Recuperação

Fazemos escolhas para nossa vida o tempo todo. Certo? mais ou menos. Algumas coisas não são escolhidas por nós. psiquiatriaE é nessas escolhas – feitas por outros para nós – que aceitamos coisas que nem sempre nos farão bem. Algumas nos farão muito mal, aliás.

Há muitos anos fiz uso, pela primeira vez, de antidepressivos e moderadores de humor. Sim, eu sou antipática, estressada, mal humorada e muitas vezes as dores da vida parecem mais fortes do que eu penso ser capaz de suportar. E, por vezes, me deixei iludir por uma solução que parecia fácil demais.

Entretanto, fazer-me dependente de algo foi sempre uma situação que me apavorou.

Uma vida que parece besta demais, sonhos que não se realizam, trabalho exaustivo e sem reconhecimento, maldades que se vê por aí. Tudo isso vai se juntando de uma forma que não sabemos como lidar, ou achamos que não sabemos.

Esse ano, após 3 anos de uso de um medicamento para depressão e outro para moderar meu humor – sem contar as outras 3 vezes anos atrás – decidi parar com isso. Largar o controle medicamentoso de minha vida e tentar assumir as rédeas da coisa.

Sabia que seria difícil, pois das vezes anteriores também foram. Só não imaginava que seria pior que as de outrora.

Com pouco mais de 36 horas de abstinência de sertralina (o topiramato eu larguei antes e “só” sofri com a insônia), passei a acumular horas e horas de mal estar, de variações absurdas de humor, de não capacidade para estudar ou ver coisas em movimento. Barulho, qualquer que fosse, era insuportável. Ouvir música passou a ser uma tortura!

Ânsias de vômito, irritação gastro-intestinal, visão embaçada, tremores e suores, insônia ou sono repentino, tudo isso acontece em poucas horas. Há semanas!

Dia 24 de abril foi meu último dia de medicamento psicotrópico e desde então tenho me sentido péssima. É como se a saúde tivesse ido embora com o último comprimido. A vontade de chutar tudo pro alto e voltar às “drogas” é imensa.

Tenho visto diversos documentários – desde que a tontura e a ânsia de vômito associada à imagens e sons diminuiu. Todos são alarmantes! Todos nos mostram como a psiquiatria pode ser cruel! E reflito sobre como a minha vida deixou de ser minha para “pertencer a um laboratório”.

É triste e assustador.

É revoltante.

É medonho!

São três semanas em abstinência e os sentimentos são os mais controversos, com uma intensidade espantosa. Por qualquer coisa quero chorar. E é qualquer coisa mesmo, como por exemplo pensar nas pobres batatas sendo colhidas para serem jogadas numa panela de óleo fervente!

Consigo perceber essas alterações e o absurdo delas. Consigo verificar a relação entre estar sem o medicamento e os atos meio sonâmbulos, a não coragem de fazer algo, o mal estar constante. Mas tenho realmente a percepção de que isso é o melhor a fazer.

Há dias que vinha analisando a questão e pensando em escrever sobre, mas para além do mal estar associado à tarefa de ficar na frente do PC, escrevendo e ouvindo o som das teclas – o que na atual situação é enervante e causa ânsias – existe o fato de pensar nas pessoas que tomam medicamentos, que estão bem com eles.

Primeiro que, desde sempre – pelo menos desde que tomei meu primeiro antidepressivo, mais de uma década atrás – eu desconfio do quão bem esses medicamentos podem fazer. Depois por ter medo de as pessoas acharem que esse também é o caminho delas e o seguirem e acontecer algo muito ruim com elas.

Não! Não quero isso de forma alguma. Quero apenas registrar meus passos. E não tem sido fácil.

Tenho, por exemplo usado dramin todos os dias se quiser sair da cama e não vomitar a ver meus gatos correndo ou miando, ou se quero tomar café, ou se quero ler. Se não, posso ter certeza de que ficarei estatelada na cama o dia todo passando mal.

Minha esperança era de que esses sintomas durassem cerca de uma semana, ou duas, como das outras vezes. Entretanto, estou indo para a quarta semana com pequenas melhoras. Já consigo ver um documentário inteiro, ou ouvir música, sem que meu estômago queira sair do corpo, ou sem parecer que meu cérebro está derretendo.

Ainda assim, é difícil e preciso de muita força para fazê-lo. Para fazer qualquer tarefa é preciso mais vontade, mais determinação que sempre!

No fim, espero, estarei limpa de novo e comandando minha vida, podendo escolher CONSCIENTEMENTE os rumos de minha vida. Reagindo de verdade à vida. Porque uma das coisas que o medicamento me roubou foi a capacidade de viver. Tudo se torna automático e frio. Não se sente mais a vida de verdade. E isso é tão horrível, tão embrutecedor, que viver se torna realmente um fardo.

É claro que ando tensa, cansada e com vontade de ficar em silêncio, parada e de olhos fechados. Mas também sei que esse é o preço pago pela utilização de medicamentos altamente viciantes, e que, ao fim e ao cabo, trazem mais danos que benefícios.

Vejo que precisamos aprender a guiar os nossos passos. Precisamos encarar que a vida não é um mar de rosas, mas também não é o inferno que tentam nos vender. Rir e chorar, bom ou mau humor, alegrias e tristezas, são sentimentos que nos dão a capacidade de sentirmo-nos vivos, participantes de algo maior. E anular tudo isso é um passo para a desumanização. É o que penso.

E fico feliz quando sei que não estou sozinha, que tem pessoas que também acreditam nisso, que há médicos que apoiam e acompanham esse momento tão pesado da vida: a escolha por tomar as próprias decisões, ciente das dificuldades que isso envolve.

E mais que tudo, sou grata a meu companheiro por me aturar nesse período, por apoiar minha decisão e por me apresentar diversos estudos e documentários sobre toda essa maluquice.

Também a meus gatos, tadinhos, preciso agradecer, pois há dias em que um simples miado parece entrar na minha cabeça como se fosse o furacão Katrina… No entanto, eles estão sempre ali a meu lado, com seu carinho incondicional.

Por fim, só peço que o tempo voe bem depressa para que eu possa finalmente me considerar viva de novo e não uma simples sobrevivente nesse mar de insanidade que é nossa vida nos tempos de hoje.

A batalha está apenas começando, mas essa guerra eu vou ganhar! E, recuperada, poderei ser eu de novo e para sempre!

 

Dicas de documentários:

1 – https://www.youtube.com/watch?v=dNQGzvJcSwU&list=PLCE292E921FC8E2C9

2 – https://www.youtube.com/watch?v=fWq2a2aHn18&list=PLCE292E921FC8E2C9

3 – https://www.youtube.com/watch?v=P_as-k1ATm8&list=PLCE292E921FC8E2C9

4 – https://www.youtube.com/watch?v=-vR0Sadz530&list=PLCE292E921FC8E2C9

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3 pensamentos sobre “Recuperação

  1. Estupefantemente forte na ventania, Nana?
    Sim? Sim? Olha lá, ein, mulher?!
    Bom, quando você quiser, dê umas lidas no blog da Ana Cerqueira.
    Conhece a ambos – ela e o blog?
    Talvez seja mais alguém com quem você possa e consiga dialogar sobre alguns assuntos em seu favor.
    http://amorpelapsicanalise.wordpress.com/
    Tudo de bom pra você!
    Pra qqr coisa, fala.
    VAMOQUEVAMO!!!
    😀

  2. Olá, nã conhecia nem a Ana e nem o Blog! Obrigada!!

  3. Nem eu, assim como o outro ali que encontrei há meia hora, como o da Ana, ontem.
    Olha, na mesma linha do meu comentário anterior ali (e pra encerrar, antes de eu virar o chato-indicador-de-blogues rs): http://brissoslino.wordpress.com/
    Cheio de coisas interessantes, tbm.

    Manda um xeru pros bigodudinhos e pras bigodudinhas ronronantes.
    Qqr coisa, dá um alô.
    So long!

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