Quando é hora de dizer adeus?

theojovem

Theo é o cachorro sorridente aí da foto ao lado.

Ele tem uma história longa, cheia de detalhes. Foi encontrado atropelado, há alguns anos e trazido aqui pra casa. Uma casa cheia de gatos. Não era nosso intuito ficar com ele. Nosso objetivo sempre foi ter nossos gatos e só. Mas depois de buscas incansáveis, seu possível dono nunca apareceu. Outros se candidataram a ficar com ele, mas pelo visto, as estrelas já haviam decidido: Theo vai  ficar aí com vocês e esse bando de gatos! E ele ficou.

Cachorro esperto, alegre, brincalhão e manhoso. Nunca foi daqueles que se contentava com o que estava no prato! Não! Ele queria variedade! Enjoa fácil de tudo o que é oferecido, menos de doce! É viciado em doce, esse danado.

Mas Theo tem um problema: o atropelamento deixou sequelas. Aquela coisinha que aparece atrás dele é a patinha que nunca mais foi a mesma.

Fico pensando, muitas pessoas devem ter passado por ele, jogado na avenida, vendo o sofrimento dele, e não pararam. Como puderam? Haveria realmente uma conspiração do Universo para que ele chegasse até nós e nos mostrasse alguma coisa?

O fato é que os anos passaram, o Theo acabou aprendendo a conviver com os gatos e eles com Theo. Quando chegava o fim do ano, essa época escabrosa, em que pessoas irritantes ficam estourando fogos de artifício, colocávamos o Theozinho pra dentro de casa, junto com os gatos, para que ele ficasse protegido da insanidade do mundo lá fora. Os gatos pareciam olhá-lo como a dizer: “que espécie de gato esquisito que ele é…”

Theo aprendeu nossos horários (e o nome, claro, porque tivemos que dar um a ele) e nos esperava sorridente. Mesmo detestando banho, ficava feliz ao retornar no petshop porque sabia que íamos abraçá-lo, beijá-lo e fotografá-lo como se ele fosse uma celebridade. Ficava todo exibido.

Mas o tempo também foi cruel. Theo foi ficando cego e surdo. E a perninha cada vez mais fraca. Por vezes ele estava tão tristonho que achamos que fosse morrer. Mas ele sempre resistia.

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Esse ano, quando tivemos a certeza de que ele partiria, um exame nos mostrou que ele estava melhor que a gente. Mas agora penso que nos fiamos numa ilusão.

É com o que vejo que reflito que a pior coisa que existe na convivência com essas adoráveis crianças é o fato de elas não poderem nos comunicar o que querem, o que precisam, o que podemos realmente fazer para ajudá-las.

Dia desses acordei de madrugada com seu lamento, pois ele havia caído num buraco no quintal. Ele não viu onde pisava e mesmo sendo um buraco raso, não teve forças para sair. Acordo quando ele cai e derruba o pote de água, acordo quando ele cai e bate na porta, tentando achar a entrada de sua casa. Ajudo-o a entrar em seu cantinho, reponho sua água, carrego-o no colo, mas…Como saber se ele sofre? Theo já não late há muito tempo. Acho que há mais de ano não ouço sua voz.

Ele se alimenta bem, mas dá pra contar seus ossinhos. Não nos vê mais. Sente nosso cheiro mas não sabe mais a que horas saímos ou chegamos em casa. Às vezes cai e não consegue levantar. Tropeça, derruba a água, não vê a comida, tromba nas coisas, acaba se machucando.

Ele brinca com a gente, reage aos estímulos. Mas posso dizer que há qualidade de vida? Posso dizer que ele é feliz? Theozinho não aguenta mais um passeio na rua, não consegue subir na calçada, não pode morder coisas mais duras. Theozinho, que andava feliz pelas ruas, já que surdo, não se importava com os insultos dos cães da vizinhança, não anda mais que alguns minutos no quintal.

Aquele olhar que ele nos dá, faz tremer, pois uma hora teremos que dizer adeus. Uma hora que sabemos que chegará, e que a cada dia parece estar mais próxima. O pior temor é ter em nossas mãos a decisão de aguardar essa terrível hora ou antecipá-la, através da eutanásia.

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Todos os dias me pergunto o que é o certo. Como vou saber se ele está bem ou se é chegada a hora de levá-lo para descansar. E todos os dias fecho os olhos lutando não não ver, para acreditar que não teremos que dizer adeus a nosso pequeno guerreiro, sempre tão sorridente.

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