Saudades da vida

Trabalhar com idosos é preparar-se constantemente para a hora do adeus. Embora essa máxima esteja de certa forma implícita em nosso dia a dia, ela não é algo com o que queiramos lidar, não é algo que parece que vai se concretizar.

LAPIDE-EM-LIVRO

Meus colegas de trabalho e eu nos acostumamos a ver nossos velhinhos mês após mês no balcão de atendimento solicitando alguma coisa: seus holerites, informações sobre os processos de aposentadoria, aumento, ou o mais delicado, um pouco de nosso tempo para uma conversa.

Quando um deles não aparece, a preocupação surge, inevitável. Eles, de alguma forma, se tornam membros de nossa família. Ao menos é o que sinto. São como meus avós, os avós que nunca tive. Mas não só. São mais que isso. São amigos, são condutores de passos, são guias por caminhos que trilho, são mãos que me levam por estradas de paciência e humildade, de sabedoria e delicadeza.

Por conta de umas tantas injustiças que ocorrem neste mundo, muitos de meus velhinhos se aposentam com salários vergonhosos, e acabam tendo que procurar outro emprego para conseguir manter a vida. Outros voltam a trabalhar pois passaram a vida toda “treinados” para achar que quem não trabalha é vagabundo, que o aposentado é um peso e um folgado. Essa ideia faz com que muitos percam seus dias em doenças, não possam aproveitar o precioso tempo que lhes resta, nem consigam apreciar a beleza que existe fora de qualquer ambiente controlado pela máquina esmagadora do mundo assalariado. Mas não é sobre isso que vou falar. Embora, de certa forma, essa forma absurda e cruel com que construímos nossa história seja a grande culpada pela perda de inúmeras vidas e pela perda do brilho de outras tantas vidas.

Um de meus velhinhos, a quem durante alguns anos acompanhei, desde a simulação da aposentadoria, ainda durante o tempo em que trabalhava, depois a montagem do processo de aposentadoria e por fim o tão esperado momento de poder se libertar das correias do cartão-ponto, foi engolido pela engrenagem do trabalho semana passada. Ele, que estava feliz por ter conseguido se reinserir no mercado de trabalho apesar de sua idade; ele que ia tão contente nos contar suas andanças; ele que esperava ansioso a próxima festinha que faríamos.

Quando eu soube de sua partida definitiva, ocorrida devido a um acidente de trabalho – no novo trabalho – entrei em choque. “Você não pode se apegar! Os velhos morrem!”, disseram-me.

Eu não sou máquina. Não quero tornar-me máquina. Quero poder sentir. Mas essa dor, esse saber que não verei jamais alguém, dói tanto… Gostaria de evitar.

Naquela quarta feira foram dois de meus velhinhos. Dois amigos que partiram. Um num acidente de trabalho, outro porque o trabalho o deixou tão doente que, ao se aposentar, mal pode fazer outra coisa que não tentar salvar um pouco de sua pouca saúde. Duas lutas perdidas.

Tudo isso serve para dizer que sim, esse mundo está doente demais, talvez em estado terminal. Mas também para alertar que o tempo é curto demais. Que as pessoas são importantes, que merecem o nosso melhor, que talvez o amanhã não chegue e que, portanto, já é chegada a hora de aprendermos a viver… Que sobreviver já não nos basta!

E a saudade está aí, só pra lembrar…

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