Todas as mulheres são mães.

Durante nove meses uma mulher nos carrega dentro de si.

Nos leva em seu mundo para onde quer que vá. Esta é nossa primeira mãe.
Depois o mundo nos apresenta outras, muitas outras.
Mulheres pretas, mulheres brancas, mulheres vermelhas, mulheres amarelas. Mulheres de todas as cores.

Mulheres jovens, mulheres velhas, mulheres sem idade. Mulheres de todos os tempos.
Mulheres-mães, mulheres-irmãs, mulheres-amigas, mulheres-pais, mulheres-tias, mulheres de corpo e de alma, de corpo ou de alma. Mulheres de corpo e alma.
Mulheres falantes, mulheres silenciosas, mulheres-olhares.

Mulheres corajosas, mulheres com medo, mulheres fortes, que lutam. Mulheres.
Mães de crianças, mães de adultos, mães de sonhadores, de guerreiros; mães de gatos, de cachorros, tatus e girafas. Mães de todos os seres.
Mãe-água, mãe-ar, mãe-fogo, mãe Terra. Mãe de todos os elementos.
Mães de planos, de ideias, de sonhos. Mães.

Mães que ensinam, mães que aprender. Mulheres que entendem. Mães.

Obrigada a todas as mães. Às mães de colo, de ombro, de mãos.
Mães de todas as horas, de cada momento, de determinadas situações. Mães para todos os dias.
Sem vocês não seríamos quem somos. Não estaríamos aqui.

*           *           *

Neste dia das mães agradeço a todas as mulheres que entraram em minha vida, que seguraram minha mão, que acreditaram em mim mesmo quando eu deixei de acreditar. A todas que puxaram minha orelha, corrigiram meu caminho e me ajudaram a trilhar a estrada. A todas que acalentaram meus sonhos, aqueceram meu coração e me encheram de esperança. Um muito obrigada parece pouco demais diante da imensidão de vida e de sonhos que vocês me deram.

Romance das Ciências

Eu nunca pensei em fazer ciências sociais.

Nem ao menos soube o que era até completar 18 ou19 anos, já não me recordo bem. Mas antes de conhecê-las tomei ciência do que era a antropologia, por acaso, num programa da Discovery Channel sobre uns antropólogos estudando um grupo africano e seus ritos de passagem. Foi amor à primeira vista. Decidi que faria esse curso.

Comprei uma edição do guia do Estudante e descobri que havia poucos cursos de antropologia no país, no entanto, as ciências sociais eram uma excelente opção. E havia um curso fresquinho, sendo inaugurado na UEM – Universidade Estadual de Maringá – há cerca de 150 km de onde eu morava na época.

“Vou fazer vestibular para ciências sociais”, decidi, então.

E assim em 2001 iniciei o curso que mudaria – intelectualmente – a minha vida. E isso sem exagerar.

Logo de cara descobri o que eram as tais ciências, e como elas poderiam ser chatas e cansativas, mas como podiam também me fazer pensar de maneira diferente, de maneira nova, tudo o que eu já havia pensado e visto e como poderiam – e de fato fizeram – me apresentar coisas novas, inéditas para mim. Filmes, desenhos, notícias. Tudo poderia ser visto de ângulos diferentes daqueles aos quais estava acostumada. E falando assim, parece que estou romanceando a coisa, mas de fato, recebi tudo aquilo de braços e coração e, principalmente, mente abertos.

Economia, política, religião, família, cultura. Tudo o que ou parecia chato demais para ser debatido ou próprio demais para ser questionado, pareceu ser interessante e intrigante demais para ser deixado de lado. E assim, tornei-me uma cientista social em 2004 (ou pelo menos é o que diz o meu Diploma). Amando profundamente estas ciências – política, sociologia e antropologia – que dialogam comigo, que questionam meus pré-conceitos – porque não há fórmula mágica que nos faça esquecer tudo e começar do zero – que, enfim, abrem meus olhos para as mais diversas manifestações humanas.

Olho minha família de maneira diversa daquela à que estava acostumada, e no início isso dói bastante. Mas encontrei também respostas para dilemas que sempre me torturaram. “Uma mulher precisa casar e ser mãe.” Talvez tenha sido (e ainda é) a coisa que mais ouvi em casa. E o que as ciências sociais me ensinaram a respeito? Que não. Essa não é uma verdade absoluta, mas uma construção social, cultural. E que sim, você pode fugir disso, mas sofrerá com algo chamado coerção social.

Mas você sobrevive.

Sobrevive porque a mesma sociedade que te dá as regras te ensina como burlar essas mesmas regras. E você acaba achando graça nisso tudo.

Política, religião e futebol, as coisas que aprendemos que “não se discutem” viraram temas constantes nas conversas em família e me tornei a chata de plantão. Com muito orgulho.

Não vivo das ciências sociais. Elas, aliás, não me renderam um único centavo nestes 11 anos. Mas me proporcionaram algo que considero muito mais importante: condições de pensar o mundo, e, em especial o mundo em que eu vivo, mas também condições de pensar sobre quem sou, quem somos e porque somos.

Penso em continuar meus estudos, porque realmente amo o que aprendi e aprendo, mas ainda preciso pagar minhas contas e não decidi se quero dar aulas, o que de certa forma inviabiliza um ganho financeiro em curto prazo na minha área.

Se há arrependimento? De meu ponto de vista não. Porque não me arrependo de ter aprendido muito mais do que um dia imaginei, e por saber que as portas e janelas deste conhecimento, estão e estarão sempre abertas.

 

Pela vida

 

 

 

 

 

 

 

Eu preciso me apaixonar

E ficar cega de amor.

Quero ver o mundo

Com a ótica dos poetas.

Quero ouvir música

No som de sua voz.

Quero o frio na barriga

Quero o arrepio de prazer.

Quero me apaixonar.

Mais que isso,

Preciso me apaixonar.

Preciso.

Me apaixonar…

Pela vida.

Ventania

Na tarde vazia, na noite silenciosa, em qualquer tempo em que se possa estar, a brisa me traz as lembranças de uma vida vivida e de uma vida imaginada.

Do brilho dos olhos ao perfume da pele, do sorriso maroto, da risada infantil, ao mais leve sopro do vento passo a sentir-te.

Com os cabelos ao vento, brincávamos no caminho de volta. Voltando para o mundo real após termos encontrado uma felicidade mágica, construída especialmente para nós naquele mundo que sonhamos de mãos dadas.

Agora que não mais tenho permissão para adentrar tal mundo resta-me apenas o sinal de que ele existiu. O sinal, dá-me o vento, com o farfalhar das árvores, das folhas que caem, das folhas que voam, indicando que também a saudade se vai.

Quando o vento voltar  trará você e quando se for levará partes de mim, de modo que para sempre estaremos juntos, balançando, como num sonho, sobre a terra sem fim.

Adeus 2011

É com imenso alívio que me despeço de 2011.

A ideia de que uma nova vida começa como fim de um ano e início de outro renova as esperanças. Traz uma espécie de paz ao espírito, de leveza.  Mas com relação a 2011 esse sentimento parece mais forte, mais intenso.

Não que 2011 tenha sido inteiramente ruim, mas certamente foi um dos mais duros e difíceis para mim.

Em 2011 eu viajei, eu aprendi um monte de coisas novas, eu tropecei e cai, mas também levantei. Em 2011 eu matei a saudade e a saudade tentou me matar. Eu chorei muito, ri muito, me desesperei, esperneei e tentei olhar adiante mesmo com os olhos marejados de lágrimas.

Em 2011 eu perdi de vez a fé, mesmo que tenha ido em busca dela num dos maiores santuários do país.

Em 2011 em vi como as pessoas se vendem por pouco, como trocam de lado por qualquer valor em dinheiro, como são capazes de trair a si mesmas, de calar, de dar as costas a tudo o que acreditam ou acreditavam ou diziam acreditar. Mas também vi pessoas lutando bravamente, enfrentando todas as dores e seguindo em frente por aquilo que crêem.

Eu revi pessoas que há anos não via, reencontrei pessoas especiais e perdi outras pessoas. Algumas perdi temporariamente, porque se afastaram para encarar a vida em outras cidades, em outros países. Outras eu perdi para sempre. E essa dor é uma das que eu desejo que 2011 leve consigo.

Em 2011 em bebi para comemorar, para esquecer, para acalmar a mente e para acalmar o coração. Eu tentei assim aliviar toda a dor que me acompanhou neste ano.

Eu fiquei muito tempo em silencio repassando muitos momentos da minha vida, olhando para o teto, para o céu, para as paredes, para fotos, para livros, para dentro de mim.

Eu desaprendi a chorar, me senti triste, perdida, sozinha. Eu reaprendi a chorar e isso me trouxe alívio. Eu continuei me sentindo triste e até acredito que algumas almas são sempre assim. Eu encontrei amigos onde não esperava, e eles diminuíram minha solidão e portanto sou grata a eles.

Mas em 2011 eu não construí nada de novo, não dei passos significativos, não lutei por nada que eu queria, não corri atras das coisas que desejei. Eu simplesmente desisti de muita coisa. Eu me abandonei. E o pior não foi isso, foi não me importar com isso. Foi simplesmente fechar os olhos para a vida e não lutar mais por ela, nem por nada.

Em 2011 eu vivi muito mais na minha cabeça, na minha realidade inventada que no mundo real, porque o mundo real me machuca demais e não encontrei, ao longo do ano, forças suficientes para curar minhas feridas e seguir de cabeça erguida. Não encontrei em mim o apoio que precisava.

Em 2011 os baques foram duros demais, e eu busquei ajuda à minha maneira, mesmo que muitos não acreditem nisso.

Eu disse mais “eu te amo”, agradeci mais a presença das pessoas, me entreguei mais. Mas não de todo, porque certas coisas não são exatamente como sonhamos. O que eu fiz, tentei fazer da melhor maneira possível, pois acredito que se não for assim não valerá à pena.

Eu conheci pessoas incríveis, pessoas falsas, pessoas más, pessoas comuns, pessoas como eu, que riem, sofrem, sonham.

Eu tomei ciência – e senti na pele – da maldade dos outros, do ódio. E isso sim fez, com que no geral, eu detestasse este ano que finda agora; fez com que eu acreditasse menos na humanidade e me jogou de vez para dentro do meu mundo seguro, mas que infelizmente, não existe além de minhas quatro paredes.

Eu questionei minha sanidade muitas vezes, percebi como minha memória me trai, como algumas lembranças são confusas, mas também como algumas surgem quando menos se espera, e senti um medo imenso de perdê-las para sempre, e tentei anotar tudo, porque sem elas eu não seria mais eu, e isso, isso sim é algo que tento, a todo custo, evitar. Mas também, com as perdas de 2011, percebi que algumas lembranças ficarão para sempre ali, sem questionamento, sem correções, em preto e branco, para sempre na dúvida.

Em 2011 eu perdi metades minhas. E a cada dia tento remontar o quebra-cabeça da minha existência. É uma dura tarefa.

Em 2011 eu envelheci muito. Espiritualmente falando. Termino o ano imensamente cansada.

E em 2011 eu desisti de acreditar que algum milagre vai acontecer. Assim, eu não espero que 2012 seja especial. Não espero, porque não acredito mais. Eu só desejo que em 2012 eu tenha forças para seguir, para me levantar.

Que 2012 eu possa continuar sonhando, que eu possa lutar pelo que eu acredito. Que eu possa continuar encontrando as pessoas que eu amo e que me amam. Que eu tenha sabedoria para saber esperar, leveza para encarar a vida com mais sorrisos que lágrimas. Paz para analisar as situações e agir da melhor maneira. Que eu possa ensinar e aprender, para isso, desejo humildade.

Adeus 2011. De você não carrego saudades!

 

Eu não gosto do Natal

Se tem uma época que eu não gosto, essa época é a do Natal. As mesmas pessoas que passam o ano inteiro sem sequer saber se você está bem, aparecem para aquele abraço, na tentativa, talvez, de ter seus “pecados” perdoados nestes dias em que o amor deveria reinar.

Mas o amor não reina mais. O Natal agora é só uma época de compras, muitas compras, em que você, seu amor e sua dedicação serão medidos pelo valor do presente.

Houve um tempo em que o natal representava a união familiar, as pessoas se reuniam para agradecer e para desfrutar da presença umas das outras. Mas isso foi há tanto tempo que poucos se recordam.

E essa comercialização do Natal é um dos  motivos de eu não gostar dele. Mas não é nem de longe o principal. Ainda que o sentido original tenha se perdido, ou esteja se perdendo, esta época inspira a reflexão, o peso das ações, a avaliação do ano. E  na maioria das vezes o resultado não é muito bom. Para este ano principalmente.

No fim de ano, as festas, os sorrisos, a alegria que surge do nada – e que muitas vezes nem é de verdade – nos recorda tudo aquilo que perdemos, tudo o que os foi tirado, todos os sonhos roubados. Também recordamos as alegrias, obviamente. Nada é sempre tão ruim. Nem tão bom. E é aí que mora o problema…

Hay días que no sé lo que me pasa…

http://www.youtube.com/get_player

Há dias em que realmente não sei o que se passa, porque parece que tudo anda tão mal. Em alguns dias tudo parece correr bem, tudo parece ser “normal”. Em outros, no entanto, a dor de viver cresce desmesuradamente. A canção na qual se ouve “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” explica bem esse sentimento. Sim, a dor de viver!

Busco, freneticamente, aplacar toda essa dor, essa confusão aprendendo coisas novas ou tornando novas as coisas velhas, aprendendo a olhar tudo com um novo olhar, lutando contra o que parece ser mais forte que eu. Culinária, artesanato, leituras, animais, conversas, encontros, passeios. Tudo é cuidadosamente avaliado na intenção de fazer do dia uma coisa menos desesperadora, menos angustiante. E, às vezes, até consigo.

Passo longas horas rindo, brincando e concentrada numa nova tarefa, ou numa velha tarefa. Concentrada nos novos olhares sobre as coisas de todo dia. Noutros, porém, por mais que não me dê conta, sou pega presa num passado que nem tenho certeza de ter existido. Ou num presente que deixa de existir, porque não vivido.

As lágrimas misturam-se com a água do banho, ou nas ruas, com a chuva. Molham o travesseiro, aliviam e lançam dúvidas, medos e às vezes esperança.

O difícil equilíbrio! Se houvesse um manual de viver talvez me fosse de grande ajuda. Por outro lado, poderíamos ter experiências genuínas de amor quando seguimos uma cartilha? E o que torna a vida tão terrivelmente profunda – em dores e em alegria – seria esse mesmo amor? O que não nos contam nos preserva ou nos priva?

Há dias como hoje, em que muitas músicas parecem falar para mim, diretamente; em que por mais se tente, não se consegue sair do mesmo lugar.

Trinta dias

Enquanto vocês esperam, talvez eu vá andando.
Não posso parar porque me lembro da dor.
Enquanto vocês ignoram, eu luto para crer.
Não posso mudar, eu preciso lutar.
Enquanto vocês esquecem, eu sofro.
Pedaços de mim se vão, dia a dia, aguardando uma resposta.
Vocês fecham os olhos e acreditam que isso é desnecessário.
Eu deito e grito para que o dia recomece. A noite me faz tremer.
Enquanto vocês continuam com suas vidas inventadas, suas felicidades compradas, suas verdades fabricadas, eu choro.
E no choro me uno àquilo que ajudou a me construir, a me transformar, a fazer de mim o que sou. Tornamo-nos um.
E enquanto vocês sorriem, eu procuro no vento o perfume, a imagem, a voz daqueles que lutaram para ver tudo diferente.
Vocês passam por tudo e não mudam.
A vida passa por mim e tento juntar meus pedaços.

Por que escrevo

Há diversas razões para escrever. Algumas me movem mais que outras. Mas todas elas me levam para uma viagem por lugares lindos ou por lugares que temo
Às vezes saio renovada, outras cansada e deprimida, mas após cada experiência tenho a oportunidade de ver as coisas de um modo diferente.
De vez em quando escrevo porque sou melhor escrevendo que falando.
Outras porque me falta coragem para olhar nos olhos.
Às vezes escrevo pois entendo que é assim que posso ser EU, de verdade.
Escrevo para que alguém, ao ler, não pense mais estar sozinho.
Para que alguns possam rir, para que outros vejam que é possível.
Escrevo para irritar algumas pessoas e para saudar outras.
Escrevo porque isso me alegra, porque me alivia, porque sinto que posso compartilhar minhas dores e minhas vitórias.
Escrevo, às vezes, para não me sentir tão só, ou para que não se sintam sós.
Escrevo porque minha mente não consegue parar. Porque minha alma necessita deste momento.
Escrevo, enfim, para não esquecer, mas também, para não ser esquecida.