A prisioneira

Aquela menina encantava. Tão cedo dada à arte de escrever.
Aprendeu a ler nos rótulos de produtos que a mãe comprava, sentada na escada de casa.
Na escola lia, escrevia, surpreendia. Todos os dias uma nova história.
Aos poucos escrevia seus pequenos livros. Livros para ela. Guardava-os com todo carinho em seu baú de recordações.
Mas para ela, nem sempre escrever era uma tarefa fácil: precisa se imaginar no papel de casa personagem. Precisava saber se aquilo poderia existir, se as emoções poderiam alcançar aquele ápice do qual ela falava. Então, atuava. Uma, duas, inúmeras vezes, até encontrar a perfeição. Era preciso dar vida às suas histórias.
Quando lia, não fazia grandes exigências: gastava do título, da capa, do nome do autor. Mas após as primeiras linhas, se não conseguia imaginar com ela mesma qualquer uma daquelas situações, abandonava a leitura. Dizia que o autor era um farsante. Concordava que escrever sobre as pessoas que se conhece não parecia boa idéia, já que se pode sempre omitir ou aumentar um fato como melhor convier, mas inventar sentimentos e situações que nenhum ser humano no mundo poderia viver… isso era inadmissível.
A menina cresceu, tornou-se moça, e os mesmos hábitos mantiveram-se. Nas aulas de português, era a menina dos olhos dos professores. Suas redações eram sempre premiadas. Os colegas alegavam que ao menos tinha um talento para se orgulhar, já que não era bonita, nem sequer elegante. Ossos longos, finos, pele pálida, como estivesse sempre se recuperando de um susto. Enquanto as garotas de sua idade já usavam sutiã, ele continuava com suas camisetas largas que não tinham o que esconder, seus jeans e tênis ha muito fora de moda.
Mas para o velho professor de português e literatura ela era um legítima pérola. Seu silêncio, sua languidez, sua timidez que a impediu tantas vezes de ler um de seus textos em sala ou nas semanas de comemoração da escola, tudo isso, segundo o velho professor, eram características de uma grande artista.
Segundo ela, tudo isso era repulsa. Repulsa por essa gente que se achava melhor que ela porque ficavam horas diante do espelho, ou correndo em esteiras indo para lugar nenhum. Repulsa pela vida sem sentido que guiava a muitos.
Não arrumava namorados, primeiro porque para eles, ela era estranha demais – “quem sabe não é sapatão?” diziam uns – depois porque para ela, estar ao lado de um corpo que não tivesse conteúdo algum era a pior desgraça que lhe podia ocorrer.
Passou os anos em livrarias, sebos, cafés culturais, sempre sozinha mas estranhamente feliz.
Alguns anos depois de se resignar a sair de casa apenas para o absolutamente necessário – vendia crônicas para um jornal da cidade – acordou de um pesadelo. Buscou incansavelmente uma ponta de sol que entrasse em sua casa, pela janela do quarto, da sala, da cozinha, do banheiro.
Não encontrou.
Sentou-se, respirou fundo. Afundou cada vez mais na poltrona e deu-se conta que era impossível sair dali. Havia criado uma muralha. Uma muralha de livros que lhe fechou todas as saídas, mas na qual vivia sua realidade treinada, feliz, mutável e ricamente elaborada na ponta de seu lápis.
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