Longa quinta

A quinta estava sendo esperada com ansiedade. Eu precisava de mais ideias, de um norte. Tudo por conta da minha nova brincadeira: estudar o cemitério da cidade.

Vamos lá. Pensei que ia ser uma depressão sem fim, mas ta sendo justamente o contrário. Ganhei até apelido: “menina do cemitério”.

Como as coisas são sempre muito loucas, na noite de ontem começou a chover e eu só pensava que S. Pedroca teve a semana inteira pra lavar o quintal mas revolveu fazê-lo no dia que eu tinha pra correr atrás da pesquisa. Bem engraçadinho.

Acordei no horário de sempre, pois eu tenho gatos. É uma regra que todos que convivem com gatos conhecem. Eles são despertadores naturais e muito eficazes. Sempre.

Tratei a criançada, tomei meu café e fiquei matutando até dar a hora de pegar o primeiro ônibus rumo à sede da Secretaria de Cultura.

No ponto de ônibus já rolou uma conversa muito bacana com uma senhorinha que me contou um pouco da sua vivência com a fibromialgia, doencinha que conheço bem, infelizmente.

Dentro da lotação, que recebe esse nome muito corretamente, em pé, terminei de ler um artigo. No centro, corri procurando o novo ponto do segundo busão. E também corri pra fugir da chuva, claro.

Sentadinha, dessa vez, ouvia minhas músicas, lia o segundo artigo e pensava em que rumo dar às leituras. Em como botar a casa das ideias em ordem.

Cheguei a meu destino, rodeei o teatro e fiquei admirando uma casa incrível. Então, mesmo com cerca de 40 minutos de antecedência, fui me apresentar. Oi, a menina do cemitério chegou!!

João Laércio, o historiador, é uma pessoa super gente boa e eu teria ficado lá, de boa, viajando nas coisas e até esquecendo do meu cemiteriozinho, se ele também não fosse uma pessoa super requisitada. Caramba toda hora chegava gente querendo saber da história da cidade, saber sobre patrimônio histórico e arregalar os olhos com o meu tema. Foi muito legal. E já preciso voltar porque preciso aprender muito muito muito mais.

Na volta, peguei um ônibus diferente e passeei pelas ruas da cidade. E a cada esquina volta o pensamento: mora aqui há 15 anos e não conheço nada. Em que universo em estive? Essas falhas, essas lacunas, esse não saber me agonia, irrita, estressa. Aí o resultado são noites mal dormidas devorando livros e artigos.

Na UEM, a minha menina dos olhos, de novo o brilho. Aquele lugar é mágico. Só posso dizer isso. E também conheci o Luciano, da EDUEM. Altamente gente boa!

Fui ao Museu da Bacia do Paraná mas não consegui conhecer o sr. João Batista, ficou pra próxima. E fui atendida pelo Willian. Porra, fazia muito, mas muito tempo que eu não era tão bem atendida. Ele me contou que o seu João já é aposentado e que só vai ao Museu algumas vezes na semana, que não estava muito bem hoje e por isso não estava lá, me passou emails e tal. E quando perguntei como chegar a outro lugar na Universidade ele me explicou com tanto esmero que fiquei com vergonha de dizer que conhecia um pouco o campus e tal.

Então meus pés, doloridos, minhas costas moídas e minha bexiga explodindo imploraram pra que eu voltasse pra casa. Foi o que comecei a fazer.

Liguei minha musiquinha e vim viajando na maionese, coisa que faço muito bem, diga-se.

Cheguei em casa e, na cozinha, descubro uma lagoazinha particular. A Água da chuva invadiu tudo. Esqueci que tinha sede, que queria usar o banheiro, que os pés imploravam descanso. Peguei o rodo e fui cuidar do festerê.

Terminada a missão, sentei, acendi o meu cigarrinho e olhei pro tempo. Pô, que quinta que rendeu!

 

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Bad Day

Poucas coisas são tão ruins quanto tentar dormir e não conseguir dormir. Porque deitar, fechar os olhos e permanecer com o cérebro a mil é doentio.

Uma coisa maravilhosa é imaginar aquela noite em que se deita, exausto depois de um dia miserável, e dormir o sono dos justos. Em paz.

Eu nem sei mais o que é isso.

Deitar é a hora temível. A hora em que o dia repassa em minha cabeça, em que peso o que eu disse e o que não disse, o que fiz e o que não fiz. É medir a vida que imaginei que teria aos quase quarenta confrontada com a vida de merda que levo aos quase quarenta.

É encarar todas as decepções, as perdas, as limitações e os fracassos. Tento encarar positivamente e pensar que só sou quem sou porque vivi tudo o que o vivi da maneira como vivi.

Mas é também ver deitar por terra tudo o que achei que seria e que, ao fim e ao cabo, não sou.

É encarar o medo, as perdas. É encarar o que de fato se fez.

As noites, que sempre foram a hora mais deliciosa se tornaram as horas mais temidas. As horas em que vejo a mim mesma sem máscaras.

As horas em que morro por dentro quando um gato faz pouco xixi e com gotas de sangue. As horas em que me pergunto se terei como pagar o próximo aluguel. As horas em que me pergunto de que adiantou estudar o que amo se no fim das contas isso não paga a conta de água. A hora de engolir o orgulho por ter precisado fazer rifas para comprar ração e pagar o veterinário. A hora de questionar a inteligência. A hora de questionar a habilidade em lidar com a vida.  A hora de perguntar se vale a pena trabalhar feito um burro pra que ninguém veja ou reconheça isso. A hora de questionar os posicionamentos. A hora de pesar se vale mais a pena lutar pelo que se acredita ou ser um cretino com grana no bolso. A hora de se perguntar se vale a pena estar aqui.

A hora em que a dor de estar aqui grita mais alto.

Deitar e não dormir é cruel. Cruel porque te obriga a encarar a merda toda. A encarar tudo o que você é e o que não é; a hora de repassar que você, aos quase quarenta, precisa da ajuda da mãe pra se manter; que precisa ouvir que um clube de livros é idiota (afinal quem, nessa situação, acha um clube de livros legal?). Hora de pensar que ter animais é idiota quando mal se consegue se manter com o mínimo possível. Hora de pensar que tudo foi em vão. Será que foi?

A hora de deitar virou um castigo. E chorar já não resolve.

E não é pena que se espera, e muito menos, palavras de consolo. Tudo o que se deseja é uma noite de sono em que seja possível esquecer. E dormir pra esquecer. E, se possível, nunca mais acordar.

O Retorno

Ah, que saudade do meu bloguinho querido. Há algum tempo eu não conseguia mais entrar aqui por uma das muitassalvando-o-blog lerdezas que cometo na vida. Depois do arrombamento da minha casa eu resolvi incluir itens de segurança em algumas plataformas que utilizo. Aí pensei que estava tudo muito bem, obrigada.

Então, as empresas de telefonia me resolvem incluir o 9 nos telefones do sul também. E eu, muito lerdamente nem me toquei que precisava tomar algumas precauções. Resultado: perdi o acesso ao blog.

Depois de muitas lutas – pois como diz meu irmão mais novo sou uma reles usuária do mundo da tecnologia -, depois de muita raiva, acabei desistindo e pensando em reativar meu blog velho. Até aí tudo bem. Mas o que fazer com os anos de textos daqui? Por não ter mais acesso, não conseguia sequer importar. Vamos lá no copiar e colar eternamente que um dia a coisa se resolve.

Aí, tava la sentada no sofá quando, entre outras milhares de dores existenciais, pensei no blog. Costura vai, costura vem, decidi tentar contato com o helpdesk do wordpress pedindo ajuda #peloamordosemor.

Aí começa a parte em que atesto a lerdeza, já tantas vezes ressaltada. Tudo muito bonitinho, muito técnico e eu “como vou explicar a minha situação?” Fui para o google translate (porque a preguiça domina, sempre) e escrevi um texto em português, copiei o resultado em inglês e mandei.

Minutos depois, enquanto caseava um ursinho, recebo a resposta. WTF???

Corri pro translate pra me ajudar a entender que tanto de coisa o tiozinho me falava. Hmmmm entendi. Vou responder pro translate again.

Aí começou a demorar e eu pensei: agora danou-se. Nem o tiozinho entendeu.

Mas… uma boa alma entrou em contato: Minha filha, como vai? Nós falamos português também, que coisa, não? Hahahhahahhahaa. A pessoa foi muito, mas muito mais gente boa que isso e me salvou. Aliás, salvou o blog. Ri muito e antes de terminar o ursinho vim postar minha queimação de cara internacional.

Porque, sabe, né? Se não for pra passar vergonha eu nem levanto da cama.

 

 

De novo, outra vez.

Mais um ano vai embora. Ao que vejo, 2016 não deixará saudade nenhuma. Crises política e econômica, a filhadaputice rolou solta, o medo veio querendo se instalar e o futuro que já pareceu mais certo, agora está nebuloso, quando não medonho.

Pra mim o ano foi daqueles inesquecíveis. Inesquecivelmente uma merda!

Começou o Boris internado em estado grave. Quando finalmente meu pelúcio voltou pra casa as finanças tinham ido por água abaixo. Fui segurando como dava pra tentar pelo menos pagar aluguel e os medicamentos dele.

Defendi minha dissertação e me tornei mestre. Era um sonho que se realizava, mas de uma maneira muito diferente da que eu havia sonhado. Até hoje não digeri as coisas direito pra poder falar com um pouco mais de razão.

Aí o José Emílio teve que passar por uma cirurgia para remoção de pedras na bexiga. O Jorge também resolveu passar por várias cistites e o Joaquim teve gastrite, chegando a vomitar sangue.

Para ajudar peguei dengue. A insônia se apossou de mim. A fibromialgia atacou com gosto. 2016 mostrava sua cara bem sacana.

Nada estava nos eixos quando minha casa foi arrombada e levaram minhas coisas. Computador, HD externo, pendrive, pulseiras, anéis, etc., e o pior: minha caixa de recordações, construída pelo meu pai quando eu tinha 13 amos. O que os malditos queriam com a minha caixinha eu não consigo imaginar já que ela só tinha coisas importantes pra mim, mas de valor financeiro zero. E aí lembro de minhas fotos, meus textos, minha dissertação, do início de uma futura tese, e de milhares de coisas que eu acumulava pra ver um dia. Isso e os mais de 600 filmes e séries. Ok. A gente recomeça. E aqui meus amigos se mostraram mais uma vez! Montaram uma campanha pra me mandar cartas novas. Eu, chorona que sou, podia ter criado um novo oceano!

A merda é que o assalto teve consequências terríveis. José Emílio recém operado, foi piorando até que ele sofreu uma evisceração. Fez nova cirurgia e passado dois dias, não resistiu e faleceu. Meu bebê tinha apenas 3 aninhos.

Eu, nos dias em que se seguiram ao assalto não dormia mais, tinha sobressaltos a todo momento. Um inferno. Perdi a vontade de ler, de estudar de fazer qualquer coisa. O medo se instalou. E o ódio também. Não podia mais ficar naquele lugar. Mudei e pra isso foi preciso abraçar novas dívidas.

Jorge que vinha de várias obstruções urinárias precisou operar. Era urgente. Houve a sugestão de eutanásia. Mas ele resistiu bravamente e hoje está doidão e mais animado que antes. E a mãe dele muito, mas muito mais pobre que em toda a história de vida dela. Mas ok.

Aí não houve jeito. Foi preciso aprender a nadar, já que a água não estava na bunda e sim no pescoço. Foi petsitter pra cá e pra lá. E, então, me aventurei em aulas online pra aprender artesanato. Até o momento são três trabalhos: o formal e mais dois informais. Nunca trabalhei tanto na minha vida!

A rotina se alterou imensamente. Se antes eu podia ler até os olhos caírem hoje mal consigo comprar um livro barato no catálogo do avon. E pra ler só mesmo quando a insônia bate.

Fins de semana, feriado e férias viraram tempo pra trabalhar no petsitter ou nos artesanatos. E confesso que me surpreendi comigo mesmo. Não porque eu tenha achado a fonte da alegria, mas porque eu achava que não daria conta e – embora eu ache que ainda falte MUITO mesmo pra poder considerar meu trabalho uma obra digna das artesãs – eu consigo fazer peças que antes só de olhar eu já me embanava toda. E já vendi coisas pra vários lugares! E isso faz com que a ração e os medicamentos da família sejam garantidos.

Por fim, Boris que começou o ano pelas últimas está estável. Joaquim está gordo, pré-diabético e preguiçoso, mas bem. Jorge está novinho em folha, Cototo permanece a alegria e o gás da juventude, do alto de seus dois aninhos. E a Pandora é aquela coisa: está nas horas extras. Uns dias são bons outros são terríveis e não há o que fazer. Se ela quer comer carne, é carne, se quer comer patê é patê. Magrelinha mas ainda malvada ela tá mandando em tudo muito mais agora que nos 13 anos anteriores.

2016 foi um ano muito difícil, que passou arrastado, que teve momentos horripilantes. Mas não foi só merda não.

Mais uma vez eu fui cercada por amigos maravilhosos, aos quais só posso agradecer até o infinito. Minha mamis também se desdobrou pra segurar as minhas pontas. Aprendi um montão de coisas e me diverti com isso.

Talvez seja mesmo nas horas mais fodas que a gente encontre a força mais genuína. Se for assim 2016 criou uma galera muito poderosa.

Ao fim e ao cabo, percebi que sou louca de pedra.

E, mais uma vez, de novo, recomeçaremos.

Tomara que dessa  vez a viagem seja, pelo menos, mais tranquila.

 

 

Inabilidades

ice_2016-11-07-16-25-10-192Pra começar eu vou afirmar que sofro de, pelo menos, dupla personalidade. Pelo menos. Muitas vezes creio que são muitas, mas não é esse o assunto de hoje.

Eu amo as coisas super hiper mega perfeitas. Tenho inúmeras manias: pra começar a trabalhar minhas gavetas devem estar super arrumadas, meus lápis alinhados, meus cadernos em ordem, tudo seguindo uma lógica que eu percebo mas que muitas pessoas, não.

Aí, alguém olha e pergunta: “ok, mas suas gavetas estão um caos. Como pode??”

E eu respondo: essa minha lógica de uma organização absurda e maluca só funciona quando amo o que faço, quando me sinto bem para dedicar meu tempo a isso e quando nada mais no mundo me enche de raiva. Ou quando muita coisa no mundo me enche de raiva.

A mesma regra vale para tudo: meus livros, minhas garrafas de água na geladeira, minhas roupas e, claro, as coisas dos meus gatos também.

E, aí, vem o assunto do texto: essa maluquice também se aplica à minha nova atividade, o artesanato.

Meus tecidos ficam organizadinhos, as bagaceiras todas em seus devidos espaços, as linhas alinhadas, os enfeitinhos separados…

Só que, obviamente, eu não tenho Aquele talento. Vou me arranjando pois precisei ter algo que gerasse renda pra ajudar nos gastos com a criançada aqui de casa.

Então, eu começo mais um dia de trabalhos: separo os tecidos, desenho, corto, separo cada um num saquinho e vou montando os bichinhos um a um até acabar tudo. Olho e fico insatisfeita – uma constante no meu ser – e desmancho, jogo fora, choro, xingo, morro de raiva, recomeço.

Algumas coisas viraram monstrinhos adoráveis, outras até gostei, algumas gostei muito, mas a grande parte me enche de raiva e frustração.

Está sendo assim com a merda dos enfeites de natal. Ah, o natal ta chegando de novo – e oque você fez?? – e todo mundo me diz: “olha aí a chance de ganhar uma grana”!!! E eu penso: uau, verdade!!

Mas acabo produzindo coisas pra um natal de filme trash. Fico possessa.

Penso que talvez a gente tenha que ter algum tipo de vínculo com a coisa para que ela funcione. Eu amo ler. Leio rápido, absorvo bem o que leio, recordo as leituras, enfim, tudo a contento.

Só que eu detesto o natal, então cheguei à conclusão que os enfeites de natal não ficarão bons por conta disso. Uma espécie de transferência.

Como a minha lua muda muito rapidamente desisti dessa alternativa. Não quero nada de enfeite de natal, arvorezinha então eu ODEIO. Tudo fica tosco, e não adianta uma alma piedosa dizer: “que é isso? ta super fofo” pois não acredito. Tá horrível mesmo.

Vou começar a investir no mercado alternativo já que miçangar ta virando uma terapia além de fonte extra de renda. Se ficar feio ou tosco pelo menos vou rir. Com o natal eu só to despertando ódio. E nesse caso, não ta adiantando desmanchar e refazer em busca de uma ilusória perfeição.

Teste de resistência

Pois sim, cá estou eu novamente falando dos meus filhinos: filhos + felinos.jorgebebe

O Jorge, esse bebê estranho que parece um panda borrado, já teve até um post só pra ele há alguns anos.

Meu nenê nasceu em uma manhã, em treze de setembro de 2004. Eu morava numa kitnet com o Boris e a Pandora, seus pais.

Confundi ele com uma sujeira quando a Pandora foi sair da caixa em que teve os bebês pra beber água. Os outros filhotes eram brancos como os pais, daí minha mancada com ele. Tadinho.

Quando os irmãos foram doados lembro das pessoas falarem: “coitadinho, tão feinho…” E foi por ele ser feinho que eu adotei ele.jorgefamilia

Boris era apaixonado pelos filhos. Grudou de tal maneira no único com que ficamos que chega a doer ver o amor deles. Onde o filho ia, lá estava o pai cuidadoso. Pandora não tava muito ligando pra maternidade. O lance dela era tomar sol na janela.

Jorge foi crescendo, se tornou um gatão cinza lindo que vive arrancando elogios. E essa mãe coruja aqui se derrete.

Jorge adora ficar escondido debaixo das cobertas, da cama ou de qualquer lugar, por isso, um de seus apelidos é tatu. Aqui em casa é sempre um tal de tatu pra cá, tatu pra lá. Acho que até o Boris chama o filho de tatu ahahahhaah.c360_2016-09-13-23-46-34-025

Enfim, Jorge tava la todo lindão, amoroso, bonzinho, tatuzando a vida toda. Aí em 2014 ele ficou doente pela primeira vez. E até o problema dele era de boa: um abcesso na boca. O abcesso foi removido, ele fez uma limpeza dentária e voltou pra casa novinho em folha.

Até que 2016 começou. Jorge começou a apresentar frequentes obstruções. Como o pai dele foi diagnosticado renal o medo era que ele também desenvolvesse a doença.

Assim, em mais uma obstrução em julho deste ano, descobrimos que ele tinha se tornado paciente renal. Cuidado redobrado. Nem todos os medicamentos que ele tomava antes seriam possíveis agora.

Terça passada, super felicidade aqui em casa pois meu tatuzinho estava completando 12 anos. Esqueci de comprar um agradinho pra ele que, aqui em casa, nos aniversário, é sempre um patê. Foi uma sorte.

Patês em geral são ricos em sódio e isso pra um gato renal – pra todos, aliás –  é um veneno. Nessa mesma terça feira Jorge começou a apresentar os sinais de nova obstrução: lambeção do pênis, demora em urinar, evitar beber água. O patê poderia ter piorado a situação.

Comecei a medicação que a veterinária havia recomendado anteriormente mas não houve melhora. Na quarta feira ele já não fez nenhuma gotinha de xixi. Na quinta ele foi levado à clínica para desobstruir. Já apresentava queda de temperatura.

Após o procedimento, ele voltou pra casa. Pensei que tudo voltaria ao normal. Mas não foi assim.

A barriga dele estava meio grande e a veterinária desconfiou que algo estava errado, recomendou exames emergenciais. Minha mãe providenciou o dinheiro e ontem Jorge fez ultrassom, exame de sangue e, no laboratório, viram que havia um liquido solto no corpo, que retiraram para análise.

Na hora em que vi a movimentação ja me desesperei. Peguei meu filho e comecei a chorar. Sou dessas que por meus filhos choro, esperneio, brigo seja onde for.

No início desconfiaram de PIF – doença sem cura, mas com controle, altamente contagiosa e complicada em gatos idosos. Se ele tivesse, todos os outros teriam também. Muito choro, muito medo.

Durante a tarde veio o resultado dos novos exames: era urina o líquido encontrado na barriga. Havia um vazamento que só seria detectado em cirurgia exploratória. Veio a pior coisa que podemos ouvir: “considere a eutanásia”.

Meu mundo caiu. Não conseguia falar, pensar direito, nada. Meu filho saiu de casa pra tratar uma obstrução e agora estava à beira da morte. Como?? Meu bebê forte e saudável, meu bebê carinhoso, manhoso.

A cirurgia, a veterinária disse, era emergencial e era a única chance do Tatu. Corri para pedir a amigos o dinheiro da emergência. Consegui (e tenho uma dívida eterna, com muito gosto) e liberei a cirurgia do Jorge. Começava a apreensão.

Ele entrou em cirurgia às 19:30h. Um gato renal, de 12 anos, com vazamento de urina na barriga, uma bexiga super inflamada.

As horas passavam e eu entrava em colapso. Sem fome o que que comi estragou o estômago. Lembrei tarde da noite que não tava indo ao banheiro, nem bebendo água suficiente. Lembrei que nem tinha posto comida pros gatos. A atenção era toda pra cirurgia do Jorge. E pra buscar apoio nos amigos que, mais uma vez seguraram minha mão, me embalaram no colo, me ouviram e acalentaram, mesmo a distância.c360_2016-09-15-22-13-41-220

Passado da meia noite a notícia: ele reagiu bem à cirurgia mas a temperatura estava baixa. Precisa acordar da anestesia e estabilizar o corpo.

A cirurgia, um dois-em-um, abriu a barriga, limpou o líquido que estava la, limpou a bexiga, fechou o buraco (que descobriram, era na bexiga), reconstruiu a uretra e construíram uma espécie de vagina para evitar novas obstruções e costuraram tudo de volta em seu devido lugar.

A tensão era tanta, que mesmo sabendo que ele tinha passado bem pela cirurgia, não consegui dormir. Nem mais nada. Só esperar. Os ombros doem, a cabeça dói, os olhos doem.

E mais, tendo passado por uma situação muito parecida ha pouco mais de 4 meses, é impossível não entrar em parafuso! Choro e choro e choro. Medo. Raiva. Tudo misturado.

Amanheceu e eu fui cuidar da família, dar o papazinho santo de todo dia, brincar e falar que o nosso filhinho logo voltaria para casa. estava mais calma, sim, mas ainda apreensiva, sem fome. Logo eu que pareço ter um buraco no estômago.

Agora há pouco a noticia: Jorge estabilizou ainda na madrugada. Hoje ja ficou de pé e andou um pouco, comeu. Está caminhando pra recuperação.

c360_2016-09-16-11-01-00-767Serão muitos dias de internamento ainda. Sei disso. Ele precisa estar forte e tranquilo pra voltar pra casa. Mas só de saber que meu tatu está sendo forte e que ouviu quando ontem, antes da cirurgia, eu lhe disse ao pé da orelha que voltasse bem pra casa porque nós o amamos demais, já faz valer a pena toda essas noites em claro e falta de apetite.

É mais um teste de resistência, desses que meus filhinos estão se especializando em aplicar.

 

Eu e a cozinha

Uma das coisas que eu admiro nas pessoas é a capacidade de cozinhar bem. Tem gente que parece que tudo o que faz fica delicioso. Eu, às vezes, tenho sorte. Na maioria das vezes me contento com qualquer coisa mesmo.

Sou dessas que vive com qualquer pão com ovo. Até porque, não fosse assim eu tava lascada.

Houve um tempo em que eu tinha um álbum numa rede social chamado “experimentos” onde eu colocava as coisas que eu tentava fazer. Especialmente as que davam errado. Era um barato. Com o assalto à minha casa essas fotos se perderam, mas não a habilidade de continuar estragando as receitas. Sou muito boa nisso!

Bolinhos de polvilho que pareciam batatas inglesas cruas, pudim de chocolate que parecia bolo de barro, e bizarrices como essas ilustram minha nobre atividade na cozinha.

Dias atrás – pois também sou dessas que não desiste nunca – vi uma receita de bolinho de batata. Adoro batata, registre-se. Resolvi fazer. Segui a receita. Não dava ponto. Chamei ajuda. Resolvemos adicionar farinha, item que não constava nos ingredientes. Não resolveu. Virou uma maçaroca intragável. E assim fiquei sem batata nenhuma, com fome e ainda amarguei a derrota de um jogo de futebol que resolvi assistir. Ah, eu até descobri – um pouco tarde demais – que existe uma batata chamada asterix e que essa é a batata que deve ser usada para esse tipo de coisa e não as aguadas que usei.

Teve também o caso do quindim que, segundo uma amiga, parecia qualquer coisa, menos quindim. E, ainda, o da bolacha de maisena na qual os ingredientes em casa eram insuficientes e, portanto, a receita precisou ser adulterada. Ficou comível, mas não tanto.

Toda vez que me disponho a fazer algo fico lá pensando se vou me matar de comer ou me matar de rir depois do fiasco. Pelo menos tem esse lado bom.

Ontem foi a vez do bolo de churros. Fui super empolgada fazer o tal bolo. Receitinha na mão, tudo fácil. O bolo não cresceu mas não chega a ser um problema. Aí, parti pro recheio e cobertura. Dizia a receita: doce de leite e creme de leite (sou intolerante à lactose, mas não se esqueça: eu não desisto nunca) batidos na batedeira como se fosse um chantilly. Nunca fiz chantilly, mas achei que dava.

Coloquei as coisas na pia, comecei a bater o doce de leite. Abri a caixinha e joguei…. um líquido esquisito dentro. Ué, que creme de leite estranho. Olhei a caixa pra ver a validade e li “leite de coco”. Pronto. Mais uma receita com um toque especial. Só que não.

Desisti de cortar o bolo e fazer recheio e joguei o caldo que em absolutamente nada se parecia com um chantilly em cima do bolo. Vai dar certo!

Até que deu, mas não matou minha vontade de churros. Pra terminar pensei em salpicar canela em pó em cima, pra dar uma enganada. Ficou parecendo que o bolo caiu na terra e eu tentei limpar. Tá comível. Tá até gostosinho, mas é mais um ponto a menos nas minhas experiências culinárias.