Enfim, o fim

Nunca gostei das festas. Em especial das festas de fim de ano. Em geral há um estardalhaço desnecessário, todo mundo fingindo, ou talvez, me pergunto, esperando um momento para poder se libertar das amarras do cotidiano e entrar numa fantasia com data e hora para acabar.
As festas de fim de ano então, para mim, são muito deprimentes.
As pessoas que se odiaram o ano todo chegam e se cumprimentam dando a falsa impressão de perdão, para na próxima semana – se muito – voltarem aos velhos rancores e mágoas. A antiga mágica é um mito. O negócio é gastar muito, comprar presentes que lembrem aos outros a tua existência, nem que seja só por mais um ano. É sempre a mesma coisa: a chatice do amigo-secreto, a mesmice de abraços frios e desejos sempre iguais de feliz natal e próspero ano novo. Mas que prosperidade? Na maioria das vezes sonhamos com o “muito dinheiro no bolso” e a “saúde pra dar e vender” a gente compra com esse dinheiro.
Enfim, sempre uma lorota, na qual, às vezes, você se deixa cair.
Em casa sempre tivemos um diferencial: é aniversário do meu pai. Não que isso marque muito a nossa festa de fim de ano, mas na maioria das vezes é apenas isso o que comemoramos.
Desde que saí de casa, no entanto, não tenho para mim como tradição voltar nesta época para passar a data entre os parentes, até porque isso mais me aborrece, mas em 2008 e neste ano, fui até lá para comemorar o aniversário do patriarca septuagenário.
Encontrei alguns parentes que há tempos não via, matei a saudade dos pais, e sofri com um colchão péssimo, num quarto pra lá de quente com muitos mosquitos como presente de natal, o que sem dúvida afastou qualquer remota idéia de permanecer mais tempo por lá. Mas duas coisas fizeram a viagem de 150 km valer à pena: o brilho inconfundível nos olhos de meu pai ao tirarmos o bolo surpresa e cantarmos parabéns como há muitos e muitos anos não fazíamos, e a certeza de que mais um passo foi dado.
Mais um passo rumo ao fim: ao fim das incertezas, dos medos, das tentativas frustradas, dos erros, das saudades, dos sonhos deixados de lado, dos projetos esquecidos, enfim de tudo o que planejamos há quase um ano e que por qualquer motivo que seja não deu certo.
Agora, rumamos para um novo ano, que para variar, traz com ele, todas as certezas que já tivemos, toda confiança que precisamos, todo brilho que queremos. A época das esperanças renovadas.
E quanto a este ano, bem ou mal, enfim, fim.
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