A arte de viver em mundos paralelos

Eu ainda era bem pequena quando descobri que era possível inventar mundos diferentes para viver.

Lembro-me de passar horas e horas em meu quarto inventando uma vida que eu achava mais legal que a minha vida real. Já fui atriz, cantora, bailarina, veterinária, advogada, escritora de sucesso, hippie artesã, médica e dona de casa.

As possibilidades surgiam a cada livro novo, a cada série de TV, novela ou qualquer coisa que eu encontrasse no caminho.278405_Papel-de-Parede-O-Mundo-Esta-em-Nossas-Maos_1920x1200

De certa forma foi uma maneira que encontrei de desviar de tudo o que me deixava triste, de tudo o que me fazia chorar, de todas as coisas com que eu não concordava ou não conseguia lidar. Pode ter sido a melhor maneira de fugir que encontrei.

No entanto, essa maneira de encarar e criar meus mundos me auxiliou a superar fases muito difíceis, como a adolescência e as perdas do caminho. Foi, portanto, uma forma de manter minha sanidade, de me levar adiante.

Agora, na vida adulta, essa habilidade ainda me persegue e a utilizo para evitar qualquer tipo de situação que me aborreça, enerve ou derrube meu astral. Continua sendo minha preferida rota de fuga. Minha maneira de gastar energias e me manter a salvo.

Com as redes sociais aprendi a viver num mundo virtual – quase parecido com os que crio – mas muito mais tenso. Muitas vezes é insuportável.

A maioria das pessoas quer parecer sempre imensamente feliz e de bem com a vida. E, mais que isso, quer que todos sigam essas mesmas normas: baladas, roupas novas, maquiagem e um rosto sorridente.

Certa vez postei que estava muito triste e infeliz. Foi há alguns anos. E (excluindo os debates e conversas na Gatidade) nunca uma postagem minha teve tantos comentários. Todas mensagens negando a infelicidade, dizendo que eu não podia ficar assim etc. Qual a dificuldade que criamos para aceitar o lado ruim da vida? Por que não queremos mais ver a dor, a tristeza, a solidão? Por que se desenvolve uma ideia de que todos precisam ser sociáveis, felizes e alegres? (Eu, uma rabugenta incurável, me sinto ainda mais perdida nesse mundo…)

Mas no mundo virtual da rede mundial, percebi também que muitos querem doutrinar os demais. Comida, política, músicas, estilo de vida. Todo mundo tem sempre a melhor opção. A postagem é quase uma mensagem de “sigam-me os bons”. E muitas vezes as discordâncias e maneiras diversas de ver a mesma coisa gera discussões intermináveis, desgastantes e deprimentes.

Será que perdemos ou estamos perdendo a capacidade de relevar? De aceitar as coisas como elas são? De entender que o outro pensa diferente? Que o outro É diferente?

Venho me afastando desse tipo de situação. Quero para meus dias a tranquilidade, o sossego e a sensação de leveza. Não quero discussões inúteis. Não quero gastar um tempo que poderia gerar novas amizades e parcerias, brigando ou tentando me explicar. Quero dar risada, quero ajudar de alguma forma. E não me distanciar ainda mais do que e de quem gosto.

Assim, quando me perguntam porque minha página tem tantas postagens sobre gatos (e outros animais, em menor número), a resposta não é porque a página é minha e eu posto o que quiser – embora haja uma parcela enorme de verdade aqui, de forma bem direta. Mas, mais que isso, é porque eu me cansei de brigar, de dar murro em ponta de faca e de lidar com a intolerância, com a falta de humor, de esperança, de visão. Tudo é tão chato que só me resta, na maior parte das vezes, retornar ao que aprendi desde cedo a fazer: criar meus inúmeros mundos e histórias. Mundos onde ouvir, falar, respeitar, gargalhar até chorar ainda são regras válidas.

E para todas as outras situações, sempre haverá um gatinho fofo virando meme.

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