Gratidão

Este talvez seja um texto longo. Se estiver com pressa, aconselho que não o leia. Mas aviso, pra agradecer não se pode ter pressa.

E é sobre agradecimento que este texto vai falar.

2015 foi um ano difícil. Em duas ocasiões distintas achei que perderia meus amores Boris e Pandora. Ambos ficaram muito doentes e senti a presença do adeus. O medo de não ter mais meus peludos andando pela casa, destruindo as coisas, pedindo carinho me deixou em pedaços.

Em 2015, também Joaquim adoeceu. Não tão gravemente, mas ainda assim, o suficiente para me deixar maluca.

Jorge, emagreceu horrores, sem que houvesse algum motivo.

Para uma gateira apaixonada, mãe de seis lindos felinos, isso é o bastante para enlouquecer, afundar em tristeza e não ver beleza nenhuma no mundo. Toda a beleza que eu desejava se resumia à saúde de meus filhotes.

Também havia o trabalho e o mestrado. Ambos me enlouquecendo por motivos diferentes. Parece que tudo aconteceu de uma vez só. Parecia que tudo vinha de uma vez e com toda força.

No tratamento de meus filhos fiz o que pude, parcelei milhões de coisas, peguei todo o empréstimo que me foi possível, estourei o cartão de crédito. Roupas? Nem olhava. Comida? Só o essencial. Confesso que fico cega nessas horas. O que eu puder fazer, faço. E mesmo quando racionalmente parece algo que não posso, faço também.

Mas aí, como era inevitável, as fontes foram secando. Não havia mais de onde tirar para manutenção dos medicamentos do Boris e alimentação especial da Pandora. Ele, paciente renal, ela com megaesôfago – condição rara em felinos.

Boris toma um medicamento três vezes ao dia. É tranquilo. Ele já acostumou e embora faça cara feia e fuja de mim às vezes, é fácil medicá-lo.

Já Pandora é um caso mais delicado. A primeira providência foi elevar os pratos da casa, para que a gravidade a ajude a empurrar a comida para o estômago, coisa que ela já não consegue mais fazer sozinha. Ela tem se recusado a comer a ração seca e para que não entrasse novamente em lipidose hepática e nem morresse de fome era preciso alimentá-la com um patê especial. E caro.

No começo ela era alimentada várias vezes por dia, mas chegou uma hora em que precisei racionar a comida dela. Diminuindo a quantidade e as vezes em que dava patê para ela, fazia com que uma latinha durasse mais e, embora pareça absurdo, podia alimentá-la por mais tempo.

E fora isso, havia a dívida na clínica veterinária. O medo era de que os meus bebês precisassem novamente de cuidados e internamento. O desespero batia à porta.

Então algumas amigas sugeriram: “por que você não faz uma rifa?”

Excelente ideia, mas rifar o quê?

Por mais que que eu pensasse não conseguia imaginar algo. Minhas coisas são velhas, usadas. Não tenho talento algum para fazer bonecos, casinhas ou coisas bonitas. E então?

Bem, então a mãe de uma amiga, sabendo da história se ofereceu para doar uma cafeteira que eu poderia rifar. E assim foi feito.

Com ajuda de amigas, montei uma rifa online. A ajuda chegou imediatamente! Mal havia postado a rifa e muitos números foram vendidos. E mais! Houve doações. Pessoas que não quiseram comprar a rifa, só ajudar. E mais ainda. Pessoas que não podiam ajudar comprando a rifa mas que compartilharam muito a rifa da Pandora para que mais pessoas a vissem e ajudassem. Foi incrível!

Algumas vezes me peguei chorando na frente do computador com as inúmeras mensagens de carinho, apoio, ideias enfim, um monte de gente, a maioria que nunca vi pessoalmente, ajudando.

Lembro-me de ter, dias antes, dito que a fé na humanidade havia acabado. Que só se via horror e ódio. E a rifa da Pandora veio pra dar uma sacudida nisso.

A ajuda veio de todo canto: gente do sul, sudeste, norte, nordeste, centro oeste. Dá pra acreditar numa coisa assim? Gente do país todo ajudando uma louca que tem uns gatinhos velhos e dodóis? Pois é. Chega a arrepiar e a novamente me deixar com os olhos cheios de lágrimas. São coisas assim que nos fazem pensar, por os pés no chão, deixar a cabeça nas nuvens e o coração cheio.

Nunca imaginei passar por uma situação assim. Sempre que via as rifas de ajuda na internet, pensava em como devia ser dura a situação da pessoa. Toda vez que pude, ajudei. E agora, quando foi minha vez de precisar, muitos me ajudaram.

As palavras de apoio, de carinho. O tempo lendo sobre o que havia acontecido. As pessoas que queriam saber como estava minha família felina. As pessoas que compartilharam o link da rifa. As pessoas que compraram a rifa. As pessoas que doaram. Não há palavras para agradecer, para explicar meu sentimento.

Nem se eu tivesse braços imensos, capazes de abraçar a todos, eu daria conta de demonstrar toda a minha gratidão a essas pessoas.

Nem que eu soubesse todas as palavras de todas as línguas do mundo eu seria capaz de dizer o quanto essas pessoas foram e são importantes para nós.

Quero sim, agradecer de coração, de todo meu coração, tudo o que fizeram. Todo o carinho, preces, tudo mesmo. Mas sei que me faltam meios para isso.

De toda forma, registro que para cada uma dessas pessoas, destinei um pedacinho do meu coração. Que cada vez que vejo Pandora e Boris por aqui, andando pela casa, vivos, eu lembro de cada um que me acolheu. Cada vez que brigo com Joaquim por ser malvado, que converso com Jorge para que ele coma mais, eu devo isso a vocês.

Cada vez que Otávio Cototo e José Emílio derrubam tudo por aqui, é graças a cada novo amigo que, de alguma maneira, ajudou minha família a se manter completa. E isso, de verdade, não há como pagar.

Esse texto era só para isso: expressar de alguma maneira possível, toda a gratidão que sinto. Para dizer que sim, é possível acreditar num mundo melhor. Porque apesar de todo o horror e ódio que vemos, há muito mais amor, carinho, respeito, amizade, compaixão e fé por ai.

 

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4 pensamentos sobre “Gratidão

  1. bianovavida disse:

    Amamos vc e sua linda família! ❤ E, como postei esses dias no Facebook, a gratidão é uma escolha – escolha dos corações trabsbordantes de amor, como o seu… Bjs mil❤

    • bianovavida disse:

      Amamos vc e sua linda família! ❤ E, como postei esses dias no Facebook, a gratidão é uma escolha – escolha dos corações transbordantes de amor, como o seu… Bjs mil❤

  2. Cristina disse:

    Que linda a. Sua história, hj mesmo estava comentando com a minha filha como é importante a gente ser grato, primeiro a Deus pois tudo vem dele e tbm as pessoas que estão ao nosso redor, que embora tenhamos que sempre fazer o bem sem esperar nada em troca como é bom quando encontramos pessoas que sabem ser gratas.

  3. Annony disse:

    Você é muito preciosa e querida, apenas teve a ajuda que merecia. Humildade e gratidão são qualidades, infelizmente, de poucos, parabéns por tê-las e por ser uma mãe amorosa e dedicada; saiba que me orgulho muito por ser um dos seus contatos mesmo que virtuais. Sinto muito ter estado ausente na internet nos últimos tempos e não ter sabido, nem podido participar da campanha – confesso que já tenho uma cafeteira há anos e ela incrivelmente ainda não foi usada! Mas acredito que uma pequena colaboração, mas com afeto, ainda possa ser feita, certo? Parece que sei como encontrar seus dados pelo facebook. Sucesso e amor pra você e muita saúde para seus filhotes amados! Muitos beijos!

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