Timidez adquirida

Não sei quando foi que começou. Sinceramente, não me lembro mais. Acredito, porém, que tenha sido em algum momento na adolescência. Sim, porque antes disso, eu era uma menininha bem levada e adorava apresentações.

smile evergonhado

Participei de inúmeras exposições escolares, jograis, danças, tudo era um espetáculo e eu acreditava sinceramente que meu destino era ser artista. Atriz, talvez, já que diferentemente de meu pai, não tinha – nem tenho –  nenhum talento pra música.

Um dia, isso mudou.

O primeiro sinal foi a gagueira. Gaguejava em qualquer situação, mesmo conversando com meus amigos e parentes.

Depois da gagueira vieram tremores, dores de barriga, suores infinitos, crises de choro e, por fim, o isolamento. Sim, isolar-me foi a maneira que encontrei, a partir daquele momento, para sentir-me segura.

Depois, descobri um método infalível: a piada. Descobri-me fazendo graça de tudo, inclusive das coisas tristes. Era preciso tornar tudo engraçado para não desencadear um processo paralisante da vergonha ao extremo.

Na faculdade, cada anúncio de seminário era uma tortura. Lia, preparava minhas falas, treinava olhar para o além, mas só conseguia fazer a coisa funcionar fazendo graça.

Agora, estou numa fase da vida em que as apresentações não podem ser recheadas de piadinhas. Sinto-me deslocada, incapaz de por para fora aquilo que sei, aquilo que preciso dizer. O suor chega a pingar, o que aumenta meu desconforto e a vontade de que um buraco se abra e me engula.

Na última fase do concurso para professor, que fiz hoje pela manhã, o medo apareceu às 6:30h. A  seguir, a primeira dor de barriga. Às 7:30h mais uma vez, o pânico deu as caras, e o calor fez com que a sensação de terror aumentasse. Até a audição fica prejudicada. Durante a apresentação, as palavras fugiram, as pernas tremeram, o suor escorreu e minha voz saiu esganiçada.

Na volta pra casa só pensava em minha cama, protetora, em meus gatos que não se importam com minha falta de habilidades sociais e meus livros, onde esse tipo de coisa chega a ser charmosa…

A única alegria é saber que tudo isso acaba e que, para todas as outras situações da vida, eu posso fazer uma piada…

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