Sobre o tempo.


Outro dia ouvi uma discussão sobre o ócio produtivo. O que me deixou indignada a ponto de ousar dar a minha opinião, é que o defensor da não existência de qualquer produção nesse período chamado ócio, não faz outra coisa da vida além de estudar. Pois bem, disse eu, antes de voltar a trabalhar eu tinha tempo para sentar e escrever, para ler – na verdade, devorar meus livros – para brincar com meus gatos, para fazer tantas coisas que hoje, somente de pensar nelas, já me sinto cansada.
A conversa em si não foi interessante, o indivíduo não aceita qualquer argumentação, e eu simplesmente prefiro me ausentar a gastar minha saliva com discussões como essa. Afinal, eu termino sempre achando que, ou as pessoas são estúpidas demais e não valem meu tempo, ou que eu estou complemente louca.
Nenhuma das duas alternativas tem um quê de bom, mas é assim que acabo pensando. E esse pensamento me leva a muitos outros, como sobre o meu egoísmo e meu etnocentrismo. Mas isso ficará para um outro feriado, quando eu puder exercitar o ócio produtivo.
A questão de hoje é essa vida cretina que alguns de nós levamos, ou pela qual nos deixamos levar.
Sempre defendi que era muito possível estudar e trabalhar. Até porque desde que comecei a trabalhar não deixei de estudar. Mas quando fiquei sem trabalhar pude perceber a imensa diferença – ao menos para mim – na produção.
Eu lia tantos livros e tinha tanta vontade de escrever que fiquei verdadeiramente maravilhada.
Há pouco mais de um mês voltei a trabalhar. E junto com o trabalho recomeçaram as aulas na universidade. Não que eu tenha deixado de ler etc. Consigo dar conta de tudo como sempre, mas percebo uma mudança drástica no ritmo. Os milhões de livros reduziram-se aos poucos textos das aulas, os textos agora são escritos em dias como hoje: feriado em que estou em casa.
Qualquer tempo livre que tenho me parece uma oportunidade única de descansar e não de usar para as coisas que me deixam livre, feliz.
Outro dia me dei conta que não cantava mais a não ser no caminho de ida e volta do trabalho, onde mexo os lábios no ponto de ônibus. Não escrevia mais, porque me sinto tão cansada que sair da cama e sentar para escrever parecia um sacrifício desnecessário. Livros? Acumulam-se.
Me dei uma noite pra cantar e acordei exausta no dia seguinte pensando: “se não tivesse feito isso, teria dormido cedo e, portanto, não estaria tão cansada”. Isso é horrível.
Uso meu horário de almoço pra ler e discutir coisas legais sobre as aulas. Uso meus fins de semana pra reler algo ou para não acumular nada para a semana que vai começar.
A discussão de outro dia me fez ver o quanto o ócio é produtivo. O quanto eu produzo se não trabalho.
A verdade é que nunca gostei de trabalhar. Me mato o mês todo pra receber uma porcaria de salário que serve pra pagar as contas, e olhe lá. Não me sinto nem um pouco mais útil, feliz, ou realizada com isso, ao contrário de muitas pessoas que conheço. E percebi que a questão não era o trabalho que eu tinha, era e sou eu.
O que me dá vida é o que está em outro lugar, que até hoje não me deu dinheiro, mas é algo que dinheiro nenhum do mundo pode me dar: satisfação.
É com imensa felicidade que inicio e termino um livro, que escrevo um texto, que não durmo para discutir política, religião, gênero, conhecimento, vida…
Então, depois de falar e falar e falar, penso se tudo isso não é culpa de minha má administração do meu tempo. Se não é minha imensa repulsa pelo universo do trabalho que me causa essa infinita desordem. E minha conclusão é a mesma desde o primeiro dia de trabalho: não nasci pra essa vida!
Não quero acordar cedo pra ganhar dinheiro pra alguém. Não quero acordar cedo porque essa é minha obrigação. Não seguir essas regras. Quero fazer meu tempo, quero administrar meu dia de forma que ele se torne uma coisa que me dê prazer, que me deixe efetivamente contente, e onde eu consiga ver algum resultado, ainda que seja exclusivamente para mim. E isso, para mim, parece incompatível com o fato de eu trabalhar.
Meu tempo. Esse tempo que pede mais do que tem. Pode ser que amanhã eu olhe e pense que eu só estava numa fase besta da vida, mas confesso que há pelo menos dez anos espero por esse dia, e a única coisa que muda é o tempo: um pouco mais velha, um pouco mais tarde. Um ponteiro.
O desejo de pular fora dessa roda nunca mudou. O desejo de estudar – formal e informalmente – o dia todo, a semana toda, o mês todo, a vida toda, continua. E olha que estudar dá um baita trabalho. O cansaço resultante deste trabalho não passa com uma boa noite de sono, não passa no feriadão, no fim de semana. Bem como as alegrias produzidas por ele, que também não passam…
E, ao fim de cada mês, o resultado dele não se vai nos balcões de pagamento.
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Um pensamento sobre “Sobre o tempo.

  1. damassa disse:

    Cada coisa a seu tempo. É óbvio, que a sua vocação é a sala de aula, como aluna e como professora. Acho que ai, as duas coisas se completam e “te” completam.Mas…cada coisa a seu tempo. O trabalho é necessário, sempre foi e sempre será. Mas, como diz uma frase que li certa vez: “Descubra o que realmente gosta e não terá de trabalhar um único dia na vida”.Taí o segredo de tudo: Fazer o que gosta.Cada coisa a seu tempo. Enquanto o que te dá prazer não lhe dá também o próprio sustento, você tem de se virar fazendo o que não gosta. E o que te mantem firme é a certeza de que isso é por pouco tempo, até que seus objetivos maiores sejam alcançados.

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