A arte de escrever

Escrever é uma arte. Eu acredito nisso. Acredito que existe um estado de espírito apropriado para se escrever. Mas também acredito que se pode sentar num dado momento e “criar” uma espécie de espírito para se escrever. Explico:

Aquele dia em que a alma parece esfacelada, em que a dor é lancinante, em que o peso do mundo parece insuportável é, me parece, capaz de proporcionar belíssimas palavras, criar o momento certo para por pra fora tudo aquilo que se passa em nosso interior, todo o medo que nos aflige, toda a angústia que nos consome.

É incrível como todas as vezes em que me sinto envolta nessa névoa de tristeza e dor, tenho uma vontade louca de escrever, seja aqui, seja em meus cadernos. O resultado é incerto: às vezes o retrato do momento que, compartilhado, auxilia na minha recuperação, na mudança de perspectiva, na reflexão que gera a ação.

Às vezes eu consigo transformar numa piada. E, depois, fico rindo pensando em como aquilo tinha doído tanto se agora eu podia até chorar, mas chorar de rir!

Há, também a situação em que a dor, a raiva, o medo parecem impedir qualquer pensamento, qualquer ação e aí, é preciso abandonar tudo e fazer outra coisa e isso, talvez, te leve ao encontro das palavras que vão aliviar a alma.

Já no caso “espírito criado” a lógica é bem outra. É aquele momento em que você PRECISA sentar e escrever. Por qualquer motivo que seja: a manutenção de um diário, um artigo, um relatório de trabalho.

Às vezes é um processo tranquilo. As palavras fluem, as ideias são claras, tudo se resolve. Noutras ocasiões sua mente silencia, faz birra, não apresenta nem uma única ideiazinha cretina que seja! Nessas horas parece que nada no universo será capaz de ajudar.

O conselho é sempre “vá fazer outra coisa”. Parece óbvio, mas é difícil como o quê! Parece que você fica incapaz de se concentrar em outras coisas, que o tempo corre (especialmente se você tem um prazo a cumprir), que sua paciência acabou há milênios e que todas as coisas do mundo existem unicamente pra te irritar. Pelo menos é assim que me sinto.

Eu ando numa dessas crises infernais. Sento com um bilhão de ideias na cabeça e para que elas desapareçam, basta que eu posicione meus dedos sobre o teclado, ou que pegue uma caneta pra rascunhar alguma coisa.

Aí o ódio toma conta. Fico cega, xingo, levanto, ando, sento, fumo, como, bebo água. Leio alguma outra coisa sem conseguir absorver nada, bisbilhoto as redes sociais. Só pra me irritar mais. Aí o jeito é chorar e, depois, encher o bucho com alguma coisa doce, bem doce, ou gordurosa, bem gordurosa. Ou algo doce e gorduroso.

Cansada e com os olhos inchados já sou capaz de achar graça na minha atitude idiota. Que eu sei que é idiota, mas que sempre repito. É assim: quero escrever, não consigo, fico louca, choro, me encho de porcaria, relaxo, dou risada, fico triste, relaxo e volto à sanidade.

Aí, sabendo que a coisa não tem jeito, ou já entregando os pontos, ou cheia de raiva, ou qualquer outra coisa que pareça me trazer alívio (louco, né?) dou início a uma nova atividade: vou feltrar, vou brincar com os gatos, ou vou conversar (mesmo que seja comigo mesma, num dos diálogos malucos que envolvo a mim e a mim mesma).

No meio dessas coisas BUM, percebo onde estava o erro, ou o que foi que deixei de ver, ou o que foi que vi mal visto, ou relembro um texto que eu precisava horas atrás e que estava escondido nos confins da mente.

Ai é só sentar novamente e escrever. Mesmo que o resultado não seja exatamente o esperado é, pelo menos, um resultado melhor que o vazio anterior.

Os ombros relaxam, o rosto descontrai e já posso dormir em paz. Se não com a sensação de missão cumprida, ao menos admirando de novo a arte de escrever.

Anúncios

2 pensamentos sobre “A arte de escrever

  1. Eduardo Fernando Montagnari disse:

    Realmente, a recomendação é sempre óbvia. Vá fazer outra coisa e depois retorne e retome, como eu mesmo sugeri. Claro que isso nem sempre dá certo, como também precisamos ficar atentos pra não ficarmos presa de que existe um “estado de espírito” para escrever…
    No teatro é comum as pessoas que não têm familiariedade com “esse mundo” acreditarem que o que move o ator é a emoção. Não é. O ator não pode se tornar uma presa das emoções, pois ela pode não aparecer. Ele tem que aprender a trabalhar o que costumamos chamar de memória emotiva. É um exercício…
    Creio que escrever tem muito que ver com isso. Lembro-me de ter lido certa vez que Hemingway recomendava que escrever é uma atividade de todo dia, que pode ser iniciada com uma afirmação, ou uma negação e depois é se virar. Sempre achei uma boa dica. Pode não sair nada, mas a recomendação é igual a do Henry Miller: escreva, escreva, escreva qualquer coisa, mas escreva… Henry Miller disse que escrevia e escrevia e escrevia muita coisa imprestável antes de iniciar algo que valia a pena.
    A arte de escrever, de representar, de dançar… A arte é angústia, sempre.

    • É verdade! A gente às vezes sabe que é necessário, Mas a cabeça não deixa! Ainda assim, ouvir esse “vá fazer outra coisa” é muito importante. O teatro é uma das coisas que me fascina, durante muito anos achei que tinha o tino, que ia partir pra essa área. Mas como sofro de inabilidade social, hahahahhaha sei que sou muito mais útil entre meus papéis e gatos! De qualquer forma, muito obrigada, viu?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s