2015. ADEUS!

2015 foi um ano tenso. E pelo que vi, não apenas pra mim.

Mas 2015 foi daqueles que chegou de mansinho e enganou muita gente.

Pra mim, foi assim: o ano começou mansinho, com promessa de muita coisa boa.

Embora eu tenha que ter repensado minha estratégia de ação no mestrado, acho que foi uma coisa boa. Me forçou a ler coisas novas, reler textos esquecidos e depois pensar antropologicamente de verdade. Que nem gente grande.

Depois, vi com brilho nos olhos o movimento dos caminhoneiros e dos professores.

E aí, com lágrimas nos olhos, realizei um sonho: vi Ozzy Osbourne. Fui ao Monster of Rock em São Paulo, minha terrinha, pra ver um grande amor. E foi lindo.

Então, no mesmo abril do sonho, o pesadelo: o governador do Paraná manda a polícia atacar os professores. Meus professores. Nossos professores. Era 29 de abril. O dia que não esqueceremos.

O tempo corria e eu ia tentando dar conta da gataiada, do mestrado, do trabalho.

Aí Boris ficou doente. Muito doente. A previsão era a pior. Ele não vai resistir. Com falência de um rim, na idade dele, a situação era crítica. O que pude fazer para salvá-lo eu fiz. E assim começava mais uma catástrofe de 2015:  dívidas.

Fiz empréstimo pra pagar veterinário, remédios, comida especial. Tudo pelo Biscoito. E deu certo – ou meio certo a depender do ponto de vista. O que importava é que ele estava voltando pra casa são e salvo.

No trabalho, o caos. Caos pra ser positiva. Comecei a adoecer. Depressão, dores, choro, stress a nível de ir parar no hospital.

No mestrado a loucura. Não conseguia tirar as ideias da cabeça e colocá-las no papel. Sentia o fracasso se aproximar.

Então Joaquim adoeceu. Meu verdinho. Corre-corre, renegocia empréstimo. Salvo. Joaquim se supera e volta a brilhar verdemente pela casa.

Aí, parecendo uma brincadeira de mal gosto, Pandora fica doente. Muito doente. Cirurgia, internamento, comida especial, alteração nos pratos da casa pra que ficassem elevados. Pandora tem megaesôfago que, por acaso, é raro em gatos. Mas nós ganhamos esse presente.

E enquanto minha casa parecia desabar o mundo mostrava que andava no mesmo ritmo.

Ataques terroristas pelo mundo todo. Vieram de tudo que é lado. Ataques de ódio. Intolerância, desrespeito.

Parecia, às vezes, a historinha do menino dono da bola: se a bola é minha brinca quem eu quero do jeito que eu quero. O retrato da política. Simples assim.

Simples, triste, doloroso, asqueroso. Devem faltar palavras pra descrever.

No meio de toda essa bagunça descobri pessoas mágicas. É, magicas mesmo. Elas não usam roupas esquisitas, nem chapéu pontudo, nem dançam peladas na floresta. E se fizerem tudo isso, ok, também. Porque essas pessoas são pessoas que fizeram meu ano ter um lado bom.

Foram pessoas, que em sua maioria, nunca vi na vida, mas que me estenderam a mão, ofereceram o ombro o colo e o tempo delas. Ofereceram tudo o que podiam oferecer e me deixaram sem saber o que pensar, como agir ou o que dizer. Um simples – mas verdadeiro – obrigada parecia – e parece – pouco demais.

Aí, o ano se aproxima do fim. VAI ACABAR, vai acabar!!

Mas minha mãe sempre diz: não conte com o ovo no fiofó da galinha. É… ela tem razão. De novo.

Aí Boris adoeceu. Outra vez. No natal. Sério. Onde você leva um gato doente, nefropata, numa cidade que pensa que é grande mas age como sítio – respeitando o sítio, mas o sítio sabe que é sítio, não fica posando de fazenda por ai – ? A veterinária dele não estava. Então corri pra uma clínica desconhecida perto da minha casa. Antes tivesse tapado os ouvidos e deixado meu pelúcio em casa.

Ele ficou internado três dias. Voltou pra casa e no dia seguinte ficou ruim de novo. Pior que no início.

Blá, blá, blá. Já repeti mil vezes a minha sina. Minha e do Boris. Mas principalmente dele. Porque minha dor é emocional, a dele física.

Voltou a ser internado. Dessa vez com a recomendação da veterinária dele, em quem confio. Foi para um hospital onde poderão cuidar dele de verdade, com respeito e carinho. E vai passar a virada do ano lá, ligado a máquinas, longe da família dele.

Então, 2015 termina logo mais e pra mim já vai tarde. Foi o ano que resumo com uma simples palavra: MEDO.

Por tudo isso, não sentirei saudades.

Ah, e lembra aquelas pessoas mágicas que surgiram na minha vida? Pois é. Elas continuam aqui. E continuam me ajudando. E eu continuo sem saber como agradecê-las. Foram elas que salvaram 2015.

Pra 2016? Não sei ainda. Mas espero que ele seja realmente muito melhor. E cheio de saúde.

Até mais!

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A quarta noite

A primeira noite foi toda em claro. Se dormi quarenta minutos, foi muito.

Ao deitar, perto da meia noite, percebi meu bebê agitado e fazendo coisas que não tem o hábito de fazer. Motivo pra preocupação. Estado de alerta máximo. Estava certa. Ele não tava bem.

Passei a noite massageando o pelúcio, medindo temperatura, levando na caixinha de areia.

No dia seguinte ele foi internado para tomar soro.

Na segunda noite, já com Boris em casa, acordava a cada miado diferente, a cada mordidinha em minha mão que tinha o propósito de avisar que algo continuava ruim.

Medicamento, massagem, conversa, carinho. Umas três horas de sono. Tava no lucro, já.

O dia foi longo. Véspera de Natal, tudo fechado, tudo fechando.

Ninguém devia ficar doente nesses dias. E, pra ser sincera, em nenhum outro dia do ano. Mas em feriados o coração fica na mão. O que fazer? A quem recorrer? Como? Pra surtar é um passinho só.

A terceira noite foi difícil. A falta de sono, de reflexos, de domínio sobre o corpo. O esquecimento virou algo absolutamente normal: levanto para pegar comida, dois passos depois “por que me levantei?”. Mas vou seguindo.

O bacana é que Boris tem essa coisa especial de me avisar o que há de errado. Deitamos pra dormir normalmente. Meu cansaço era visível. E no dia seguinte ainda teríamos visitas. Mas ele precisava me alertar.

Às duas horas da manhã ele me acordou. Miou, mordeu de leve minha mão. Acendi a luz. Ele correu para a caixa de areia. Fez força. Nada. NADA. Mais força e nada. Olhou para mim: “viu, mamãe? Não sai nada”. Aquilo dói. Nele, fisicamente. Em mim, tanto que posso dizer que o corpo sente juntamente com a alma.

Mais horas de massagens, colo, água na mamadeira, patê na seringa. Das 5:40h às 6:30h consegui dormir com ele a meu lado. Sabíamos que o caminho era o veterinário.

Visitas vieram e se foram. E corri para a clínica. Meu filhote ficou internado. Cálculos na bexiga. Intestino preso. Um pouco de gordura no fígado. Mas o que pode ser feito, o foi.

Vim para casa sem ele nos braços. E sem o coração no peito.

Deixá-lo pra trás é uma das coisas mais horríveis do mundo. A cabeça não descansa mais. O corpo reage com dores por todas as partes. Tento dormir e não consigo. Invento outras coisas para fazer. Faço de qualquer jeito, não consigo me concentrar nem nada.

Já de noite, bem tarde, tomo um banho quente, tomo um chá com um relaxante. PRECISO dormir. Sei que meu bebê está sendo cuidado.

O sono demora a vir. Mas vem.

E a quarta noite começa com um musical. Musical nervoso, afiado (e por que não, afinado?). Um musical pelos 4 cantos da casa. Era o outro filho fazendo serenata. Joaquim miando descompassado. Pego no colo, fica em silêncio. Até me lambe. Deita quietinho e chega a ronronar, coisa rara nesse gato verde.

Dois segundos depois, miação de novo. Chama os outros pra brincar, derrubam coisas, correm e Joaquim mia mais.

Foram muitas mais horas de sono, é verdade, mas um sono picadinho.

E agora? Cansada, com um sono anormal. A meu lado os pelúcios dormem. Joaquim especialmente. O danado chega a suspirar. De certo imaginou que passar madrugadas em claro era minha nova distração.

E já são quatro noites. Achei que só seria capaz de sobreviver a isso na juventude. Mas eis-me aqui. Sentada, sem conseguir dormir, olhando os meus filhotes relaxados e esperando que Boris volte logo pra casa e tenhamos todos uma bela e merecida noite de soninho reparador.

Gratidão

Este talvez seja um texto longo. Se estiver com pressa, aconselho que não o leia. Mas aviso, pra agradecer não se pode ter pressa.

E é sobre agradecimento que este texto vai falar.

2015 foi um ano difícil. Em duas ocasiões distintas achei que perderia meus amores Boris e Pandora. Ambos ficaram muito doentes e senti a presença do adeus. O medo de não ter mais meus peludos andando pela casa, destruindo as coisas, pedindo carinho me deixou em pedaços.

Em 2015, também Joaquim adoeceu. Não tão gravemente, mas ainda assim, o suficiente para me deixar maluca.

Jorge, emagreceu horrores, sem que houvesse algum motivo.

Para uma gateira apaixonada, mãe de seis lindos felinos, isso é o bastante para enlouquecer, afundar em tristeza e não ver beleza nenhuma no mundo. Toda a beleza que eu desejava se resumia à saúde de meus filhotes.

Também havia o trabalho e o mestrado. Ambos me enlouquecendo por motivos diferentes. Parece que tudo aconteceu de uma vez só. Parecia que tudo vinha de uma vez e com toda força.

No tratamento de meus filhos fiz o que pude, parcelei milhões de coisas, peguei todo o empréstimo que me foi possível, estourei o cartão de crédito. Roupas? Nem olhava. Comida? Só o essencial. Confesso que fico cega nessas horas. O que eu puder fazer, faço. E mesmo quando racionalmente parece algo que não posso, faço também.

Mas aí, como era inevitável, as fontes foram secando. Não havia mais de onde tirar para manutenção dos medicamentos do Boris e alimentação especial da Pandora. Ele, paciente renal, ela com megaesôfago – condição rara em felinos.

Boris toma um medicamento três vezes ao dia. É tranquilo. Ele já acostumou e embora faça cara feia e fuja de mim às vezes, é fácil medicá-lo.

Já Pandora é um caso mais delicado. A primeira providência foi elevar os pratos da casa, para que a gravidade a ajude a empurrar a comida para o estômago, coisa que ela já não consegue mais fazer sozinha. Ela tem se recusado a comer a ração seca e para que não entrasse novamente em lipidose hepática e nem morresse de fome era preciso alimentá-la com um patê especial. E caro.

No começo ela era alimentada várias vezes por dia, mas chegou uma hora em que precisei racionar a comida dela. Diminuindo a quantidade e as vezes em que dava patê para ela, fazia com que uma latinha durasse mais e, embora pareça absurdo, podia alimentá-la por mais tempo.

E fora isso, havia a dívida na clínica veterinária. O medo era de que os meus bebês precisassem novamente de cuidados e internamento. O desespero batia à porta.

Então algumas amigas sugeriram: “por que você não faz uma rifa?”

Excelente ideia, mas rifar o quê?

Por mais que que eu pensasse não conseguia imaginar algo. Minhas coisas são velhas, usadas. Não tenho talento algum para fazer bonecos, casinhas ou coisas bonitas. E então?

Bem, então a mãe de uma amiga, sabendo da história se ofereceu para doar uma cafeteira que eu poderia rifar. E assim foi feito.

Com ajuda de amigas, montei uma rifa online. A ajuda chegou imediatamente! Mal havia postado a rifa e muitos números foram vendidos. E mais! Houve doações. Pessoas que não quiseram comprar a rifa, só ajudar. E mais ainda. Pessoas que não podiam ajudar comprando a rifa mas que compartilharam muito a rifa da Pandora para que mais pessoas a vissem e ajudassem. Foi incrível!

Algumas vezes me peguei chorando na frente do computador com as inúmeras mensagens de carinho, apoio, ideias enfim, um monte de gente, a maioria que nunca vi pessoalmente, ajudando.

Lembro-me de ter, dias antes, dito que a fé na humanidade havia acabado. Que só se via horror e ódio. E a rifa da Pandora veio pra dar uma sacudida nisso.

A ajuda veio de todo canto: gente do sul, sudeste, norte, nordeste, centro oeste. Dá pra acreditar numa coisa assim? Gente do país todo ajudando uma louca que tem uns gatinhos velhos e dodóis? Pois é. Chega a arrepiar e a novamente me deixar com os olhos cheios de lágrimas. São coisas assim que nos fazem pensar, por os pés no chão, deixar a cabeça nas nuvens e o coração cheio.

Nunca imaginei passar por uma situação assim. Sempre que via as rifas de ajuda na internet, pensava em como devia ser dura a situação da pessoa. Toda vez que pude, ajudei. E agora, quando foi minha vez de precisar, muitos me ajudaram.

As palavras de apoio, de carinho. O tempo lendo sobre o que havia acontecido. As pessoas que queriam saber como estava minha família felina. As pessoas que compartilharam o link da rifa. As pessoas que compraram a rifa. As pessoas que doaram. Não há palavras para agradecer, para explicar meu sentimento.

Nem se eu tivesse braços imensos, capazes de abraçar a todos, eu daria conta de demonstrar toda a minha gratidão a essas pessoas.

Nem que eu soubesse todas as palavras de todas as línguas do mundo eu seria capaz de dizer o quanto essas pessoas foram e são importantes para nós.

Quero sim, agradecer de coração, de todo meu coração, tudo o que fizeram. Todo o carinho, preces, tudo mesmo. Mas sei que me faltam meios para isso.

De toda forma, registro que para cada uma dessas pessoas, destinei um pedacinho do meu coração. Que cada vez que vejo Pandora e Boris por aqui, andando pela casa, vivos, eu lembro de cada um que me acolheu. Cada vez que brigo com Joaquim por ser malvado, que converso com Jorge para que ele coma mais, eu devo isso a vocês.

Cada vez que Otávio Cototo e José Emílio derrubam tudo por aqui, é graças a cada novo amigo que, de alguma maneira, ajudou minha família a se manter completa. E isso, de verdade, não há como pagar.

Esse texto era só para isso: expressar de alguma maneira possível, toda a gratidão que sinto. Para dizer que sim, é possível acreditar num mundo melhor. Porque apesar de todo o horror e ódio que vemos, há muito mais amor, carinho, respeito, amizade, compaixão e fé por ai.