Então, o dia…


Não sei bem por que, mas parece que quando eu era criança as mulheres de trinta eram mais velhas.
Minha mãe, por exemplo, aos 30 já tinha dois filhos: eu com 8 anos e meu irmão com 6.
Olhando para trás, minhas lembranças me traem. Pareço ver tais mulheres já com as marcas da idade estampadas no rosto e o início dos cabelos brancos, com tantos afazeres que somente em próprias fotos e lembranças poderiam lembrar-se da juventude.
Hoje, aos trinta anos, não consigo ainda imaginar-me assim. Ao olhar-me no espelho não enxergo a idade que os documentos insistem em afirmar.
Claro, a gravidade e a vivência deixaram suas marcas – e insistem em continuar deixando – mas porque diferem tanto das mulheres de minhas memórias?
Aos dez anos eu achava que poderia morar sozinha e ser independente. Aos 18 parecia que estava velha demais, mas aos 20, quando enfim saí de casa, parecia uma garotinha assustada.
Hoje, bem… Continuo carregando velhas dúvidas, alimentando medos – os novos e os de outrora – mas é como se alguma coisa não acontecesse: como se de fato eu não estivesse ficando mais velha.
Vejo ainda a menina assustada e ao mesmo tempo destemida, cheia de sonhos. Vejo a menina que custa a levar algo a sério, mas que encara a vida com a seriedade própria de uma “geniosidade” ímpar.
Vejo uma menina. Sim, uma menina que parece andar na contramão da idade, na contramão da realidade, e talvez seja esta a fórmula.
Talvez seja o fato de alimentar tantos sonhos e de agir como se tudo fosse durar para sempre, ou de viver como se hoje fosse o meu último dia por aqui e desejar ficar em silêncio e sozinha até o fim. Não sei. Talvez não se possa saber.
Talvez as mulheres de hoje – de minha geração – tenham, em suas vidas, passado pelas coisas com mais leveza e alegria que as de outros tempos e isso nos dê a vantagem de não parecermos tão sérias (ou devo colocar outros termos?). Talvez seja nossa comida… Não sei. Não sei mesmo, e confesso que embora o fato de não saber me irrite, o fato de não saber também me anima. Pode ser esse o motivo de me considerar mais menina que mulher. Mais uma criança que ama brinquedos que uma adulta que assume, sem pestanejar, suas responsabilidades. Afinal, para que mais responsabilidades que a de garantir um dia inteiro de paz e alegria? Principalmente por não saber se será o último…
O fato é que agora, aos meus longos trinta bem vividos anos, desejo não mudar muito; desejo que a natureza seja bem bondosa comigo – por que não sou muito dedicada – e que eu possa me considerar merecedora dos presentes que tenho recebido ao longo destas três décadas: uma família absolutamente maluca (e incluo aqui meus gatos) e os amigos mais incríveis que poderia existir.
Realmente, eu só tenho a agradecer. Pelo menos, por trinta vezes…
* * *
À propósito, escrevi este texto numa madrugada, em 16/01/2010, quase um ano antes, tamanho foi o desespero que tomou conta de minha alma no período pré-trinta…
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