Dos velhos

velhinho

Há pouco mais de três anos comecei a trabalhar com aposentadorias. Não foi uma escolha minha. Meu chefe à época estava saindo de férias e para que quando ele retornasse não tivesse muitos processos sobre sua mesa, me ensinou o básico. Nunca mais deixei o serviço, e olha que não foi por falta de tentar.

Não que tenha sido uma opção minha, logo no início ficar na aposentadoria; ao contrário, eu queria logo largar aquilo e voltar pro meu arquivo, longe de pessoas, telefones etc. Porém, por esses mistérios de que a vida é feita, fui me afeiçoando ao trabalho, aos processos e às pessoas que eu atendia. Mudei o método de atendimento, inventei coisas novas, excluí o que achava não ajudava em nada, enfim, montei meu estilo de trabalho. E acabou acontecendo o pior. Me apaixonei pelo que faço.

Não entendam mal. Eu não passei a gostar de trabalhar! Não mudaram minha essência! Ainda continuo aqui. É só que dentre todas as coisas que já fiz na vida profissional, e foram muitas, atender a meus velhinhos – e nem todos são realmente velhinhos – é de longe a mais gostosa, a mais rica, a mais interessante experiência por que passei no mundo do trabalho.

E, algo que eu jamais imaginaria, meus velhinhos, como carinhosamente os chamo, acabaram invadindo outros ambientes em minha vida…

Até 2010 eu estudava fenômenos religiosos. E ainda é algo que me interessa demais. Porém, naquele período eu estava tentando o mestrado e não queria nada sobre religião. Queria dar um tempo, depois de anos no mesmo tema. Resolvi pesquisar o tema mulher. Mulher e corpo, mulher e poder, mulher e qualquer coisa. E aí estava um imenso problema, porque eu realmente não me sentia ligada ao tema, não era algo que me tocava.

Comprei livros, li muita coisa, escrevi algumas porcarias, fiz inúmeros cursos, participei de n palestras. A única coisa que eu conseguia era ficar mais desanimada. E quando não passei na seleção, chorei é claro, mas no fundo, no fundo eu sabia que meu projeto era um lixo e que não merecia virar nada.

E aí eu ficava olhando para a vida e pensando o que é que despertaria em mim aquele interesse que senti tomar conta de todo o meu ser, como foi em 2001 com os sem terra – e que me rendeu um de meus melhores trabalhos, ao menos em minha opinião – e depois, no fim de 2002 com o islã, que foi meu projeto de iniciação científica, minha monografia e rendeu alguns artigos. Nada me interessava de verdade.

Um dia, em dos tantos atendimentos, um senhorzinho, já aposentado, de nome José, apareceu. À princípio eu não deveria atendê-lo, já que atendo a pessoa até a data de sua aposentadoria e então ela passa a ter outros canais de comunicação. Mas eles sempre acabam me procurando. E aquele José chegou num dia terrível. Minha mesa estava cheia de processos, daqueles que você não vê a hora de se livrar. E ele falava, falava. E perguntou se podia contar uma história, afinal eu “não devia ter muito trabalho, né?”. É. Pode falar. Eu ri. Tudo bem.

A primeira coisa que ele disse foi que os jovens nunca têm tempo para ouvir os velhos, mesmo quando estes têm muitas coisas importantes para falar. Depois me mostrou um jornal de 1985 (!) e perguntou quem eu conhecia dali. Ninguém, meu senhor, eu era uma criança em 85… Na verdade, respondi “Conheço o senhor”, afinal o nome dele aparecia na legenda de uma foto em preto e branco. E ele me contou a história daquele jornal e muitas outras. E naquele dia, sem que eu me desse conta, nascia em mim uma nova paixão.

Passei a ver meus velhinhos com mais paciência, atenção, carinho, interesse. Muito, mas muito mais que antes. Eles passaram a ser importantes para mim. Mais que processos, se tornaram, enfim, Meus Velhinhos. E ali, assim como quem não quer nada, surgia o tema de meus novos estudos.

E como, às vezes, a vida imita a arte, os livros me fazem chorar e as histórias reais de meus velhinhos também.  E não falo de livros de ficção, romance. Falo de livros de antropologia, história, psicologia, política.

Tratar da velhice e do envelhecimento requer um preparo e um equilíbrio emocional que eu sei que não tenho. Me questiono se sou mesmo capaz de dar conta de tudo o que tenho me proposto. Mas ao mesmo tempo, vejo que o que faço é tão pouco perto do que eles precisam, que é ridículo me sentir assim.

A coisa que mais desejo hoje é poder manter essa serenidade no atendimento de meus velhinhos, essa disposição que o seu José despertou em mim, de ouvi-los, mesmo quando estou cheia de coisas para fazer, de ser um pouco mais humana e estar um pouco mais disponível. E não faço questão de estender isso a todo mundo. A verdade é essa. A verdade é que os velhinhos ganharam um espaço que eu nem achava que existia. E agora é difícil não perceber seus olhares, rir seu riso, sentir suas dores, sofrer com eles, levar para casa suas histórias e querer de alguma forma contá-las.

Quero também produzir um trabalho bacana, que talvez um dia sirva para alguma coisa, para tornar a vida deles mais alegres talvez, para que eles não sejam mais invisíveis e maltratados.

E é tanto querer, tanto querer que a gente vai se perdendo… Como sempre acontece quando me sento a ouvir uma história… Um dia conto uma… Meus velhinhos já me contaram tantas, que assunto é que não há de faltar…

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