A quarta noite

A primeira noite foi toda em claro. Se dormi quarenta minutos, foi muito.

Ao deitar, perto da meia noite, percebi meu bebê agitado e fazendo coisas que não tem o hábito de fazer. Motivo pra preocupação. Estado de alerta máximo. Estava certa. Ele não tava bem.

Passei a noite massageando o pelúcio, medindo temperatura, levando na caixinha de areia.

No dia seguinte ele foi internado para tomar soro.

Na segunda noite, já com Boris em casa, acordava a cada miado diferente, a cada mordidinha em minha mão que tinha o propósito de avisar que algo continuava ruim.

Medicamento, massagem, conversa, carinho. Umas três horas de sono. Tava no lucro, já.

O dia foi longo. Véspera de Natal, tudo fechado, tudo fechando.

Ninguém devia ficar doente nesses dias. E, pra ser sincera, em nenhum outro dia do ano. Mas em feriados o coração fica na mão. O que fazer? A quem recorrer? Como? Pra surtar é um passinho só.

A terceira noite foi difícil. A falta de sono, de reflexos, de domínio sobre o corpo. O esquecimento virou algo absolutamente normal: levanto para pegar comida, dois passos depois “por que me levantei?”. Mas vou seguindo.

O bacana é que Boris tem essa coisa especial de me avisar o que há de errado. Deitamos pra dormir normalmente. Meu cansaço era visível. E no dia seguinte ainda teríamos visitas. Mas ele precisava me alertar.

Às duas horas da manhã ele me acordou. Miou, mordeu de leve minha mão. Acendi a luz. Ele correu para a caixa de areia. Fez força. Nada. NADA. Mais força e nada. Olhou para mim: “viu, mamãe? Não sai nada”. Aquilo dói. Nele, fisicamente. Em mim, tanto que posso dizer que o corpo sente juntamente com a alma.

Mais horas de massagens, colo, água na mamadeira, patê na seringa. Das 5:40h às 6:30h consegui dormir com ele a meu lado. Sabíamos que o caminho era o veterinário.

Visitas vieram e se foram. E corri para a clínica. Meu filhote ficou internado. Cálculos na bexiga. Intestino preso. Um pouco de gordura no fígado. Mas o que pode ser feito, o foi.

Vim para casa sem ele nos braços. E sem o coração no peito.

Deixá-lo pra trás é uma das coisas mais horríveis do mundo. A cabeça não descansa mais. O corpo reage com dores por todas as partes. Tento dormir e não consigo. Invento outras coisas para fazer. Faço de qualquer jeito, não consigo me concentrar nem nada.

Já de noite, bem tarde, tomo um banho quente, tomo um chá com um relaxante. PRECISO dormir. Sei que meu bebê está sendo cuidado.

O sono demora a vir. Mas vem.

E a quarta noite começa com um musical. Musical nervoso, afiado (e por que não, afinado?). Um musical pelos 4 cantos da casa. Era o outro filho fazendo serenata. Joaquim miando descompassado. Pego no colo, fica em silêncio. Até me lambe. Deita quietinho e chega a ronronar, coisa rara nesse gato verde.

Dois segundos depois, miação de novo. Chama os outros pra brincar, derrubam coisas, correm e Joaquim mia mais.

Foram muitas mais horas de sono, é verdade, mas um sono picadinho.

E agora? Cansada, com um sono anormal. A meu lado os pelúcios dormem. Joaquim especialmente. O danado chega a suspirar. De certo imaginou que passar madrugadas em claro era minha nova distração.

E já são quatro noites. Achei que só seria capaz de sobreviver a isso na juventude. Mas eis-me aqui. Sentada, sem conseguir dormir, olhando os meus filhotes relaxados e esperando que Boris volte logo pra casa e tenhamos todos uma bela e merecida noite de soninho reparador.

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