Viagens de Uber

Não faz muito tempo peguei meu primeiro Uber. Não sabia o que fazer, pedi ajuda pras meninas do trabalho. Ok.

A missão era levar o Boris pra fazer exames. Chega o carro, um tiozinho gente boa, que não era de Maringá e que, pelo visto, não estava muito adaptado aos aplicativos de localização e pegou uma cliente totalmente sem noção de direção. Ele pediu indicação de como chegar ao laboratório e eu tentei ajudar. Nos perdemos.

 Bom, no fim deu tudo certo e rendeu uma ótima história.

Depois dessa viagem, outras foram feitas, com a finalidade de atender às necessidades de meus gatos: levar à veterinária, levar medicamento na hora do almoço pras minhas crias, enfim. O meu uber é sempre um CatUber. Quase sempre, na verdade. Já peguei um uber pra botecar com as amigas!

Aí hoje, lá vamos nós na missão de levar Boris e Jorge pra fazer exames.

Uma coisa que detesto é levar os pelúcios no laboratório. Não apenas pelo estresse deles, mas muito mais pelo meu. Quando eu faço meus exames nem ligo se vai aparecer alguma coisa, um sinal de que a morte se aproxima, uma doença grave. São coisas da vida. Quando o paciente é um de meus gatos, qualquer pelinho fora do lugar me faz entrar em colapso.

Chamei o Uber, mandei uma mensaginha avisando que estava carregando dois gatos numa caixa de transporte. Dois minutos, chega o carro.

Reparo sempre na placa porque não conheço modelos de carro. O moço estaciona. “Oi estou com dois gatos, tudo bem?” “Sim, pode entrar.” Epa, que sotaque era esse?

“O senhor é de onde?” “Sou do Haiti.” Pronto, fomos daqui até o laboratório no maior papo. Ele chegou há quatro anos em Maringá, com a esposa e duas filhas. Aqui nasceu a terceira menina. Estão todas nas escola e falam português muito bem.

Falou do seu país, de como português é difícil, mas também que ele só achava isso pois nas escolas dele só aprendiam francês, que em suas ruas falavam crioulo. E rimos. De fato, faz todo sentido, não é? Embora a comunicação fosse um pouco lenta, foi o melhor motorista de Uber que peguei até o momento. Tranquilo, divertido.

No fim da viagem ele perguntou se eu achei que ele era estrangeiro pela cor dele ou só depois que começou a falar. E respondi que era pelo idioma mesmo. Ele, enquanto separava o troco, falou do racismo e de como Maringá – mas não apenas Maringá – tem sérios problemas pra receber estrangeiros e negros.

Engraçado que dias atrás eu conversava com amigos sobre isso. Conheço poucas pessoas de fora que se sentiram “abraçadas” por esta cidade. Eu também, ao chegar, 16 anos atrás, percebi que a boa recepção morava só na teoria. Enfim. Falei pra ele que também não era daqui e que entendia o que ele sentia.

Os gatos fizeram seus exames e na volta, outro uber.

O tiozinho parecia uma personagem de filme, com um enorme bigode, muito bem cortado e penteado. “Tudo bem estar com os gatos?” “Ah sim.”

Não sei como avaliar os motoristas. O moço do Haiti recebeu 5 estrelas. O moço do bigode só quatro, pois embora tenha dirigido muito bem, ficou falando que não gostava de animais.

Cara, você está carregando uma maluca com dois gatos. Mantenha sua opinião pra você se não gosta de animais e gatos em especial. Ou melhor, fala que não vai carregar. Poupa o estresse de todo  mundo.

Os gatos na ida estavam bem quietinhos. E quando eles entram em carro eles ficam loucos. Mas na ida o moço até perguntou o nome deles, deu risada quando eu falei que eram meus filhos, perguntou se estavam bem já que iam ao laboratório e tal. Se ele gostava ou não de bichos não sei. Mas ele foi legal.

Na volta o senhor Mustache não parava de falar que animais não são de confiança, que não quer os netos perto de animai, que até ajuda a esposa a comprar comida pra cachorra dela, mas desde que ela, a cachorra, fique lá fora, nunca entre em casa, etc.

Disse que gato era um ser melindroso e que se você chuta um gato ele fica com raiva de você. “Se alguém chutasse o senhor, o senhor ficaria feliz? O animal é a mesma coisa.”

“Ah, mas se você chutar um cachorro ele não fica bravo e fica olhando com cara de coitado pra você.” “Por que alguém chutaria um animal?” “Eu não sei, talvez ele esteja desobedecendo”. “Bom, se alguém chutar um de meus gatos, eu mato. Só digo isso.” Silêncio.

Peguei o celular e senti como estava tensa. Não bastasse a ansiedade com os exames ainda tinha que ouvir aquelas asneiras. Os gatos só ficavam miando e se debatendo na caixinha. Com certeza eles estavam estressados pelas viagens e pelos exames, mas o fator “ambiente inóspito” deve ter sido o pior do dia.

De todas as viagens de Uber que fiz, a última foi de longe a pior. Com total certeza.

De tarde vamos fazer mais um passeio, mas desta vez com o Marcio. Ele eu sei que ama os pelúcios. Eles vão gritar dentro do carro, vão encher tudo de pelo e fazer malcriação. Mas só porque são livres pra fazer isso e não porque vão ouvir que são bichos melindrosos nos quais não se pode confiar.

Aliás eu disse antes de sair: “eu confio mais nos animais de em seres humanos.” Espero que tenha ficado claro.

 

 

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