Quem é dono do quê?

De longe não se pode imaginar, mas olhando um pouco mais de perto o resultado não é tão agradável. É assim que penso o começo deste texto.
Há alguns anos moradora de Maringá, passei boa parte deste tempo vivendo na região central, o que me fez “esquecer” de observar alguns detalhes que só agora, morando num bairro relativamente distante de tudo, é que tenho dado a devida atenção.
O que sempre me deixou “p” da vida aqui é a falta de acesso a uma centena de coisas. Lembro-me que minha mãe sempre levou a mim e a meu irmão mais novo a museus, teatros, shows, quando ainda morávamos em São Paulo, e ao estabelecer moradia em Maringá, achei que continuaria tendo acesso a tudo isso. Não que não exista isso por aqui, mas o que existe é limitado.
Em minha opinião o que há de melhor na cidade é o festival anual de música, onde se reúnem artistas de todo o país para mostrarem sua arte. Seria maravilhoso se o festival não acontecesse num lugar tão longe, e se por vezes não fosse necessário andar alguns quilômetros a pé para voltar de lá, pois o último ônibus de volta para a “civilização” sai de lá as 23:10h.
Em geral, o preço dos espetáculos são totalmente incompatíveis com a renda da maioria dos trabalhadores da cidade, assim como os horários, os locais e a falta de divulgação decente.
Agora que moro muito mais longe do centro da cidade – onde se tem um pouco mais de acesso ao que acontece por aqui – percebo uma série de problemas no pensamento das pessoas que acabam ampliando a “exclusão” dos bairros.
Buscando um filme* no último fim de semana, ouvi tantas desculpas para a falta dele, e até o total desconhecimento do mesmo que foi impossível deixar passar em branco.
O dono de uma locadora me disse que nos bairros as pessoas não locam filmes que não falem sobre violência e sexo. “Filme inteligente em bairro não pega. Eu até gostaria de ter outras coisas, mas bairro é assim”. Essa foi a bela frase.
E realmente, procurar filmes que saiam da ótica hollywoodiana, os ditos filmes Cult tem sido uma árdua tarefa.
Olhando de longe e sob uma ótica parecida com a do dono da locadora poderíamos ver um amontoado de gente morando em lugares teoricamente mais barato, e não obstante excluídos do centro (cultural, educacional, social) da cidade, seriam considerados um bando de gente burra, que não gosta de pensar, que não quer pensar, que não sabe pensar. (O triste é que esse pensamento reducionista/etnocêntrico não é característica do dono da locadora do bairro. Ao contrário, está presente em inúmeros comerciantes que mantém estabelecimentos no local, bem como por pessoas que residem, comercializam, estudam etc no centro.)
Olhando com um pouco mais de cuidado (de perto) poderíamos sugerir que esses filmes – por exemplo – não são procurados simplesmente porque ao residir num bairro mais distante, as pessoas, em geral, são automaticamente excluídas de uma série de informações, como o da existência de tal ou qual filme, livro, evento…
O não acesso à informação, à educação, a permanente idéia de que essas pessoas não entenderiam coisas assim, cria um círculo vicioso de negação do acesso e de comodismo por quem não obtém a informação. Uns defendem que certas pessoas não entenderam isso ou aquilo, outros acreditam que não entenderão mesmo e, portanto, não buscam tal informação
Com relação ao filme, se ele estivesse disponível para ser visto, para se ler o conteúdo e então decidir se leva ou não, talvez a idéia de que “bairrista não pensa” fosse diferente. Ao negar o acesso a inúmeros dados quem os detém escolhe pelo outro o que este tem direito ou não de saber, de gostar, de querer.
É a velha luta pela posse do conhecimento.
E enquanto se acreditar que “sempre foi assim mesmo”, que “não acho que posso ter entendimento”, que “isso é coisa de universitário”, que “não vi porque é coisa de estudante/ intelectual/ rico” não haverá grandes mudanças. Seremos ainda meio dúzia de gatos pingados brigando com o dono da locadora por este ou aquele filme, que ele inclusive acha que não vamos gostar/ entender, afinal moramos em bairro…
*O filme procurado era ‘Quando Nietzsche chorou’ baseado no romance homônimo de Irvin D. Yalom e só foi localizado em uma única locadora no centro de Maringá.

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