Romance das Ciências

Eu nunca pensei em fazer ciências sociais.

Nem ao menos soube o que era até completar 18 ou19 anos, já não me recordo bem. Mas antes de conhecê-las tomei ciência do que era a antropologia, por acaso, num programa da Discovery Channel sobre uns antropólogos estudando um grupo africano e seus ritos de passagem. Foi amor à primeira vista. Decidi que faria esse curso.

Comprei uma edição do guia do Estudante e descobri que havia poucos cursos de antropologia no país, no entanto, as ciências sociais eram uma excelente opção. E havia um curso fresquinho, sendo inaugurado na UEM – Universidade Estadual de Maringá – há cerca de 150 km de onde eu morava na época.

“Vou fazer vestibular para ciências sociais”, decidi, então.

E assim em 2001 iniciei o curso que mudaria – intelectualmente – a minha vida. E isso sem exagerar.

Logo de cara descobri o que eram as tais ciências, e como elas poderiam ser chatas e cansativas, mas como podiam também me fazer pensar de maneira diferente, de maneira nova, tudo o que eu já havia pensado e visto e como poderiam – e de fato fizeram – me apresentar coisas novas, inéditas para mim. Filmes, desenhos, notícias. Tudo poderia ser visto de ângulos diferentes daqueles aos quais estava acostumada. E falando assim, parece que estou romanceando a coisa, mas de fato, recebi tudo aquilo de braços e coração e, principalmente, mente abertos.

Economia, política, religião, família, cultura. Tudo o que ou parecia chato demais para ser debatido ou próprio demais para ser questionado, pareceu ser interessante e intrigante demais para ser deixado de lado. E assim, tornei-me uma cientista social em 2004 (ou pelo menos é o que diz o meu Diploma). Amando profundamente estas ciências – política, sociologia e antropologia – que dialogam comigo, que questionam meus pré-conceitos – porque não há fórmula mágica que nos faça esquecer tudo e começar do zero – que, enfim, abrem meus olhos para as mais diversas manifestações humanas.

Olho minha família de maneira diversa daquela à que estava acostumada, e no início isso dói bastante. Mas encontrei também respostas para dilemas que sempre me torturaram. “Uma mulher precisa casar e ser mãe.” Talvez tenha sido (e ainda é) a coisa que mais ouvi em casa. E o que as ciências sociais me ensinaram a respeito? Que não. Essa não é uma verdade absoluta, mas uma construção social, cultural. E que sim, você pode fugir disso, mas sofrerá com algo chamado coerção social.

Mas você sobrevive.

Sobrevive porque a mesma sociedade que te dá as regras te ensina como burlar essas mesmas regras. E você acaba achando graça nisso tudo.

Política, religião e futebol, as coisas que aprendemos que “não se discutem” viraram temas constantes nas conversas em família e me tornei a chata de plantão. Com muito orgulho.

Não vivo das ciências sociais. Elas, aliás, não me renderam um único centavo nestes 11 anos. Mas me proporcionaram algo que considero muito mais importante: condições de pensar o mundo, e, em especial o mundo em que eu vivo, mas também condições de pensar sobre quem sou, quem somos e porque somos.

Penso em continuar meus estudos, porque realmente amo o que aprendi e aprendo, mas ainda preciso pagar minhas contas e não decidi se quero dar aulas, o que de certa forma inviabiliza um ganho financeiro em curto prazo na minha área.

Se há arrependimento? De meu ponto de vista não. Porque não me arrependo de ter aprendido muito mais do que um dia imaginei, e por saber que as portas e janelas deste conhecimento, estão e estarão sempre abertas.

 

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