Da pesquisa

Dureza é dar sequência a uma pesquisa. Enquanto está tudo no mundo das ideias, enquanto é a leitura o guia dos dias, tudo parece tão fácil! Tão prazeroso! C360_2015-03-29-11-28-21-955

Culpa disso talvez seja da famosa ideia de que o trabalho é objetivo e de que nada se mistura: a vida da pesquisa/ do pesquisador, parece completamente descolada da vida pessoal, do cotidiano de quem faz a pesquisa.

Não é de estranhar que os diários de Malinowski tenham causado tanto furor, quando de sua publicação. Menos mal para ele, que já tinha ido dessa para uma melhor…

Mesmo alguns trabalhos mais recentes parecem fazer crer que tudo se passa como numa vida paralela, como se fosse possível vestir a camisa de pesquisador e deixar para trás, ou para escanteio, todas as demais vivências. Ou como se fosse possível escolher as vivências que serão “úteis” na pesquisa. A gente também gosta de se iludir com isso.
Um dia, quando a pesquisa sai do papel, da cabeça, quando é preciso botar a mão na massa, no teclado, cutucar o que leu, aprendeu, imaginou, inventou, acreditou… e tornar real aquilo tudo (ou algo parecido com o que seja o real) é que o mundo parece desabar. Mais medonho que a queda das torres gêmeas.

O contato com as pessoas que outrora parecia tão divertido, se torna tenso. As perguntas ficam presas na garganta, tal qual o nó que fica ali, na mesma garganta, esperando o grito de libertação.

O choro é de raiva. É de medo. É de frustração. É de dor, muitas vezes.

São horas intermináveis, sentada numa só posição a ler, analisar, transcrever, escrever.

O tempo parece não passar. Ou passa rápido demais  e os prazos que pareciam tão distantes chegam como pragas, vermes devorando a carne.

Onde li isso ou aquilo? Onde anotei aquela informação? De repente, tudo parece confuso e idiota. Como pude crer nisso? Como foi que cheguei a esta conclusão, quando…?

É um período de solidão forçada, necessária, medonha. É um tempo onde um cigarro, um relaxante muscular, uma piada besta são tônicos revigorantes.

Os gritos, o ódio. Tudo se mistura. Tudo é enervante. Ao término de um capítulo – um artigo, um trabalho, uma análise, ou que seja – o desejo de que o mundo se acabe é enlouquecedor.

A pesquisa pode ser gostosa, divertida, prazerosa, eu sei. Nem tudo é espinho. Mas existe esse lado obscuro, esse quê de loucura, que ainda precisa ser exposto, digerido.

Enquanto isso, eu vou remoendo minhas paranóias. E tento superar essa fase comendo doces e porcarias. Nem tudo precisa ser só drama, afinal.

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