Gente ou pessoa

Tenho um amigo que tem um blog chamado Pessoa Gente Humana. Adoro esse título. Acho sensacional. Assim como o blog. Mas o título me encanta por me fazer lembrar de uma coisa da minha infância.

Certa vez estava eu a tagarelar com a minha mãe, quando fiz um comentário que até hoje nos arranca risos. Disse eu: “Mãe, quando eu crescer eu vou ser pessoa, porque criança é gente, né?”

Para mim, ser pessoa era ser adulto. Talvez por ouvir os adultos se referirem uns aos outros como “aquela pessoa”, especialmente quando não queriam que ouvíssemos. Sabe como é, criança adora contar as coisas por aí. E eu, que sempre falei mais que a boca devia ser um perigo e tanto!

Até hoje quando me recordo dessa fala tão ingênua, dessa ideia de que a criança não é uma pessoa, não uma pessoa de “verdade”, sinto uma infinita ternura por aquela coisinha pequena, magrela e tagarela que fui. E, com um pouco de dor, vejo o quanto dela se perdeu de quem sou hoje.

Aos 34 anos, às vezes acho que sou velha demais. Não na idade, que não sou paranoica a esse ponto, embora adore brincar com isso. Velha no sentido de estar cansada de discussões, de estar cansada de levantar todos os dias e cumprir, mecanicamente, as obrigações do dia. Cansada de esperar ansiosa o horário de botar os pés em casa, no fim da tarde, pra brincar com meus gatos, pra brigar com eles, pra esmagá-los num abraço.

Velha para me pegar sonhando com uma vida que invento e reinvento todas as noites, depois de apagar as luzes. Velha para rir das bobagens que invento, vejo, descubro.

Outras vezes, mesmo aos 34 anos, me questiono, verdadeiramente, como é que nessa idade consigo ser tão imbecil. Imbecil num sentido cômico: desastrada, “viajada”, toda descabelada. E me parece que essas três décadas não me pertencem. Que alguém, em algum momento, forjou esses documentos que dizem serem meus. Que na verdade eu devo ter algo em torno de 12 anos. Os meus 12 anos. Quando a vida era inventar uma vida e rir dela.

Mas eu tenho 34 anos. E pelo visto consigo me lembrar de boa parte dos anos que correram. Pode ser, então, que eu tenha mesmo vivido tudo isso. E, apesar de ouvir que deveria ser mais “madura”, “equilibrada”, agir como “uma mulher da minha idade”, seja lá o que isso signifique, eu gosto de ser eu. De ser destrambelhada.

E toda vez que lembro da minha ideia de pessoa e gente, eu torço pra ser pra sempre gente. Afinal, como disse o Caetano, gente é brilhar, não pra morrer de fome.

 

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