas da vida. Esqueço que nem sei dançar. A música me leva como um bom condutor de tango faz. Deslizo suavemente pelo mundo imaginário à meia luz, com um sorriso discreto nos lábios e a plena satisfação tomando conta de todo o meu corpo.
Cheguei a fazer dança do ventre por seis meses. E recordo-me como todos os meus problemas desapareciam misteriosamente quando a primeira música iniciava.
Como a universidade tinha saído de uma greve de seis meses, algumas aulas tiveram que ser repostas aos sábados, dia em que meus problemas iam embora ao ritmo de meus quadris. Embora as aulas de dança tenham sido abandonadas o ritmo permanceu em minha alma e não consigo controlar o corpo ao som de uma música, seja ela qual for.
Nos últimos dias estive na casa de “minha família chilena” e me ensinaram uma dança tradicional de seu país: “la cueca”. Claramente uma aprendiz, não posso mais evitar que minha mão se erga com um um lenço imaginário e que meus pés sigam o ritmo da música…
Certa vez , durante uma prática de meditação, fui “transportada” aos salões de um antigo palácio, dancei tanto que já não me aguentava mais. Foi a melhor meditação de todos os tempos.
Quando morava sozinha, aos sábados em que estava disposta a limpar a casa, agarrava a vassoura e saia “varrendo” com meus passos apaixonados e sonhadores.
Não me dou muito com apresentações pessoais desses dotes cômicos que recebi em grande quantidade antes de vir à terra cumprir minha missão de entreter os mais desanimados, mas abro algumas exceções aos amigos mais próximos, e como tenho facilidade em gravar as músicas na minha cabeça, termino os passos únicos junto com a música, e depois, caso estejam morrendo de rir, solicito aplausos que começam por mim mesma. Agradeço até mesmo quando danço só para a vassoura…
O fato é que dançar é uma dádiva e acredito que todos deveriam experimentar isso. A qualquer hora, com qualquer música.
E claro, como no meu caso estou ouvindo Gardel há cerca de uma hora (a mesma música), não gostaria de deixar passar em branco que tango é uma paixão. Um dia desses ainda me inscrevo numa aula de danças só para poder parar de imaginar meus passos corretos e poder fazê-los, seja com a vassoura, com um de meus gatos preguiçosos ou com algum corajoso que não tenha medo de levar uns pisões nos pés. Afinal, é sempre assim o começo… Mas desde já, me sinto conformada com a vassoura, que não reclama, concorda com minhas inovações e certamente agradece por sair de uma rotina tão chata de varrer, varrer e varrer sem nenhum propósito – se bem que ela também a seu modo está na sua dança.
Um pedido? Que eu nunca pare de dançar. Na vida, nos sonhos, no quarto, num salão. E óbvio, que Gardel não se canse tão logo desse tango, em que até meus dedos flutuam sobre o teclado…
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