Viagens de Uber

Não faz muito tempo peguei meu primeiro Uber. Não sabia o que fazer, pedi ajuda pras meninas do trabalho. Ok.

A missão era levar o Boris pra fazer exames. Chega o carro, um tiozinho gente boa, que não era de Maringá e que, pelo visto, não estava muito adaptado aos aplicativos de localização e pegou uma cliente totalmente sem noção de direção. Ele pediu indicação de como chegar ao laboratório e eu tentei ajudar. Nos perdemos.

 Bom, no fim deu tudo certo e rendeu uma ótima história.

Depois dessa viagem, outras foram feitas, com a finalidade de atender às necessidades de meus gatos: levar à veterinária, levar medicamento na hora do almoço pras minhas crias, enfim. O meu uber é sempre um CatUber. Quase sempre, na verdade. Já peguei um uber pra botecar com as amigas!

Aí hoje, lá vamos nós na missão de levar Boris e Jorge pra fazer exames.

Uma coisa que detesto é levar os pelúcios no laboratório. Não apenas pelo estresse deles, mas muito mais pelo meu. Quando eu faço meus exames nem ligo se vai aparecer alguma coisa, um sinal de que a morte se aproxima, uma doença grave. São coisas da vida. Quando o paciente é um de meus gatos, qualquer pelinho fora do lugar me faz entrar em colapso.

Chamei o Uber, mandei uma mensaginha avisando que estava carregando dois gatos numa caixa de transporte. Dois minutos, chega o carro.

Reparo sempre na placa porque não conheço modelos de carro. O moço estaciona. “Oi estou com dois gatos, tudo bem?” “Sim, pode entrar.” Epa, que sotaque era esse?

“O senhor é de onde?” “Sou do Haiti.” Pronto, fomos daqui até o laboratório no maior papo. Ele chegou há quatro anos em Maringá, com a esposa e duas filhas. Aqui nasceu a terceira menina. Estão todas nas escola e falam português muito bem.

Falou do seu país, de como português é difícil, mas também que ele só achava isso pois nas escolas dele só aprendiam francês, que em suas ruas falavam crioulo. E rimos. De fato, faz todo sentido, não é? Embora a comunicação fosse um pouco lenta, foi o melhor motorista de Uber que peguei até o momento. Tranquilo, divertido.

No fim da viagem ele perguntou se eu achei que ele era estrangeiro pela cor dele ou só depois que começou a falar. E respondi que era pelo idioma mesmo. Ele, enquanto separava o troco, falou do racismo e de como Maringá – mas não apenas Maringá – tem sérios problemas pra receber estrangeiros e negros.

Engraçado que dias atrás eu conversava com amigos sobre isso. Conheço poucas pessoas de fora que se sentiram “abraçadas” por esta cidade. Eu também, ao chegar, 16 anos atrás, percebi que a boa recepção morava só na teoria. Enfim. Falei pra ele que também não era daqui e que entendia o que ele sentia.

Os gatos fizeram seus exames e na volta, outro uber.

O tiozinho parecia uma personagem de filme, com um enorme bigode, muito bem cortado e penteado. “Tudo bem estar com os gatos?” “Ah sim.”

Não sei como avaliar os motoristas. O moço do Haiti recebeu 5 estrelas. O moço do bigode só quatro, pois embora tenha dirigido muito bem, ficou falando que não gostava de animais.

Cara, você está carregando uma maluca com dois gatos. Mantenha sua opinião pra você se não gosta de animais e gatos em especial. Ou melhor, fala que não vai carregar. Poupa o estresse de todo  mundo.

Os gatos na ida estavam bem quietinhos. E quando eles entram em carro eles ficam loucos. Mas na ida o moço até perguntou o nome deles, deu risada quando eu falei que eram meus filhos, perguntou se estavam bem já que iam ao laboratório e tal. Se ele gostava ou não de bichos não sei. Mas ele foi legal.

Na volta o senhor Mustache não parava de falar que animais não são de confiança, que não quer os netos perto de animai, que até ajuda a esposa a comprar comida pra cachorra dela, mas desde que ela, a cachorra, fique lá fora, nunca entre em casa, etc.

Disse que gato era um ser melindroso e que se você chuta um gato ele fica com raiva de você. “Se alguém chutasse o senhor, o senhor ficaria feliz? O animal é a mesma coisa.”

“Ah, mas se você chutar um cachorro ele não fica bravo e fica olhando com cara de coitado pra você.” “Por que alguém chutaria um animal?” “Eu não sei, talvez ele esteja desobedecendo”. “Bom, se alguém chutar um de meus gatos, eu mato. Só digo isso.” Silêncio.

Peguei o celular e senti como estava tensa. Não bastasse a ansiedade com os exames ainda tinha que ouvir aquelas asneiras. Os gatos só ficavam miando e se debatendo na caixinha. Com certeza eles estavam estressados pelas viagens e pelos exames, mas o fator “ambiente inóspito” deve ter sido o pior do dia.

De todas as viagens de Uber que fiz, a última foi de longe a pior. Com total certeza.

De tarde vamos fazer mais um passeio, mas desta vez com o Marcio. Ele eu sei que ama os pelúcios. Eles vão gritar dentro do carro, vão encher tudo de pelo e fazer malcriação. Mas só porque são livres pra fazer isso e não porque vão ouvir que são bichos melindrosos nos quais não se pode confiar.

Aliás eu disse antes de sair: “eu confio mais nos animais de em seres humanos.” Espero que tenha ficado claro.

 

 

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Delicadeza

Eu sempre fui uma pessoa meio chorona. Culpo o meu ascendente, claro.  Aí, em alguns momentos da vida a coisa parece sair do controle e até uma pessoa descascando batata me arranca lágrimas.

Eu monto processos de aposentadoria e pensões há quase oito anos. É uma coisa mecânica, já vai meio no automático. Talvez a prática, a quantidade, o pouco tempo, as milhares de outras coisas que preciso fazer mais ou menos ao mesmo tempo sejam os culpados pela “frieza” que vai se instalando. Talvez seja só o meu signo mesmo.

Mas tem dias em que eu olho o valor final do benefício e os olhos enchem de lágrimas. Como uma pessoa que trabalhou a vida toda, que só se fodeu, se desgastou, perdeu os melhores anos da vida cumprindo horário em uma tarefa que em muitas e muitas vezes não gosta de fazer, pode chegar à velhice ganhando aquilo? Será que precisa pagar aluguel? Será que vai conseguir pagar as contas básicas do mês? E se ficar doente? E daí pra chorar de verdade é um pulo.

Dou uma passadinha no banheiro, lavo a cara, começo a ouvir um heavy metal no fone de ouvido, invento uma piada, qualquer coisa pra poder “não ver” essa realidade nojenta e não ficar chorando no trabalho. Ou depois do trabalho.

Na minha rua tem um “doidinho”. Ao longo do dia ele vai de um lado pro outro da rua muitas e muitas vezes. 

Quando me mudei pra cá ficava pensando no que será que ele tinha que o fazia andar tanto, aparentemente, sem nenhum motivo.

Quando ele passa às vezes falo bom dia, boa tarde, o que for, e entro.

Ele, de vez em quando, passa falando sozinho, alto, meio bravo, coisas que mal dá pra entender. Às vezes pede um cigarro pra quem tiver na rua.

Desde que o Selvagem se mudou pra minha calçada e parou de implicar com o moço “doidinho”, ele vem falando com o Selvs também. Passa aqui na frente, resmunga, repete as broncas que dou no Selvagem: “guarda esse brinquedo”, “vai pra casinha”, “não tira o pano da casinha”. Em algumas ocasiões espio pela janela só pra ver se o Selvs tá tacando o terror na calçada. Na maioria dos dias não tem nada, às vezes o Selvs nem tá ali. Mas o moço fica falando. Quase sempre não entendo o quê.

Uma coisa que sempre achei estranha é que o moço parece bem inofensivo, mas os vizinhos parecem ter medo dele. Eu, que tenho todo ser humano como uma ameça em potencial, não fico muito atrás.

Hoje era mais um dia em que eu estava tentando guardar o brinquedo do Selvagem, e era feita de tonta por ele, que agarra o brinquedo e sai correndo que nem louco. Uma amiga protetora passou na rua e começamos a conversar. Sobre animais, claro. Conversa vai, conversa vem, eis que o “doidinho” surge. Passou, eu falei oi, a moça se afastou um pouco.

Como sempre ele foi até a avenida, sabe-se lá pra que lado, o que fez, de repente ele reapareceu. Trazia na mão uma florzinha minúscula. Estendeu a mão pra mim e disse que tinha me trazido a florzinha. Que era pra eu plantar que ela ia virar uma “planta grande”. O resto não entendi direito.

A moça e eu ficamos em silencio, meio constrangidas, meio perdidas. O moço foi embora.

Fiquei com a florzinha na mão e foi só então que percebi que não via as pessoas falando com ele, ou não se afastando dele. Me deu vontade de chorar. Pela delicadeza do gesto dele, por trazer essa florzinha, pela solidão que de repente pareceu que ele sente.

Passado alguns minutos, tá lá o moço de novo. Escorou na grade do meu portão e começou a falar um monte de coisa que não entendi nada. A moça que estava comigo se despediu e foi embora. Selvagem entrou no meu quintal com o brinquedo na boca e deitou no chão. E o moço falou que o Selvs era de lua, pois às vezes ficava bonzinho, às vezes ficava bravo com ele. E eu com a florzinha na mão, sem entender muito o que ele falava, não sabia o que fazer e fiz o que sempre faço: falei “hmmmm”.

É, sou dessas que não sabe o que falar, nem como reagir e acha “eita” uma expressão divina. Interações sociais não são o meu forte.

O moço foi embora, Selvagem saiu e correu na calçada com o brinquedo e eu tranquei o portão. Com a florzinha na mão.

Não sou pessoa de flores. Acho bonito e só. E que ela fique  lá no canto dela. Entrei e joguei a florzinha no lixo. Voltei. Peguei a florzinha de novo e coloquei na prateleira da sala.

Não gosto de flores. Mas aquela ali parecia tão errado jogar fora que doeu. Doeu pela delicadeza do ato, pela simplicidade da coisa. Pela dureza com que temos que encarar a vida, pela máquina que querem que nos tornemos e pelo choro que nos obrigamos a engolir. A delicadeza, às vezes, nos faz lembrar dessas coisas…

 

 

A noite

A noite sempre me pareceu a melhor hora do dia. O silêncio, a tranquilidade, a temperatura que costuma baixar.  Muitas e muitas vezes nem percebo que a madrugada corre solta, pois me perco em meu mundo particular, lendo um livro, vendo um filme, conversando com os gatos e debatendo, com eles, os meus sonhos amalucados.

Mas a noite também é  o momento do medo, do coração disparado, dos suores, das incertezas, do choro descontrolado, da vontade louca de dormir e não conseguir.

Essa noite tensa tem sido minha realidade. Ela sempre se apresenta quando os pelúcios adoecem. E o Boris, no alto de seus 15 anos, tem demonstrado sua fragilidade.

Nos últimos dias tem sido um vai e vem enlouquecedor. Veterinária, laboratório, casa. E o coração na mão.

Boris tem uma característica incrível: toda vez que ele não está bem, ele me acorda. Me avisa. “Mamãe, tem algo estranho”. E assim, passamos as madrugadas atentos, um ao movimento do outro.

Observo sua respiração, sigo-o ao banheiro, ele me segue pela casa. Vejo temperatura, reações, coloração. Dou água na mamadeira, ofereço comida na boca.

Nas últimas duas madrugadas passamos horas assim. E o resultado, durante o dia, para mim, é sempre um desastre. Metade por não ter dormido o mínimo necessário, metade por estar dividida entre as obrigações tediosas da vida adulta e o que está acontecendo em casa.

Hoje, ao chegar em casa ofereci coisinhas que meu branquelo gosta: rúcula, danete. Algo que o fizesse sair do estado meio entorpecido em que ele se encontra. Depois,  medicado, Boris comeu um pouco. E então comeu meio descontrolado. E aí murchou novamente.

Eu sei que é de um egoísmo tremendo de minha parte esperar que ele fique pra sempre a meu lado. E fui obrigada a ter uma conversa séria com ele. A mesma que tive com a esposa dele, em junho, antes de ela partir.

“Eu te amo demais, meu filho, mais que tudo. Meu coração é você. Meu pensamento é você. Minha alma é você. Mas eu preciso que você saiba, que você entenda, que meu amor não permite que você sofra, que permaneça a meu lado sem forças. Faça o que você tiver que fazer pra ser feliz, mas em hipótese alguma se esqueça o quanto eu te amo.”

Lágrimas escorrem forte, ousadas, quentes e raivosas. Mas eu precisava falar isso em voz alta. Precisava que ele ouvisse, que soubesse.

A vet me disse: “haja naturalmente, como se tudo estivesse bem, pois eles percebem nossos sentimentos e isso influencia o comportamento deles”. Excelente lição. Eu mesma repito isso pras amigas em situações semelhantes. Funciona? Comigo, não.

Porque a cada respiração diferente, a cada olhar triste, a cada movimento diferente, meu coração aperta, dói. São 15 anos! São milhares de histórias. São viagens, são planos feitos, horas de brincadeira, cuidado. Não é assim: “fica calma”. Não! É desesperador.

E o Boris sempre foi um grude. Aquele gato que não se importa de estar fazendo 200 graus celsius. Ele quer ficar em cima de você, abraçado, o pelo grudado na pele suada. Ele não se importa. Ele olha com aqueles olhos azuis como a me dizer: “eu não ligo, você liga?” Não, eu não ligo. Ao contrário. Me habituei tanto a esse contato que, se por acaso, ele resolve fazer outra coisa na hora em que vou dormir, eu levanto e busco o danado pra deitar comigo, senão o sono não vem. Fora de casa, em viagens, rolo até cansar, pois me falta o mais importante: aquele corpo quente, aquelas patas a pressionar meu rosto, aquele ronco inconfundível.

Só que hoje ele não quis ficar comigo. Subiu na cama, deitou um pouco e se afastou. Ficou bem na beirada. Fiz que não tinha visto. Era pra agir “normalmente”, com calma, “como se não estivesse acontecendo nada”. Aí ele desceu da cama e foi pro escritório. Deitou num lugar em que não costuma deitar. Chorei.

Tirei-o de lá e levei-o pra cama. Observei a respiração, a temperatura. Ele deitou. Depois ficou bravo e me mordeu. Foi deitar no sofá do escritório, que virou seu ninho de preguiça nos últimos meses.

Pensei em ler. Mas pra ler é preciso ter um mínimo de concentração. Eu só consigo pensar no Biscoito. Decidi apagar a luz. Apaguei. Silêncio, escuridão. Mil histórias surgindo, o coração galopando enlouquecido, as lágrimas escorrendo. Melhor levantar. Andei, sentei, levantei, deitei. Nada.

“Boris, tá tudo bem?” Nada. Continua apático. O olhar cansado, abatido.

Cacete, o que eu faço? Tirá-lo de casa é sempre um parto. O stress que ele passa é pior pra condição dele. Mas e se de repente eu tiver deixando de fazer algo que seja crucial? Medo. Mais medo. Mais dor.

A cada linha, a cada tec tec do teclado, olho pra ele.Respira lentamente. Não ronca. Baba um pouco.Levanto, limpo sua boquinha, vejo a temperatura. Me critico, estou sufocando ele e ele vai ficar bravo. Isso é ruim. O que eu faço?

Cara, o Biscoito tem 15 anos. 15 Anos não é muito. É pouco. É quase nada. Temos muito o que fazer. Ele sabe? Quem foi que disse que eles precisam ficar assim? Tão fragilizados?

A noite avança. A temperatura parece subir. Suo terrivelmente. Sono? Se perdeu por aí. Ouço os cachorros na rua, as motos e carros que passam, portas de vizinhos que batem. Ouço coisas estranhas lá fora, devem ser as baratas. Nem ligo. Porque meu medo, hoje, é muito superior ao medo que tenho delas. Meu medo é mais profundo, é corrosivo.

A noite continua. É cedo ainda. E isso é o que aumenta o medo. Pois a qualquer momento posso perder meu tesouro mais precioso. Ou pode começar um novo dia em que me darei conta de como sou idiota e medrosa e mais um monte de outras coisas bestas.

Enquanto a noite chega, desejo com força que o dia novo comece e que eu possa rir de minha paranoia. E que lá no futuro, eu possa olhar pro Biscoito e falar pra ele: “lembra daquela noite em que a mamãe surtou? Você queria testar meu coração, né?” E ele retornará com aquele olhar lindo que sempre me chama a penteá-lo, ou a jogar a sacolinha pra ele.

E assim terminaremos a noite cansados de brincar. Abraçarei meu ursinho branco e dormiremos mais uma noite. À espera de um novo dia com mais histórias pra contar.

 

Dia de mãe

Eu tenho muitos e muitos e muitos estresses na vida: a pesquisa, o trabalho, as encomendas, o contato com pessoas etc etc etc. Mas nada NADA NADA Absolutamente NADA me deixa tão cega e burra e louca e tensa quanto um de meus bebês adoecerem. Se for o Boris, então, eu fico realmente louca!

Boris é o grudinho, o primogênito, o dono dessa serva aqui. E o mais legal é que se há algo errado ele me avisa. Assim, na madrugada de hoje ele me chamou pra avisar que estava vomitando. Acordei, cuidei dele e tal. Fui trabalhar já pronta pra agendar exames, consultas o que fosse preciso. O os veterinários do laboratório onde ele faz seus exames não vão atender amanhã, então tive que correr do trabalho.

Sim, sou dessas malucas que saem do trabalho pra cuidar dos filhos peludos. Eles são meus filhos. É minha obrigação cuidar deles.

Corre pra ca, corre pra lá, Boris fez seus exames. Eu já imaginava que a creatinina alta seria a responsável pelos vômitos. Ele também tem quase 15 anos. Qualquer mudança é uma loucura.

Mas o Boris estava bem estável nos últimos meses. E a mãe dele é bem paranóica. Se ele olha pro lado esquerdo quando deveria olhar pro direito eu entro em alerta!

Mas esse branquelinho delicioso é ultra sensível. E os últimos meses não foram os mais tranquilos pra ele. Ele perdeu membros da família, o Selvagem se mudou pra calçada, por conta de todas as outras coisas que me estressam na vida não posso dedicar tanto tempo a ele quanto nós dois gostaríamos. O dia é sempre curto demais.

Eu tento brincar, conversar, fazer as vontades (dentro do possível, já que ele tem sérias restrições alimentares), deixo ele ficar sujo já que o banho causa muito estresse… Ou seja, só pra repetir, sou uma escrava dos pelúcios daqui de casa. E do Boris, mais ainda.

Por fim, Boris está com alterações na ureia, na proteína nos rins e na creatinina, embora essa não seja tão terrível quanto já foi. Seu coraçãozinho também anda meio atrapalhado. Mas ele está bem, no quadro mais geral: 4,8 kg, pelagem boa, animado. Chegou da nossa jornada hoje e foi comer. Depois fez seu xixi pra grande alívio de meu coração.

Pois essa mãe aqui fica o tempo todo segurando o choro, barrando o enfarte, evitando tremer e tenta até fazer graça.

Biscoito está mais relaxado. Dor não sente mais, aparentemente. E isso é uma grande vitória, depois desse longo dia. Mas só percebi mesmo como o dia tinha sido enlouquecedor quando vim observar sua respiração e o vi abraçado ao Cototo, dormindo tão tranquilamente, que me deu vontade de chorar. Então senti os ombros destravarem.

Eu devia estar assim desde às três da manhã, quando ele me chamou: ombros travados, duros feito pau.

Olhando pra minha bolinha de pelo tão tranquilo, senti o coração derreter. E os nós dos ombros também.

Linguiça e Selvagem

Linguiça e Selvagem ou Selvagem e Linguiça. é uma historinha doida, seja qual for a ordem das coisas. Em abril, um cachorrinho apareceu em meu portão e resolveu que ali seria sua nova morada.

O mocinho simplesmente resolveu ficar. Primeiro eu trouxe uma caixa para ele não deitar no chão. Então apareceu um pano pra deixar  a caixa mais gostosa. Depois, uma vizinha que é protetora independente de animais, perguntou se não poderia colocar uma casinha ali, na calçada mesmo, pra ele poder se abrigar. Assim, Selvagem, o cachorrinho preto e branco, ganhou uma casa.

No começo foram muitos momentos de estresse. Eu colocava um pote de comida e água pra ele, de repente os potes sumiam. Saía na calçada e esbravejava, xingava. Selvagem se sentia importante. Estavam defendendo seus pertences.

Ele se sentia mesmo o dono do pedaço, e foi impossível não morrer de rir quando ele saiu correndo, latindo bravo, atrás do carteiro e do moço que veio colocar a conta de água na minha caixinha. Selvagem sabe que não gosto de receber coisas ruins!

Então, um belo dia, percebo que Selvagem não está sozinho. Havia encontrado uma companheira. Era só o que faltava! A minha calçada estava virando um abrigo. Ok. Eu me resignei. Agora havia a companheira que não desgrudava dele. Ele, sempre muito gentil, só vinha se ela também vinha. Só ia se ela fosse. Linguiça pareceu um bom nome pra ela. Foi o casamento do ano! 

Linguiça, a mocinha colorida, assustada como o quê, foi aos poucos percebendo que seu companheiro a protegeria e mostraria em quem ela podia confiar.

Já era recebida por ela com saltos e lambidas, com brincadeiras e festas. Uma alegria sem fim, mesmo pra uma pessoa que não quer cachorros. Assim os dias foram seguindo. De manhã colocar ração, trocar o pote de água, dar bom dia, fazer carinho. Isso depois de tratar os gatos. Os dois ganharam uma casa maior e muito confortável, de uma outra protetora. Podiam viver juntos e quentinhos. Ficavam abraçadinhos.

Mas uma fêmea é sempre um perigo: um perigo quando entra no cio e acaba gerando vários filhotes que, assim como os pais, acabam em situação de rua; um perigo porque os cachorros da rua entrariam em conflito com Selvagem, enfim. Os vizinhos já vinham encher o saco por conta da presença da amiga do Selvagem. 

A protetora independente fez o cadastro pra a castração de Linguiça. De três a quatro meses de espera. No mínimo. Putz. Vou ter que me agilizar. Espreme aqui, ali e mais um pouco e ok. Vou castrá-la. Entro em contato com várias clínicas, indicadas pela protetora, que atendem esses casos de rua. Marcada a cirurgia, era preciso tomar os cuidados de praxe: jejum, principalmente.

Depois de uma luta, consegui pegar a Linguiça e deixei-a na garagem. Selvagem ficou emputecido. Mas era preciso. Qual não foi minha surpresa ao ouvir uns gritos e perceber que a danada se espremeu entre as grades e fugiu? Corri atrás dela, chamei, implorei. NADA. Nenhum dos dois quis conversa.  Desisti. Estressá-la, na véspera da cirurgia, não era muito legal.

Sábado de manhã. Chuva. Um agradinho na mão e a captura da Linguiça! Nem comer o agrado ela pode. Foi só uma forma de atraí-la. De enganá-la. Dentro da garagem, coloquei a guia do Joaquim nela e a mantive presa até a hora de sair para a clínica. No carro, foi uma mocinha exemplar. Tranquila, embora curiosa. Selvagem seguiu o carro correndo enlouquecido. Ela olhava pela janela.

Na clínica, o atendimento. Mais ou menos 3 anos, quase dez quilos. Aparentando boa saúde. Um cliente a elogiou, tentou brincar com ela. Outros cachorros chegavam, ela tremia mas nem um único rosnado ela soltou. Sempre em pé, a meu lado, recebendo seus carinhos na cabeça, pra que soubesse que eu estava ali e que iria buscá-la mais tarde.

Mas aí as horas foram-se passando e quando o telefone tocou, já me aprumei para buscar a convalescente e mostrar a ela o cantinho que havia arrumado pra ela passar a próxima semana. Mas a pergunta me pegou de surpresa: “Oi, a senhora pretende colocar a Linguiça pra adoção? É que um cliente se interessou e gostaria de ficar com ela. Como a senhora disse que ela mora na rua, pensei que de repente fosse bom pra ela ser adotada.”

CLARO! SIM! Mas e o Selvagem? “Selvagem?” O Companheiro dela. Ela tem um amiguinho, são muito unidos. Poderia ver se a pessoa não quer ficar com os dois? “Bom, posso ver. Vou perguntar e te retorno, pode ser?” Sim.

Bom, não quiseram o Selvagem. Só mesmo a Linguiça. Que talvez continue se chamando Linguiça porque acharam engraçado.

Selvagem ficou, mais uma vez. Mas agora, triste. Não saiu do portão, mesmo debaixo de chuva. Chorava, latia. De certo me acusando por o ter separado de sua querida Linguiça.

Ah, como já chorei. Sempre pensava em como seria quando eu me mudasse. O que aconteceria com eles. Para onde iriam. Eu sabia que um podia sumir, morrer, sei lá. Que alguém podia passar e levar um deles embora. Mas não queria ter sido eu a separá-los. Dói demais.

Selvagem chorando no portão faz com que me sinta pior. Então resolvi que não vale a pena o bichinho ficar triste e molhado. Deixei ele entrar. Ele deitou na caminha que foi de Linguiça por algumas horas e permanece lá. Pensativo.

Esperando, talvez. Esperando o retorno de sua amada (que, se tudo correr bem, não acontecerá, porque agora ela tem um lar), ou melhor, esperando que ele mesmo, agora, consiga um lar pra chamar de seu. Mas pode deixar, amiguinho. Eu e as muitas pessoas que já te conhecem estamos buscando esse lar pra você!

 

 

Malvadeza

Foram quase catorze anos de convivência. E nem sempre foi fácil. A convivência entre nós duas sempre foi uma loucura. Cada uma territorialista, cheia de manias, imperiosa, de gênio difícil.

O último ano foi, sem dúvida, nosso ano mais próximas. Incrível. Só posso te agradecer por isso!

A sua braveza, sua cara fechada constantemente rendeu-lhe um apelido: babá, de “braba”. Babá Malvadeza.

Não era mais possível ver nessa rainha absoluta do lar a mesma coisinha medrosa, assustada que chegou à minha casa em setembro de 2003.

Como eu poderia não recebê-la? Quando eu soube que sofria maus tratos, mesmo sem poder, financeiramente, adotar outro filho, não consegui fechar os olhos e ignorar aquela vidinha. Uma bolinha de pelos, branca, cheia de pulgas.

Seu primeiro passeio no meu colo foi para o veterinário, antes mesmo de conhecer a nova casa. Tomou banho, foi escovada e foi vacinada. Agora ela poderia conhecer seu futuro esposo: Boris. Depois vieram os passeios no condomínio, na universidade e nos botecos!

O nome não seria Pandora, mas eu não quis causar uma crise de identidade nela. Adicionei o segundo nome: Pandora Helena.

Devido aos maus tratos ela morria de medo de subir nas coisas, inclusive na cama. Até descobrir que, na minha casa, sou uma mera serviçal. Quem manda são os gatos. Isso ela aprendeu rápido. E dominou a todos. Sem piedade.

Brigamos muito. Muito mesmo. Pra ela aceitar carinho, pra aceitar amamentar os filhotes quando nasceram, pra não bater no Boris, pra não quebrar o pote de mel do meu pai, pra não ficar grudada na tela da porta gritando quando entrava no cio.

Nosso primeiro momento de grude foi após a castração. Ela não saia do meu colo. AMEI aquilo. Ela era, afinal, sempre muito independente e não curtia esses momentos de babação.

Depois, era sempre a altivez dela impondo uma distância respeitosa entre a mestra e sua escrava.

Se eu demorava a entrar em casa ela miava, gritando, brava na janela: “entra logo, escrava, eu quero minha comida; quero meu cafuné, quero você dentro dos meus domínios”. Minto. Eu tenho certeza que não era “escrava”. Mas eram xingamentos poderosos, porque com a cara que ela fazia certamente não tava dizendo “querida mamãe”. E era isso o que eu amava. Aquela coisinha pequena ditando as ordens.

Tantas ordens que nunca outra fêmea pode entrar em seu espaço. A guerra era declarada. Assim ela ficou cercada de seus hominhos: Boris, Jorge, Joaquim, Otávio e José Emílio. A todos ela encarava e ditava as regras. Todo mundo obedeceu.

Ninguém a superava no quesito ronron. Era uma verdadeira máquina. A mão nem encostava nela e o motor ligava forte! Como me doeu no último dia perceber que não havia mais força pra isso!

As massagens foram as melhores de todo o universo. Incansavelmente ela amassava meu couro cabeludo e, enlouquecida com os meus cabelos, aproveitava o momento e me dava mordidas. Era uma malvada zumbi.

Quantas discussões pelo seu cabelo com dread! Não gostava de pentear e nem de se lamber. Era minha porcona terrível! Um estilo totalmente alternativo e no melhor “foda-se, humana!”.

Bolsas e sapatos gatomizados! Era especialista nesta arte!

Sol. Nunca vi um ser tão viciado em sol. Seguia o movimento do astro sempre procurando um lugar quentinho pra deitar. De preferência na almofada que me roubou. A que virou ” a almofada da Babá”.

Eu, domesticada, sabia o que cada miado bravo queria dizer: “abra a torneira da pia do banheiro!” “renove minha carninha!” “me dá essa almofada!” “manda eles saírem de perto!”

Nos últimos dois anos a luta era diária pra manter o peso, a hidratação, a saúde, enfim. E era estressante, claro. A gente continuou brigando. Mas ela deve ter percebido alguma coisa. Todos os dias me esperava na janela. Eu abria o portão e lá estavam aqueles olhos amarelos que sumiam rapidamente. A bolinha branca reaparecia atrás da porta e assim que eu abria, miava e saia correndo pra cozinha, esperando seu papá.

Depois, mal eu sentava ou deitava e lá estava meu pãozinho malvado empoleirando em mim. Pãozinho. Foi assim que a apelidei nos últimos tempos. Sua barriguinha me lembrava um pãozinho.

E o banho! Sair do banho e não dar de cara com aquele serzinho me esperando, ansiosa pelo carinho, pelos beijos, pela coçadinha no pescoço e nos bigodes foi algo a que me acostumei!

E agora? Agora meu pãozinho, minha malvada, minha magreza foi embora. Cansou de sua longa luta. Enfim pode descansar. Havia mostrado o quão importante era nossa relação e que apesar de tudo a gente tinha um laço inquebrável. Que nossa história era feita de nossas loucuras, nossas discussões, de nossas pequenas vitórias.

Chegar em casa e olhar a janela vazia. Abrir a porta e encontrar o silêncio. Sair do banho e não ouvir o seu ronron. Tudo isso me corta tanto que não sei nem explicar.

Só posso dizer que amei e amo demais a minha menininha, que tá doendo tanto que não sou capaz de falar. Eu disse pra você que você podia ir, que podia descansar, que eu te amava e que você me perdoasse por não ter podido fazer mais. Mas nada disso é suficiente, Babá. O buraco é imenso.

Eu sei que pra você foi melhor. Eu sei disso. Não estava sendo fácil, né? Mas não posso dizer pra ficou fácil pra gente aqui, viu?

Eu sei que você está brilhando em algum lugar aí fora. E que agora não tem dor, nem fome, nem medo. Eu sei.

E, Malvadeza, você sempre será a melhor malvada do mundo, a malvada favorita, a malvada mais deliciosa do universo. Nunca se esqueça disso.

Te amo, Malvada! Descanse bem, meu paõzinho. Você merece!

 

 

Pandora Helena: 20/02/2003 – 16/06/2017

A arte de escrever

Escrever é uma arte. Eu acredito nisso. Acredito que existe um estado de espírito apropriado para se escrever. Mas também acredito que se pode sentar num dado momento e “criar” uma espécie de espírito para se escrever. Explico:

Aquele dia em que a alma parece esfacelada, em que a dor é lancinante, em que o peso do mundo parece insuportável é, me parece, capaz de proporcionar belíssimas palavras, criar o momento certo para por pra fora tudo aquilo que se passa em nosso interior, todo o medo que nos aflige, toda a angústia que nos consome.

É incrível como todas as vezes em que me sinto envolta nessa névoa de tristeza e dor, tenho uma vontade louca de escrever, seja aqui, seja em meus cadernos. O resultado é incerto: às vezes o retrato do momento que, compartilhado, auxilia na minha recuperação, na mudança de perspectiva, na reflexão que gera a ação.

Às vezes eu consigo transformar numa piada. E, depois, fico rindo pensando em como aquilo tinha doído tanto se agora eu podia até chorar, mas chorar de rir!

Há, também a situação em que a dor, a raiva, o medo parecem impedir qualquer pensamento, qualquer ação e aí, é preciso abandonar tudo e fazer outra coisa e isso, talvez, te leve ao encontro das palavras que vão aliviar a alma.

Já no caso “espírito criado” a lógica é bem outra. É aquele momento em que você PRECISA sentar e escrever. Por qualquer motivo que seja: a manutenção de um diário, um artigo, um relatório de trabalho.

Às vezes é um processo tranquilo. As palavras fluem, as ideias são claras, tudo se resolve. Noutras ocasiões sua mente silencia, faz birra, não apresenta nem uma única ideiazinha cretina que seja! Nessas horas parece que nada no universo será capaz de ajudar.

O conselho é sempre “vá fazer outra coisa”. Parece óbvio, mas é difícil como o quê! Parece que você fica incapaz de se concentrar em outras coisas, que o tempo corre (especialmente se você tem um prazo a cumprir), que sua paciência acabou há milênios e que todas as coisas do mundo existem unicamente pra te irritar. Pelo menos é assim que me sinto.

Eu ando numa dessas crises infernais. Sento com um bilhão de ideias na cabeça e para que elas desapareçam, basta que eu posicione meus dedos sobre o teclado, ou que pegue uma caneta pra rascunhar alguma coisa.

Aí o ódio toma conta. Fico cega, xingo, levanto, ando, sento, fumo, como, bebo água. Leio alguma outra coisa sem conseguir absorver nada, bisbilhoto as redes sociais. Só pra me irritar mais. Aí o jeito é chorar e, depois, encher o bucho com alguma coisa doce, bem doce, ou gordurosa, bem gordurosa. Ou algo doce e gorduroso.

Cansada e com os olhos inchados já sou capaz de achar graça na minha atitude idiota. Que eu sei que é idiota, mas que sempre repito. É assim: quero escrever, não consigo, fico louca, choro, me encho de porcaria, relaxo, dou risada, fico triste, relaxo e volto à sanidade.

Aí, sabendo que a coisa não tem jeito, ou já entregando os pontos, ou cheia de raiva, ou qualquer outra coisa que pareça me trazer alívio (louco, né?) dou início a uma nova atividade: vou feltrar, vou brincar com os gatos, ou vou conversar (mesmo que seja comigo mesma, num dos diálogos malucos que envolvo a mim e a mim mesma).

No meio dessas coisas BUM, percebo onde estava o erro, ou o que foi que deixei de ver, ou o que foi que vi mal visto, ou relembro um texto que eu precisava horas atrás e que estava escondido nos confins da mente.

Ai é só sentar novamente e escrever. Mesmo que o resultado não seja exatamente o esperado é, pelo menos, um resultado melhor que o vazio anterior.

Os ombros relaxam, o rosto descontrai e já posso dormir em paz. Se não com a sensação de missão cumprida, ao menos admirando de novo a arte de escrever.