De receitas e artigos

Um dos maiores temores de quem escreve é ficar sem “ideias”. É como se de repente o próprio ar fugisse, como se os olhos ficassem cobertos por espessas névoas, as mãos atadas…

E não há muito o que se fazer em períodos assim. No entanto, a espera, porque o que resta é esperar, é sempre lenta e agoniante.

Há dias que penso e penso – e preciso escrever sobre – em meu tema de artigo: a velhice e suas múltiplas facetas. O tema é riquíssimo e deveras interessante. E não é que não tenha ideias. Eu as tenho aos borbotões! É que na hora de colocar no papel, ou melhor, de transcrevê-las, de passá-las da minha mente inquieta para a tela fria do computador… Tudo se perde.

Mentira! Não se perde. Simplesmente parece que minhas ideias perdem a graça, o viço, a fluidez.  E nesses momentos cada movimento na casa parece ganhar força, vigor, a tentar tirar minha atenção para sempre daquilo que sei, mais cedo ou mais tarde, terei que fazer.

Olho para a estante e percebo que preciso urgentemente de um dicionário decente. Não! Eu não gosto de pesquisar palavras – nem muitas outras coisas – na internet, a despeito da agilidade. Vejo que preciso pentear mais uma vez os meus gatos, e terminar a leitura do Foucault e verificar os preços de novos livros e acompanhar os lançamentos literários e o calendário da universidade e a atualização dos amigos nas redes sociais e anotar aquela receita da minha mãe e postar as fotos do meu pai e responder aquele email que está parado na minha caixa de entrada há semanas e orçar a reforma da minha poltrona e decidir se faço licenciatura ou não e verificar a inscrição do concurso e pensar se quero mesmo fazer esse concurso e acender mais um cigarro e massagear meu pulso dolorido e fazer um chá e…

Assim, as horas vão passando, os dias vão passando, o mês vai passando. Logo, logo o ano acaba! E não terei mais desculpa alguma – ou até terei, só não terei mais tempo para procrastinar – para evitar o inevitável. Eu sei disso. E é estranho saber disso e começar o dia com medidas que deveriam auxiliar na ordem das coisas – seja lá o que isso queira dizer.

Acordo, espreguiço-me lentamente, como meus gatos me ensinaram, levanto e tomo o meu café. Recostada na poltrona e com as pernas sobre a mesa, acendo o primeiro e mais saboroso cigarro do dia, frente a frente com o netbook e uma pilha de textos e anotações. “Ok. Vamos lá! Mãos à obra!” Então levanto e olho para o outro computador. Ligou ou não? É claro que não. Se o ligar inevitavelmente cairei em páginas e mais páginas sobre qualquer coisa que não me auxiliará a escrever uma única linha de meu artigo.

Sento-me novamente em minha poltrona e abro o arquivo. O título do artigo é lindo. Fico ali admirando o título. “Que lindo. Soa tão bem…” “Pois é, mas um artigo tem mais conteúdo que um belo título, não é mesmo?” Sou eu brigando comigo mesma.

Uma página depois, sinto-me quase uma vitoriosa. E arrumo um novo motivo para não conseguir escrever: voltou a esquentar.

O jeito, é claro, é falar sobre essa mania de unir o inútil ao desagradável (isto é, a falta de esforço, a má vontade, a preguiça, a inabilidade em contornar a vontade de não fazer nada, ao calor dos primeiros dias de novembro) para, ao menos tentar, dar um choque em mim mesma. Do tipo que em geral esperamos receber dos outros.

Mas agora, ao fim destas linhas percebo que meu cigarro queimou sozinho, inteiro no cinzeiro enquanto minha xícara de chá esfriava esquecida, quando entre uma ideia e outra eu tagarelava com minha mãe ao telefone, anotando, enfim, aquela receita.

 

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