Boris

Algumas culturas afirmam que após nossa morte, reencarnamos em animais. Já ouvi dizer que as pessoas que foram boas renascem em animais que serão bem tratados, o inverso para as pessoas que foram más… Outra coisa que também já ouvi é que nossos entes queridos estão encarnados em nossos bichinhos e assim, sucessivamente, a “família” nunca se perde…
Não posso dizer que uma dessas teorias me cai como uma luva porque considero que qualquer uma delas, se analisada a fundo, dá um pouco de medo…imaginar que o Boris, por exemplo, já foi um parente meu pode, aliás, certamente me causará pesadelos. E tudo o que não desejo é ter pesadelos com meu filhote.

Ele entrou na minha vida quando tinha apenas um mês de vida. Era meu aniversário e ele foi definitivamente o melhor presente de toda a minha existência, até porquê, é bem justo afirmar que, depois dele, voltei a sorrir.
Daquele dia em diante não nos separaríamos mais, ao menos em pensamento. E mesmo que eu quisesse ele não me deixaria longe. Ia para a universidade e ele estava em meus braços, saía de casa com ele enroladinho em uma manta nos dias mais frios e não foram poucas as pessoas que o confundiram com um bebê de verdade… e para mim é isso que ele é! Meu bebê.
Sempre avalio os filhos humanos das pessoas e chego à conclusão que não teria um desses pra mim… são estranhos demais… Já os felinos… bem… somos feitos um pro outro, e de qualquer forma, em qualquer das teorias acima que você esteja tentando encaixar essa história, ela se encaixará. Boris é muito amado – vale dizer que mais até que alguns membros humanos da família – e, recebe tanto carinho, que certamente, se foi humano um dia, foi muito querido e bonzinho.

Hoje é um pouco difícil fazer certas coisas, pois apesar de criticar inúmeras mães de filhos humanos, eu mesma fui uma mãe terrível pro Boris – e também para todos os meus outros filhos que terão espaço aqui em breve. Mimei-o de todas as maneiras possíveis e ele que não é bobo nem nada, sabe exatamente como me chantagear. Basta uma palavra que entre em desacordo com a vontade dele para que me lance um olhar devastador. Meu coração se parte em milhões de partes e… agarro-o e beijo-o. Ok, filhote, faça, suba, deite, este espaço é seu, eu viro pro outro lado, tá bom, o travesseiro é seu, e por aí vai.
Já não sei mais quantas vezes deixei de estudar porque ele se pôs a chorar na cama dizendo “mãe, vem deitar que eu quero dormir”! Ou de tantas outras em que me despedi dos amigos no msn para poder acariciar os pêlos desse bebê exigente. Quantos cafés deixei de tomar para correr atrás dele pela casa e me esconder para que ele com aquele lindo sorriso nos olhos azuis pulasse mostrando que incrivelmente me achara…
Ou quantas vezes com a tela aberta esqueci o texto que preparava para capturar uma cena inusitada, ou definitivamente apaixonante e depois de ver e rever centenas de vezes, me deitar ao lado dele, cheirar seus pêlos e dizer baixinho nas suas orelhinhas “a mãe te ama muito, muito, muito”.
Compreendo perfeitamente bem que muitos me considerem louca, e eu mesma já cansei de me imaginar como a velha solteirona da última casa da rua, que vive sozinha numa casa velha cercada apenas por seus livros e seus bichinhos muito amados… inevitável o sorriso. Isso é a minha felicidade, e a felicidade… bem o que importa é que ela venha, não importa a forma. Por fim gostaria apenas de relembrar uma personagem de Milan Kundera. Teresa amava Karenin, sua cadelinha. Amava tanto que não se imaginava mais sem ela e suas reflexões fizeram com que eu pensasse cada vez mais como é que alguém pode não entender esse amor. “(…) o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior. Teresa não quer acusar ninguém, nem ela, nem Tomas, não quer afirmar que poderiam se amar mais. Parece-lhe apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro – essa coisa estranha do homem, que o Criador certamente não previu.” Tudo porque esse é um amor desinteressado que não pede nada – ou quase nada – em troca.
E todas as vezes que olho para meus filhotes, ou quando insistentemente Boris me pede colo, eu penso “Sim!”. Tudo em nome desse amor…

Trecho retirado do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Ed. Nova Fronteira, 1985

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Um pensamento sobre “Boris

  1. damassa disse:

    De certa forma, eu concordo com a teoria de que após a morte, alguns reercarnam em animais. Na verdade, já me peguei fixando o olhar na Drica e cheguei a sentir algo de familiar no olhar dela. E se a teoria de “boas pessoas encarnarem em animais que serão bem cuidados” estiver certa, a Drica tb deve ter sido uma pessoa muito boa, pois é tratada como membro da família e recebe todos os cuidados.Mas, penso que não devemos exagerar, a ponto de amar um animal mais que um ser humano, nem por isso amá-lo menos. Tudo é criação de DEUS, mas o ser humano é sim sua criação maior. Sua semelhança.O convivio com eles pode parecer difícil, mas é ai que crescemos. Amar, odiar, sofrer humilhação, perdoar.Na minha modesta opinião, o segredo de um bom viver é o equilíbrio entre as coisas.

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