Sétimo dia

Há uma semana eu perdia meu bebê José Emílio. Uma dor que continua latejando em meu peito.

José Emílio chegou em casa muito debilitado, às vésperas do carnaval de 2013. Era o menor dos três irmãos resgatados. Todos diziam que não aguentaria. Era muito pequeno, nem conseguia comer ainda. Fraco, apenas lambia o patê. Cheio de sarjosebebenas e pulgas, demorou mais que os irmãos para se curar. Foi confundido com uma menina, e seu primeiro nome foi Sofia.

Ele foi crescendo, ficou completamente curado e acabou sendo adotado. Ele tinha cara de hominho e assim, seu segundo nome foi Enk. Marcio, meu companheiro, foi quem escolheu o nome. Eu não gostei.

Nesse mesmo período, Valentina Alexandra veio morar comigo. Como ela e a Pandora não se deram bem, e como eu havia adotado o irmão de José Emílio, o terrível Joaquim Miguel, ofereci a troca a Marcio: ele ficaria com a Valentina e eu com o Enk, que desse dia em diante passou a se chamar José Emílio, ou como eu gostava de dizer: Xuxé Milho.

O reencontro dele com o irmão foi a coisa mais fantástica do jojomundo: correram, brincaram e não se separaram mais. O que me fez chorar por tê-los separado, ainda que por cerca de um mês apenas.

Joaquim sempre foi elétrico, maluco, meio bruto nas brincadeiras. José era o contrário. Embora brincasse muito, corresse e escalasse a casa, era sempre doce. Adorava dar cabeçadinhas na gente, sentava ao nosso lado e ronronava baixinho. Sempre se jogava em cima dos outros gatos em busca de uma lambidinha e de dormir abraçadinho.

Todos viviam tranquilos com ele. Às vezes ele levava um cascudo por ser confundido com o irmão rebelde, mas no geral estava sempre abraçado pelos gatos, sempre feliz e brincalhão.

borisjoseQuando o Otávio Cototo Augusto chegou em casa, José Emílio resolveu adotá-lo e os dois tornaram-se os melhores amigos. Onde estava um, lá estava o outro. E, de madrugada, os dois tentavam derrubar o mundo correndo de um lado para o outro, derrubando as coisas, brincando sem pararcojoj. Dormiam abraçados, comiam juntos, se assustavam juntos, se lambiam o tempo todo e buscavam os mesmos lugares pra brincar e dormir.

José Emílio adorava a fonte de água. Adorava beber leite e derrubar metade pra fora do potinho. Comia parecendo um trator. A gente costumava chamar ele de Zé Patrola. Sempre pensei em filmar a forma como ele comia, mas nunca o fiz.

Era muito engraçado. Ele abria bem a boca e com a parte de baixo ia “varrendo” o potinho de comida, catando o máximo de comida possível, igual uma pá carregadeira.

Nesses dias de chuva é impossível não pensar que ele estaria se divertindo horrores correndo no pátio, escorregando e vindo pra cama todo molhado, tentar se secar um pouco pra voltar pra bagunça.

Ele não tinha um brinquedo preferido. A brincadeira dele era correr desembestado pela casa, subir nas coisas, pular feito um louco e quando aquilo o cansava, buscava o teto do guarda-roupa ou algum outro esconderijo para poder descansar. Ou então, vinha até mim pedindo carinho. Com suas cabeçadinhas, se esfregando sem parar, dando narigadas na minha cara…jose1

José Emílio nunca reclamou de nada. Foi bem por acaso que descobri seu problema urinário.

Eu estava lavando roupa e vi que ele estava na caixa de areia e cavava sem parar, agachava e não saía nada. O alerta estava dado. Fizemos seus exames e lá estavam as pedras na bexiga que o impediam de fazer xixi.

Agendada a cirurgia ele foi operado e tudo correu bem. Quando ele voltou pra casa, com sonda, me deu vários sustos. Mas se recuperou rápido e num instante estava brincando de novo com os irmãozinhos e pedindo carinho.

Ele se comportou muito bem, tanto com o “capacete” quanto de fralda. Ao invés de rasgar a fralda, como era esperado, ele andava pela casa com o seu rebolado engraçado e brincava normalmente.

josecapacete

Então minha casa foi arrombada, e ele voltou a piorar. Estava extremamente assustado, mesmo eu ao me aproximar dele, o deixava apavorado, a ponto de ele fazer xixi no lugar, de tanto medo.

Na sexta feira, dia 29/04 em que fomos tirar os pontos da cirurgia, vi que sua barriga estava avermelhada. A veterinária disse que possivelmente era uma hérnia e que assim que ele se recuperasse completamente da cirurgia na bexiga, teria que fazer outra.

josedefraldasNa madrugada do dia 30/04 ele, de alguma maneira, “se cortou”. Acordei antes das seis da manhã e vi sangue. Acendi a luz e lá estava meu bebezinho eviscerado. Corri com ele para a veterinária onde ele passou por uma cirurgia de emergência.

José Emílio passou bem pela cirurgia, se recuperava bem e na segunda feira dia 02/05/2016 viria passar a noite em casa para dar uma animadinha.

Fui busca-lo pouco antes das 17h. Mas ele havia entrado numa crise. Sua temperatura estava baixando. Fiquei com ele no colo o tempo todo. Ele ficou vestido com o roupa cirúrgica, uma outra roupa de soft por cima, enrolado num cobertor, com duas bolsas de água quente e próximo a um aquecedor. Duas horas depois sua joseemilio02-05-16temperatura tinha subido muito pouco. Então ele perdeu a consciência. Recebeu mais medicamentos e começou a voltar. Ouvi sua respiração estranha e a veterinária correu para fazer respiração e massagem nele. Ele perdeu as forças. Foi levado às pressas para a sala médica mas não resistiu. Embolia pulmonar, mais parada cardiorrespiratória  levaram meu bebê para o outro lado do arco-íris, onde moram todos os anjinhos de quatro patas. Meu denguinho que tinha só três anos se foi.

Todo dia sinto sua falta. Todo dia ao chamar os meus filhotes, me pego incluindo o Xuxé na lista. Sinto falta do sexto prato. Sinto falta de ouvi-lo bebendo água na fonte, de vê-lo correndo pela casa com o Cototo, de senti-lo subindo na cama pra me dar cabeçadinhas.

Sei que agora ele está tranquilo e feliz, sem dor, sem medo. Mas sinto demais a falta dele. E ainda hoje, sete dias depois da sua partida, choro. E sofro mais ainda, pois quando entraram em minha casa e levaram minhas coisas, levaram também centenas de fotos de meu José Emílio, fotos da gente juntos, fotos dele feliz e saudável.

Agora ele vive em meu coração e memória.

Meu anjinho, sempre te amarei. Saudades eternas de você! Fique bem.

 

 

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Um pensamento sobre “Sétimo dia

  1. Cristina disse:

    Que pena! Imagino como vc deve estar triste, é muto ruim ter que dizer adeus a quem amamos, força, infelizmente amar tbm tras dores.

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